
Eu tinha acabado de encerrar meu dia cobrindo a CES 2026 no centro de convenções do The Venetian, em Las Vegas, quando tive um estalo: seria bacana testar o serviço de carro por aplicativo sem motorista da Amazon, o Zoox.
Parecia uma ideia simples o suficiente para render um vídeo para as redes sociais em menos de uma hora e ainda dar tempo de voltar para o hotel e descansar.
Só que a minha quarta-feira à noite estava apenas começando, porque, para colocar os pés dentro de um carro da Zoox, eu precisei passar pela minha própria epopeia.
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Isso é claramente um exagero, mas, no calor do momento, realmente parecia que havia uma grande tarefa atrás da outra para ser cumprida. Tudo isso com o simples objetivo de testar um carro sem motorista que já circulava pela cidade havia alguns meses.
O Zoox é um serviço de transporte autônomo da Amazon que utiliza veículos elétricos desenvolvidos do zero para operar sem motorista. Diferentemente de soluções que adaptam carros convencionais, os veículos da Zoox não têm volante, pedais ou banco do condutor, e foram pensados exclusivamente para funcionar como táxis robóticos.
Primeira tarefa: a instalação
O primeiro grande passo foi instalar o aplicativo. A Zoox bloqueia por região o download do app em lojas como Google Play Store e Apple App Store. Assim, quem não tem uma conta americana em uma dessas duas simplesmente não consegue baixar.
Fui então atrás de formas de mudar a região da minha conta da Play Store para instalar o Zoox no Android, achando que o processo seria mais fácil do que no iPhone. Eu estava errado.
Resolvi, então, procurar o APK do Zoox na internet — nada seguro, aliás — e, após desativar várias proteções da Samsung, consegui instalar a ferramenta. Primeira tarefa cumprida.
Segunda tarefa: o cadastro
“Agora é só se cadastrar e chamar um carro”, pensei. Errei. Eu precisava de um número de telefone americano para realizar o cadastro, algo que eu não tinha.
O chip de viagem que comprei funcionava apenas para dados e não permitia receber o SMS de confirmação que o app da Zoox insistia em enviar.
Tive que pedir emprestado um número de telefone de uma pessoa da equipe do Canaltech que mora nos EUA para receber o bendito código.
Essa pessoa ficou a postos para receber o SMS e me encaminhou o dito código via WhatsApp assim que recebeu. Assim, finalmente consegui entrar no app. Segunda tarefa concluída. Agora dava para chamar um carro, certo? Errado de novo.
Terceira tarefa: o local de embarque
Onde eu estava, no Venetian, não havia uma parada oficial da Zoox. Fuçando no aplicativo, entendi que o serviço só faz embarques e desembarques em locais predeterminados, já que ainda está em fase de testes e precisa de áreas específicas para encostar os carros.
Determinado a testar o serviço para você, leitor, caminhei pouco menos de 1 km até outro hotel onde havia um ponto de embarque da Zoox e, então, chamei o carro.
Era preciso cadastrar um método de pagamento, mesmo com a corrida sendo gratuita, mas consegui usar a Carteira do Google para não inserir os números do meu cartão. Vitória. Terceira tarefa concluída.
Quarta tarefa: a longa espera
Segundos depois da comemoração, a realidade bateu na minha cara como o bafo seco e carregado de fumaça de charuto dos cassinos da cidade: o tempo de espera para o embarque era “+45 min”.
A quarta tarefa desenhou ali mesmo: esperar mais de 45 minutos no frio. Pensei em desistir, mas logo me dei conta de que não era como se eu tivesse algo melhor para fazer na capital do entretenimento dos EUA, né?
Esperei cerca de 20 minutos e, finalmente, um carro foi atribuído à minha corrida. O aplicativo passou a mostrar que a espera seria de aproximadamente mais 25 minutos.
Com o tempo, notei que havia muita gente sentada no chão aguardando seus carros da Zoox chegarem, e me ocorreu que, talvez, eu esperasse bem mais do que o previsto.
No total, esperei 1 hora e 20 minutos até o carro chegar. Nos últimos vinte minutos, eu conseguia ver o veículo tentando entrar na rotatória do hotel onde eu embarcaria, mas, por causa do trânsito insano gerado pela CES 2026, os motoristas humanos não tinham a menor paciência para dar passagem ao pobre carro-robô.
Ele ficou ali, parecendo "morto na contramão, atrapalhando o tráfego" por um bom tempo.
Quinta tarefa: feito de bobo
Quando o carro finalmente chegou, a quarta tarefa — a espera — chegou ao fim no mesmo instante em que a quinta se apresentou: eu não conseguia embarcar.
Aproximei-me do veículo pelo menos três vezes, certo de que ele abriria as portas sozinho, mas ele simplesmente me deixava para trás e avançava alguns metros à frente.
Depois de o carro me fazer de bobo por alguns minutos, apareceu um botão de “Abrir portas” no aplicativo da Zoox. Apertei, e finalmente consegui embarcar. Quinta tarefa concluída.
Onde a epopeia deveria ter começado
Eu queria contar a experiência de usar o Zoox a partir deste parágrafo, mas claramente muita coisa precisou acontecer antes de eu sequer sentar no carro. Depois que afivelei o cinto de segurança, tudo começou a funcionar excepcionalmente bem, como eu já esperava.
O carro tem quatro lugares, e nenhum deles é destinado a um motorista. Todos os passageiros contam com uma telinha para controlar a viagem, a temperatura do ar-condicionado e também a música.
Os bancos são macios, e há um carregador sem fio para cada passageiro dar uma reforçada na bateria durante a corrida. Achei a ideia ótima, mas apenas testei o recurso e guardei o celular no bolso para não correr o risco de esquecê-lo no carro ao desembarcar.
Essa precaução tem fundamento na minha última experiência com um carro autônomo: esqueci o celular dentro do veículo, fechei a porta e ele partiu sem dar a mínima para meus acenos desesperados.
Precisei gastar mais de US$ 100 naquela ocasião para ir até a garagem da Waymo, em San Francisco, recuperar o smartphone. Deu tudo certo, mas eu definitivamente não estava a fim de repetir a experiência em Las Vegas com o Zoox.
O carro da Zoox por dentro
Diferentemente dos carros da Waymo, os da Zoox foram construídos do zero para serem táxis elétricos autônomos: sem banco de motorista, sem volante, sem pedais, sem retrovisores. É como ser transportado em um elevador com bancos, ou na gôndola de um teleférico.
Há um teto solar, iluminação interna que imita um céu estrelado e muitas janelas para apreciar a paisagem e observar os motoristas humanos visivelmente irritados ao seu redor enquanto você relaxa.
Também existe um botão de SOS no teto para falar com um atendente da empresa caso algo saia do previsto. Atrás dos bancos, há ainda quatro maçanetas de emergência para abertura manual das portas.
Notei que o carro não se move se o cinto de segurança for desafivelado durante o trajeto. Antes do desembarque, ele para completamente e pede que você pressione um botão na tela de controle para abrir as portas.








Condução autônoma
A condução do sistema autônomo é um pouco mais lenta do que a de um motorista humano. O carro leva mais tempo para decidir virar, trocar de faixa ou estacionar.
Ou seja, neste momento de testes, é preciso ter paciência. Ainda assim, não me senti inseguro dentro do veículo em nenhum momento — e esse talvez seja o aspecto mais positivo do Zoox hoje.
Lembro que andar com o Waymo em San Francisco foi uma experiência mais luxuosa, muito por conta de o carro ser um Jaguar I-Pace. Além disso, o sistema autônomo da empresa ligada ao Google parece mais confiante e rápido, mas também sem transmitir medo aos passageiros.
Os carros da Waymo, entretanto, podem buscar e deixar passageiros em praticamente qualquer ponto dentro de sua área de atuação, enquanto o Zoox trabalha apenas com locais fixos.
Ou seja, o sistema do Google hoje se parece mais com um Uber tradicional do que o Zoox, embora o serviço da Amazon ainda seja gratuito.
Depois do desembarque, chamei um Uber com motorista humano para voltar ao Venetian, já que não dava para encarar mais uma hora de espera no frio — agora com o sol totalmente posto.
A experiência foi tão divertida que quase me fez esquecer toda a epopeia necessária para conseguir aquele carro. Perdi até a conta das tarefas. A última delas, de qualquer forma, foi ter que voltar para casa com outro serviço porque o Zoox simplesmente não é prático o suficiente para ser considerado um meio de transporte real no momento.
Ainda assim, desembarquei com uma certeza clara na cabeça: em poucos anos, haverá mais robôs do que humanos dirigindo para Uber, 99 e outros aplicativos.
É o que faz sentido financeiro no mundo capitalista: controlar verticalmente toda a integração de um serviço e, com isso, lucrar mesmo com margens pequenas no longo prazo.
E a empresa que tiver mais dinheiro para desenvolver carros específicos como o Zoox provavelmente vai ganhar a corrida do carro autônomo.
Só resta saber qual delas será e o que vai acontecer com os milhares de motoristas que, mais cedo do que tarde, vão se ver sem passageiros para levar.
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