
A Copa do Mundo tem um poder quase inexplicável sobre o brasileiro. Basta a bola começar a rolar para a memória puxar imagens que pareciam guardadas para sempre: a rua enfeitada de verde e amarelo, a figurinha difícil que ninguém tinha, a narração estridente do Galvão Bueno no volume máximo, a camisa da Seleção saindo do armário com cheiro de naftalina e aquele grupo de amigos reunido em volta da TV, do console ou do computador.
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Com a bola rolando na Copa do Mundo 2026, este é o momento perfeito para voltar no tempo e revisitar alguns dos jogos de futebol que ajudaram a moldar a relação dos brasileiros com o esporte também nos videogames.
Abaixo, você vê não só nossa seleção de jogos clássicos de futebol para entrar no clima da Copa do Mundo, mas também memórias afetivas sobre os tempos das locadoras, dos fliperamas, de quando trocávamos jogos em disquetes, as idas aos camelôs da cidade e quando todo mundo entendia um pouquinho de japonês.
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12. Sensible World of Soccer (1994)
Antes de os jogos de futebol buscarem realismo a qualquer custo, Sensible World of Soccer provava que bastava uma bola, bonecos minúsculos e comandos extremamente simples para prender o jogador por horas. O game tinha uma pegada arcade direta ao ponto, com partidas rápidas, passes precisos e finalizações que pareciam fáceis até a bola passar raspando a trave pela décima vez seguida.
O que transformou SWOS em um dos jogos mais importantes da história foi a ambição absurda para a época. O modo carreira permitia disputar até 20 temporadas, com cerca de 1.500 equipes e 27 mil jogadores espalhados pelo mundo. Era o tipo de jogo que fazia o jogador se sentir técnico, olheiro, cartola e camisa 10 ao mesmo tempo, muito antes de esse tipo de profundidade virar padrão nos games de futebol.
11. Captain Tsubasa 5: Hasha no Shogo Campione (1994)
Para quem cresceu assistindo Super Campeões na Rede Manchete, Captain Tsubasa 5: Hasha no Shogo Campione era praticamente um sonho em forma de cartucho. Diferente dos jogos tradicionais de futebol, ele não tentava reproduzir o esporte de maneira convencional. A proposta era mais lenta, estratégica e cheia de elementos de RPG, como se cada jogada fosse um pequeno duelo dramático digno do anime.
E era exatamente isso que o tornava especial. As técnicas especiais, as animações exageradas e as cutscenes davam a sensação de estar controlando um episódio interativo, com chutes impossíveis, defesas heroicas e aquela tensão absurda antes da bola balançar o barbante — ou não. Hoje, pode parecer um jogo estranho para quem espera futebol de botão apertado e reação imediata, mas ele capturou como poucos a fantasia de transformar cada partida em uma batalha épica.
10. Super Sidekicks 3: The Next Glory (1995)
Lançado pouco depois do Tetra de 1994, Super Sidekicks 3: The Next Glory encontrou o Brasil em estado de graça com futebol e tomou os fliperamas de assalto com menus e áudio em português. Em uma época em que gabinetes de luta e hack n’ slash disputavam a atenção da molecada, o jogo da SNK conseguiu se destacar com partidas rápidas, movimentação ágil e aquele nível de desafio que fazia a ficha acabar sempre na pior hora possível.
O grande charme estava no espetáculo. Os gráficos eram belíssimos para a época, as animações enchiam os olhos e cada chute parecia carregar um peso dramático que combinava muito bem com o ambiente barulhento dos fliperamas. Era futebol sem firula, feito para gastar ficha, provocar o amigo do lado e sair do fliperama jurando que na próxima tentativa o Brasil seria campeão.
9. International Superstar Soccer Deluxe (1995)
Poucos jogos de futebol tiveram no Brasil o impacto de International Superstar Soccer Deluxe. Ele estava nas casas, nas locadoras, nos camelôs e em praticamente qualquer conversa sobre videogame nos anos 1990. Se o primeiro ISS já havia sido revolucionário, a versão Deluxe refinou a fórmula com gráficos melhores, comentários extras, mais opções táticas, árbitro cachorro e partidas ainda mais gostosas de jogar.
Mas o legado do jogo vai muito além do cartucho original. ISS Deluxe serviu de base para uma infinidade de mods e versões alternativas, incluindo os lendários Ronaldinho Soccer, que ajudaram a transformar o Super Nintendo em uma central informal do futebol brasileiro. Era o tipo de game que pintava todas as TVs das locadoras de verde, com todo mundo jogando ao mesmo tempo, e que por muitos anos foi sinônimo de jogo de futebol.
8. FIFA: Road to World Cup 98 (1997)
A EA Sports demorou um pouco para encontrar o ponto certo nos jogos de futebol, mas FIFA: Road to World Cup 98 foi o momento em que a série realmente começou a encarar a Konami de frente. Os gráficos 3D mais refinados, as seleções licenciadas, as opções de personalização e o clima de eliminatórias davam ao jogo uma sensação de realismo que impressionava muito no fim dos anos 1990.
Só que o que realmente marcou época foi a trilha sonora. Song 2, do Blur, virou praticamente a trilha sonora extraoficional dos jogos de futebol e abriu caminho para uma tradição que se tornaria marca registrada da EA: transformar seus jogos em vitrines musicais. Road to World Cup 98 também pavimentou o caminho para os jogos oficiais de Copa que a empresa lançaria a cada quatro anos até 2014, sempre tentando vender não apenas partidas, mas o evento inteiro.
7. Actua Soccer 3 (1998)
Com uma das melhores aberturas da história dos videogames, Actua Soccer 3 não é lá um dos melhores jogos de futebol já feitos, mas merece seu lugar nesta lista pelo retrato muito específico de uma época. A Gremlin Interactive entregou ali o capítulo mais polido da franquia, com modo temporada, boa quantidade de opções e um pacote de licenças que chamava atenção, principalmente para quem queria ver clubes e campeonatos reais dentro do jogo.
No Brasil, o grande atrativo era justamente a presença do Campeonato Brasileiro com todos os clubes da época. Isso tinha um peso enorme em um período em que licenciamento ainda era um luxo e ver seu time representado oficialmente em um jogo internacional causava um impacto difícil de explicar hoje. Actua Soccer 3 não era o mais divertido da locadora, mas tinha aquele apelo de “olha só quem está aqui” que bastava para render boas horas de curiosidade.
6. International Superstar Soccer 98 (1998)
A transição de International Superstar Soccer para o 3D poderia ter sido desastrosa, mas ISS 98, do Nintendo 64, mostrou que a Konami sabia exatamente o que estava fazendo. A física da bola, o ritmo das partidas e a movimentação dos jogadores davam ao game uma sensação muito agradável de realismo, ainda que a jogabilidade continuasse mais arcade do que simulação.
O problema é que o jogo chegou em um contexto complicado para o público brasileiro. Enquanto a EA já apostava forte em licenças, ISS 98 ainda sofria com seleções sem nomes reais, e o Nintendo 64 era caro demais para virar febre como rapidamente o PlayStation se tornou. Ainda assim, quem jogou sabe: havia ali um futebol fluido, técnico e muito bem resolvido, que ajudou a preparar terreno para a dominação da Konami nos anos seguintes.
5. Elifoot 98 (1998)
Antes de internet rápida, YouTube, lives e planilhas infinitas, havia o disquete. E dentro de muitos deles estava Elifoot 98, manager português que se espalhou pelo Brasil no boca a boca, na escola, no trabalho e entre amigos que copiavam o jogo de computador em computador. Leve, simples e viciante, ele rodava em praticamente qualquer PC, algo fundamental em um país onde ter computador em casa ainda era um privilégio.
O segredo de Elifoot 98 era alimentar o técnico que existe em todo brasileiro, especialmente em ano de Copa do Mundo. Contratar, vender, escalar, reclamar do resultado e prometer que na próxima temporada tudo daria certo fazia parte do ritual. Era uma verdadeira máquina de imaginação, e sua influência pode ser sentida até hoje em jogos como Football Manager.
4. World Soccer Jikkyou Winning Eleven 3: Final Ver. (1998)
Winning Eleven 3 foi um fenômeno absoluto no Brasil e marcou a passagem definitiva de muita gente do futebol 2D do Super Nintendo para o 3D do PlayStation. A jogabilidade intuitiva, o ritmo mais arcade e a presença de seleções licenciadas fizeram o jogo se espalhar rapidamente, mesmo com uma barreira que hoje parece quase surreal: estava tudo em japonês.
E isso simplesmente não importava. Ninguém entendia os menus, pouca gente sabia o que Jon Kabira estava narrando, mas todo mundo entendia a bola rolando e o grito de Gol. Winning Eleven 3 virou sinônimo de futebol no PlayStation porque entregava o que o brasileiro queria: controle preciso, partidas emocionantes e aquela sensação de que qualquer jogo contra um amigo podia virar final de Copa. Era o tipo de título que se aprendia no instinto, na tentativa e erro, no grito e na provocação.
3. Championship Manager 01/02 (2001)
Se Elifoot foi a porta de entrada para muitos brasileiros no mundo dos managers, Championship Manager 01/02 era o passo seguinte para quem queria se afundar de vez no gênero. O jogo nunca teve por aqui a mesma fama popular de seu “primo” mais simples, mas quem jogava fazia questão de defender que ele era muito mais completo — e, nesse caso, o argumento era difícil de rebater.
A base de dados era gigantesca, com times, seleções, campeonatos, técnicos e jogadores do mundo todo, oferecendo uma profundidade que parecia inesgotável. O mais impressionante é que CM 01/02 continua vivo graças à comunidade, que mantém atualizações e preserva o jogo como uma espécie de patrimônio afetivo dos técnicos de sofá. Para quem gosta de passar mais tempo montando elenco do que jogando a partida em si, ele segue praticamente imbatível.
2. World Soccer: Winning Eleven 10 (2006)
Se Winning Eleven 3 abriu a porta, Winning Eleven 10 escancarou de vez a sala inteira. Lançado em 2006, o jogo consolidou a franquia da Konami no Brasil durante a era do PlayStation 2, combinando melhorias gráficas, movimentos mais naturais, física de bola aprimorada e uma inteligência artificial mais refinada e desafiadora.
Mas falar de Winning Eleven 10 no Brasil é falar também de Bomba Patch. O jogo serviu de base para as primeiras versões do clássico patch brasileiro, que mantém até hoje times, elencos, uniformes e campeonatos 100% atualizados e difíceis de aturar. A partir dali, o PS2 virou uma máquina quase eterna de futebol, e Winning Eleven passou a fazer parte da cultura gamer do Brasil.
1. FIFA Soccer 12 (2011)
FIFA Soccer 12 foi um divisor de águas para a franquia da EA Sports e, de certa forma, para os jogos de esporte modernos. O game apresentou novidades fundamentais, como o Motor de Impacto, a Defesa Tática e a consolidação do Ultimate Team, criando uma base mecânica que influenciaria praticamente todos os FIFAs seguintes.
No Brasil, o jogo também chegou em um momento importante da geração Xbox 360 e PlayStation 3, quando o mercado paralelo ainda era muito forte e ajudava a espalhar lançamentos com velocidade inigualável até hoje. FIFA 12 tinha cara de jogo moderno: mais físico, mais técnico, mais televisivo e mais conectado. Para muitos jogadores, foi ali que a série deixou de ser apenas a alternativa licenciada e passou a ser o principal jogo de futebol da geração.
Qual clássico jogar no clima da Copa?
Revisitar esses jogos em 2026 ajuda a entender como cada geração encontrou sua própria forma de transformar o futebol em videogame, seja na correria dos arcades, no sofá da locadora, no PC com drive de disquete ou no PlayStation 2 até hoje se recusa a envelhecer.
Para quem quer partidas rápidas e nostalgia imediata, a pedida é Super Sidekicks 3, ISS Deluxe ou Winning Eleven 3. Para quem prefere profundidade e carreira, vale voltar para Sensible World of Soccer, Elifoot 98 ou Championship Manager 01/02. Já quem quer sentir a evolução do futebol moderno pode ir direto em Winning Eleven 10 e FIFA 12.
No fim das contas, todos eles cumprem a mesma função: lembrar que Copa do Mundo não vive só dentro de campo. Ela também mora nos controles sem a borracha do analógico, nos saves esquecidos, nas fitas emprestadas, nos CDs cheios de arranhão e nas histórias que a gente continua contando como se aquele gol, feito há 20 anos contra um amigo, ainda valesse alguma coisa.
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