Apesar de o mercado de games fazer um grande sucesso desde os anos 1970, demorou quase duas décadas para surgirem as primeiras adaptações para os cinemas. Um Double Dragon e Mortal Kombat aqui, um Super Mario Bros e Street Fighter ali e outros que caíram no esquecimento da comunidade durante os anos 1990.
Era consenso que Hollywood não compreendia os videogames. Nos anos 2000 houve mais tentativas: quem não se lembra de Resident Evil: O Hóspede Maldito, Far Cry e Doom (com The Rock)? Na prática, eram os mesmos “flops”, mas com um orçamento maior.
Dos anos 2010 em diante, a tendência seguiu. Assassin’s Creed, Rampage (curiosamente, também com The Rock) e Príncipe da Pérsia mostraram que o formato estava fadado ao fracasso. Mas, de repente, duas misturas de CGI com live-action funcionaram: Detetive Pikachu (2019) e Sonic the Hedgehog (2020).
Responsáveis por “mudar o jogo”, esses dois filmes mostraram que havia um caminho para as adaptações de videogame se darem bem. Porém, qual é a fórmula secreta que eles elaboraram e outras produções seguiram — como a primeira temporada de The Last of Us e o longa mais recente de Resident Evil?
Para falar como os maiores personagens dos games foram parar na calçada da fama, hoje o Canaltech mostra quais elementos foram responsáveis por tornar os jogos em adaptações tão bem-vistas pela comunidade, tanto que criaram até novas bases de fãs. Confira o que faz uma adaptação de videogame ser boa:
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A linha tênue
É importante ressaltar que há um grande debate sobre como um jogo será apresentado em séries ou nas telonas. Embora muito fã bata o pé sobre versões fiéis dos seus jogos favoritos, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City (2021), por exemplo, levou a galhofa da Capcom para os cinemas e ainda assim não funcionou.
Existe uma linha muito tênue entre contar as mesmas histórias com os mesmos personagens e expandir aquilo que os videogames têm de bom. Detetive Pikachu, por exemplo, replica certos elementos do jogo que o inspirou, mas na prática o que você vê nas telonas é outra história.
O visual dos Pokémon foi adaptado para funcionar em conjunto aos atores, o mundo que existe nos desenhos e jogos foi levado cuidadosamente para a obra e temos um acerto no elenco e personagens — que adicionaram um carisma maior ao que já era amado pelo público antes mesmo de sua estreia.
O resultado disso foi um acerto crítico, mesmo para quem não suportava o título lançado no Nintendo 3DS em 2016. Sonic the Hedgehog seguiu outro rumo, totalmente distinto: ele apostou no formato Scooby-Doo e Alvin e os Esquilos para criar uma história própria. Ela bebe da fonte dos jogos, mas segue em outra direção.
Depois da Paramount levar um “chapisco” colossal dos fãs após divulgar o visual chamado de Sonic Feio, eles tomaram um tempo maior para encantar os fãs do ouriço azul. Além de o mascote ter uma caracterização emblemática para os cinemas, ele funciona muito bem — mesmo ao se mudar uma parte de sua trama.
Nos longas, ele viveu desde a sua infância na Terra, escondido. Temos Tails, Knuckles, Shadow, o Dr. Robotnik e vários outros elementos que estão presentes nos originais, mas vistos sob outra perspectiva. Mais uma vez, é vista uma mudança de rota, mas que respeita ao extremo suas raízes.
“Então é só respeitar a fonte e pode-se fazer qualquer coisa?”, claro que não. O primeiro Mortal Kombat (2021) está aí para comprovar que inventar moda com consideração nem sempre é a melhor saída. Se fosse só isso, muitos livros, animes e outros seriam mais bem-sucedidos nesta mesma empreitada.
Uma adaptação de jogos precisa compreender o que faz dos títulos tão queridos. Detetive Pikachu foi a fundo nisso, com uma versão própria de um universo amado e mostrou “alma”. Sonic the Hedgehog fez a mesma coisa, à sua própria maneira.
Mudanças nas adaptações de videogame
Como toda produção que se preze, os diretores têm de se precaver com vários detalhes para acertar em cheio: elenco, trama, visuais, até que grau levará a história dos games para as telas e como criará elementos para inserir dentro disso tudo.
Em 2021, Resident Evil seguiu fielmente os games e falhou. No mesmo ano, MK inventou moda até demais e obteve o mesmo resultado. Eles não souberam ler a comunidade, o ponto no qual poderiam interferir e os que não mexer significaria uma verdadeira tragédia.
Adaptação tem este nome por uma razão: ela adapta, não recria. Nem inventa coisas do zero. Na literatura, quer um exemplo recente de quem ainda não compreendeu isso: a franquia Percy Jackson. Os filmes antigos inventaram demais e afastaram os leitores. A série atual é fiel demais e mandou o grande público para longe.
No fim, sabe o que sobrou? Uma grande mágoa dos fãs com a Disney e os envolvidos na produção. Vimos o exato mesmo movimento nos videogames — ou os produtores criam demais e deturpam o material ou tentam fazer algo similar e se torna tão igual que as pessoas “enjoam” por não trazer novidades.
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Um exemplo de quem soube fazer isso bem foi a HBO, com a série de The Last of Us. A primeira temporada consegue unir atores carismáticos, peso emocional, uma história já consolidada e produtores que compreendiam o material original (não é para menos, o criador do game estava na produção).
Neste aspecto, eles conseguiram seguir com a trama exata como a vista nos videogames, mas com inclusões bem-vindas e que enriqueceram o universo apresentado no PlayStation 3. O episódio “Long, Long Time”, que conta o passado de Bill e Frank, é genial e mostra como amarrar coisas novas no que já existe.
A fórmula não existe
Ainda que a primeira temporada de TLoU tenha ensinado como adaptar fielmente enquanto se adiciona conteúdo inédito, é importante notar que a “fórmula” não se sustenta. O ano 2 do seriado, por exemplo, não foi tão bem-recebido e gerou muitas discussões entre os fãs.
Tudo bem que o próprio The Last of Us Part 2 também é divisivo, contudo a tendência se seguiu em outras adaptações de videogame. Basta ver o sucesso que Fallout fez e que também não foi replicado em sua segunda temporada. Vale lembrar de The Witcher e Halo, que desandaram com o passar do tempo.
Nos cinemas, os fracassos diziam o mesmo: a estilo não dará certo em todos os casos, nem mesmo na mesma franquia. Borderlands e Monster Hunter não tiveram a menor chance — enquanto produtores quebram a cabeça para tirar sequências de Um Filme Minecraft e Uncharted do papel.
O filme Resident Evil, de Zach Cregger, adicionou um tempero a mais em toda a discussão. Ele ajusta o que existe nos videogames enquanto conta uma história inédita, o que se tornou outro sucesso crítico. Não vemos Chris, Leon, Wesker, Jill e outros heróis, assim como os cenários clássicos da franquia.
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O diretor inseriu um personagem novo dentro do caos de Raccoon City — com direito aos zumbis, armas biológicas e a presença da Umbrella Corporation. O resultado disso deu tão certo que Silent Hill cogita seguir a mesma trajetória, já que a obra se tornou a mais bem-avaliada de todos os tempos no gênero.
Ainda que não exista fórmula, isso pode funcionar em Silent Hill — principalmente por termos vistos que nem nos games a Konami se prende tanto e conseguiu reviver a saga com SH f e SH: Townfall. Porém, isso funcionaria com Elden Ring, BioShock, Death Stranding e outras que seguem em desenvolvimento? Dificilmente.
A animação é um caminho seguro?
Não me esqueci de mencionar Castlevania, Arcane, Cyberpunk: Mercenários e outras obras animadas. Estas têm um tempero a mais que é a liberdade de agir como um desenho — com cores, movimentos insanos e efeitos especiais que não exigem um time do tamanho do estádio do Maracanã.
A Konami acertou em Castlevania com o mesmo formato que fez The Last of Us dar certo: adaptaram a trama dos jogos, mas inseriram elementos extras que enriqueciam o universo dos vampiros e a guerra eterna que existe contra o Drácula.
Já Cyberpunk: Mercenários fez o mesmo que Resident Evil — pegou todo o cenário do game e construiu suas próprias estruturas em cima disso. Assim como no filme, ela comoveu e ajudou a fortalecer toda a comunidade de fãs pré-existente.
“League of Legends nem tinha história”, mas o MOBA possui um lore riquíssimo que também foi respeitado pela Netflix em Arcane. Pouco foi mexido nos personagens e em sua personalidade, com uma verdadeira tragédia grega que tocou o coração até de quem jurou não encostar nos jogos para computador.
É importante notar que o formato nem sempre funciona. Dragon’s Dogma e Splinter Cell: Deathwatch acertaram no tom, porém “só se fala de outra coisa”. Não atraíram os fãs, não chamaram a atenção e apenas existem na maré de diversas adaptações que se destacam — para o bem e para o mal.
A animação é um caminho seguro, mas não costuma ser à prova de falhas. Enquanto filmes e séries live-action atingem uma audiência maior e mais prestígio, os desenhos sofrem um certo preconceito da comunidade. Somado aos desafios de transacionar bem a obra original, as chances de desastre se tornam altas.
O que faz uma adaptação de videogame ser boa?
Produções como The Last of Us, Resident Evil, Detetive Pikachu e outras mostram que há uma rota para o sucesso. O principal é manter a alma dos materiais originais, enquanto usa as telas para enriquecer o seu universo e personagens.
Vale notar que existem formas de se contar histórias que funcionam melhor nos cinemas e séries, que podem ser aproveitadas para expandir o que vemos nos conteúdos que surgiram nos games de várias formas possíveis.
O que isso quer dizer? Cada adaptação deve encontrar o seu próprio caminho dentro disso. Algumas se encaixam em fórmulas, outras funcionam melhor quando saem de todas elas — como foi o caso de Resident Evil, de Zach Cregger.
O próprio diretor, que trabalhou também em A Hora do Mal (2025) e Noites Brutais (2022), reclamou de trabalhar com a pressão de cumprir com as expectativas da Capcom, do estúdio e dos jogadores. Isso se tornaria nocivo se saísse do controle, como já ocorreu no passado.
Quantas das obras que criticamos, como os recentes Borderlands e Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno, não passaram por isso? De ser um amontoado de referências, piadas e sem o mínimo que uma obra precisa para se sustentar nos cinemas. O mesmo é visto em séries, animações e outras adaptações.
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Logo, é bom ter uma fórmula. Porém, ela não funciona bem com todos. Cabe aos produtores entenderem como casar o formato que desejam trabalhar (filme, seriado, desenho etc.), ver o que funciona com este tipo de produção e como seria a melhor forma de se contar uma história que veio diretamente dos jogos.
Como Cregger, às vezes a solução é se soltar das amarras dos padrões e criar algo inédito. Em outras, como em Super Mario Bros. - O Filme, dá para abraçar todos os lados e fazer algo divertido e que honre os materiais originais. Cada projeto é único e exige atenção, não apenas um simples “encaixe” em gêneros.
A parte mais importante é compreender a linha tênue que existe entre o respeito ao original e o que pode ser adicionado para temperar a experiência. Com os dois na mesma régua, em conjunto de um elenco carismático, uma história adequada e o carinho dos fãs consegue atingir uma qualidade digna a qualquer obra. Além disso, os afastam dos 6 piores filmes inspirados em jogos que ninguém perdoa.
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