Dona do Claude está pronta para abrir capital; o que muda na prática?

A Anthropic, empresa criadora da família de modelos de inteligência artificial Claude, protocolou nesta segunda-feira (1º) um pedido confidencial de abertura de capital. A companhia deve viabilizar um IPO ainda em 2026, condicionado à conclusão da análise regulatória e às condições do mercado.

O protocolo foi feito poucos dias depois de a Anthropic fechar a rodada de financiamento de US$ 65 bilhões. O resultado elevou a avaliação da empresa para US$ 965 bilhões, superando a OpenAI, avaliada em US$ 852 bilhões por investidores privados em março.

O preço e a quantidade de ações da oferta ainda não foram definidos.

-
Entre no Canal do WhatsApp do Canaltech e fique por dentro das últimas notícias sobre tecnologia, lançamentos, dicas e tutoriais incríveis.
-

O que é um IPO

IPO é a sigla para Initial Public Offering (Oferta Pública Inicial, em inglês). É o processo pelo qual uma empresa passa a ter suas ações negociadas em bolsa de valores, tornando-se acessível a qualquer investidor interessado.

Quando uma empresa opta por abrir capital, ela está buscando acelerar seus planos: expandir operações, investir em inovação, entrar em novos mercados ou até realizar aquisições. O IPO é uma forma de conseguir isso com capital próprio, sem recorrer a empréstimos ou financiamentos que geram endividamento.

Para chegar à bolsa, a empresa precisa apresentar ao regulador um prospecto detalhado com informações sobre saúde financeira, estrutura de governança, uso dos recursos e riscos do negócio. No caso da Anthropic, o documento foi protocolado de forma confidencial, prática permitida pela legislação americana.

O que muda para a empresa

Para Cláudio Carvajal, coordenador dos cursos de Administração e de Gestão de TI da FIAP, a abertura de capital representa uma mudança estrutural para a Anthropic. "Significa mais capacidade de investir em infraestrutura computacional, desenvolvimento de novos modelos, contratação de pesquisadores e expansão global", afirma.

A maior visibilidade junto ao mercado corporativo e a investidores institucionais é outro efeito esperado. Para Carvajal, porém, o movimento traz uma pressão nova. "A empresa passa a sofrer uma pressão muito maior por crescimento, rentabilidade e entrega de resultados trimestrais, algo que pode influenciar diretamente sua estratégia de negócios", avalia.

Com ações na bolsa, a Anthropic precisará publicar resultados financeiros com regularidade e manter uma estrutura de governança mais rígida. Cada decisão estratégica relevante passará a ser acompanhada de perto por acionistas e analistas.

claude
O Claude assumiu o topo das App Store americana em fevereiro (Imagem: Viviane França/Canaltech)

O que o usuário do Claude pode esperar

Um dos problemas recorrentes relatados por usuários do Claude é a instabilidade do serviço e o gasto elevado de tokens. Para Carvajal, o IPO não resolve esses problemas diretamente.

"O IPO, por si só, não resolve problemas técnicos ou operacionais. Porém, ele pode fornecer os recursos necessários para que a empresa invista fortemente em infraestrutura, otimização de modelos, novos data centers e eficiência computacional", avalia.

Para quem usa o Claude hoje, Carvajal traça uma perspectiva em etapas. "No curto prazo, os usuários podem esperar melhorias graduais em desempenho, disponibilidade e velocidade de resposta. Já no médio e longo prazo, a tendência é que a Anthropic busque reduzir custos operacionais, melhorar a eficiência dos modelos e oferecer serviços mais robustos para empresas e consumidores", projeta.

Um indicativo concreto dessa aposta em infraestrutura é o acordo firmado no mês passado com a SpaceX para uso do data center Colossus 1, em Memphis, no Tennessee. Os pagamentos são de US$ 1,25 bilhão por mês até maio de 2029, segundo o prospecto da SpaceX.

Receita crescendo e expectativa de lucro

O crescimento recente da Anthropic dá sustentação ao calendário de abertura de capital. Segundo dados divulgados pela própria empresa em maio, a taxa de execução de receita saltou de US$ 10 bilhões anuais em 2025 para US$ 47 bilhões em 2026.

A companhia comunicou a investidores que espera registrar lucro no primeiro semestre deste ano, o que a diferencia de OpenAI e SpaceX, ambas candidatas ao IPO em 2026, mas ainda sem resultado positivo.

Parte desse crescimento é atribuída ao Claude Code, assistente de programação da empresa, e ao lançamento do Claude Mythos Preview, modelo que atraiu atenção pelo desempenho em cibersegurança.

Em fevereiro, o Claude chegou ao primeiro lugar no ranking de aplicativos gratuitos mais baixados nos Estados Unidos na App Store da Apple.

openai
A OpenAI deixou oficialmente de ser uma empresa sem fins lucrativos visando um possível IPO (Imagem: Marcelo Fischer/Canaltech)

Corrida de IA nos mercados de capitais

O movimento da Anthropic acontece em um momento em que outras gigantes de IA também se preparam para abrir capital, como a OpenAI. Sair na frente tem um valor estratégico claro, segundo Carvajal.

"Existe um efeito de captura de capital. Muitos fundos institucionais possuem recursos limitados para exposição a determinados setores e podem direcionar parte significativa de seus investimentos para a primeira companhia que oferecer acesso ao mercado público de IA em larga escala", afirma.

O professor pondera, no entanto, que a vantagem pode ser passageira. "Mais do que uma vitória definitiva, a abertura de capital antes da OpenAI pode ser vista como uma vantagem temporária na disputa por investidores, visibilidade e liderança de mercado. A competição entre as duas empresas ainda deve continuar intensa pelos próximos anos", avalia.

Leia a matéria no Canaltech.