O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) entraram com uma ação civil pública para impedir a operação do Data Center Pecém, empreendimento atribuído ao TikTok em Caucaia (CE). O processo, protocolado em 4 de setembro, aponta falhas no licenciamento ambiental do projeto, orçado em R$ 200 bilhões.
As duas instituições pedem à Justiça uma decisão cautelar que suspenda o início das atividades, previsto para 2027, até que um novo processo de licenciamento seja concluído. São alvos da ação a Omnia, dona do empreendimento, a Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace), o governo estadual e a prefeitura de Caucaia.
Por que o MPF e a DPU questionam o projeto
O principal argumento das entidades é que a Semace liberou o data center por meio de um RAS (Relatório Ambiental Simplificado), modelo destinado a empreendimentos de baixo ou médio impacto, como kartódromos ou parques de vaquejada. Para os procuradores, a escala do projeto exigiria um EIA/Rima, estudo mais completo previsto pelo Conama para casos de dúvida sobre o real impacto de uma obra.
MPF e DPU também identificaram inconsistências nos números apresentados pela Omnia. A licença prévia previa consumo de 19,7 mil litros de água por dia, valor que subiu para 144 mil litros por dia na licença de instalação. O projeto promete energia 100% renovável, mas terá 120 geradores a diesel como sistema de redundância em caso de falhas no fornecimento.
A região de Caucaia enfrenta histórico de escassez hídrica, com emergência declarada em 16 dos últimos 21 anos. As instituições também cobram consulta prévia ao povo indígena Anacé, que vive próximo ao complexo. Segundo o processo, a Omnia informou não considerar essa consulta uma obrigação e apresentou o projeto à comunidade somente depois de obter as licenças.
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Histórico do data center do TikTok no Ceará
O empreendimento foi lançado em novembro de 2025, com acompanhamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e é um dos cinco data centers previstos para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Juntos, eles devem somar 1 gigawatt de capacidade quando estiverem em pleno funcionamento, volume equivalente a dois terços de toda a produção de energia do Ceará.
O TikTok figura apenas como cliente da estrutura. A construção e operação ficam a cargo da Omnia, braço de data centers da gestora Pátria Investimentos, em parceria com a Casa dos Ventos, maior geradora de energia eólica do país. As obras começaram em janeiro deste ano e resultarão em duas edificações principais, cada uma com 150 MW de capacidade. A primeira deve entrar em operação em 2027, a segunda em 2028.
O consumo diário de energia está estimado em 5.040 MWh, o equivalente ao gasto de mais de 843 mil residências brasileiras, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Por estar instalado em uma Zona de Processamento Especial, todo o processamento realizado no data center será destinado à exportação, já que essas áreas são voltadas à produção de bens e serviços para o mercado externo.
Em nota, a Omnia afirmou que o projeto tem "solidez técnica e jurídica" e que segue o rito de licenciamento conduzido pela Semace, com todas as autorizações válidas emitidas após análise dos órgãos competentes. A empresa disse ainda não ter sido formalmente citada na ação. A Semace e a Procuradoria-Geral de Caucaia informaram não terem recebido notificação até a publicação das reportagens que basearam este texto.
O TikTok afirmou que não se pronunciaria por não constar como parte no processo.
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