*Por Ronaldo Pedro da Silva
Nunca produzimos tantos dados. Ainda assim, uma parcela enorme deles permanece isolada dentro de empresas, hospitais, universidades e centros de pesquisa. A Comissão Europeia já estimou que 80% dos dados industriais coletados nunca chegam a ser utilizados. O problema, portanto, não é apenas gerar mais informação, mas criar condições para que dados dispersos possam gerar conhecimento e inovação sem exigir que todos sejam transferidos para um único lugar.
Essa fragmentação tem consequências concretas. Um hospital pode possuir milhares de exames capazes de contribuir para o desenvolvimento de um modelo de inteligência artificial, mas não pode simplesmente entregar sua base a uma empresa de tecnologia. Uma indústria farmacêutica pode dispor de resultados experimentais valiosos, mas compartilhar essas informações pode envolver propriedade intelectual, confidencialidade e requisitos regulatórios. Em outro ponto do ecossistema pode estar exatamente o algoritmo, a capacidade computacional ou o conhecimento científico necessário para resolver o problema.
O resultado é um paradoxo: os ativos existem, mas permanecem separados.
É nesse contexto que a computação federada ganha importância. Em vez de começar pela pergunta “como reunir todos os dados?”, a lógica muda para “como permitir que diferentes organizações colaborem mantendo maior controle sobre seus próprios ativos?”.
Segurança e governança precisam entrar na arquitetura
Em muitas arquiteturas federadas, o processamento ou o modelo pode ir até o ambiente onde os dados estão. Compartilham-se apenas informações, parâmetros ou resultados previamente autorizados. Aprendizado federado é uma das técnicas que podem fazer parte dessa arquitetura, mas o princípio é mais amplo: colaborar não precisa significar centralizar.
Para setores como saúde e indústria farmacêutica, essa diferença é decisiva. Não basta proteger os dados. É preciso saber quem pode acessá-los, onde podem ser processados, quais evidências devem ser registradas e quais regras se aplicam ao produto ou à tecnologia que será desenvolvida. Segurança, governança e regulação deixam de ser verificações feitas no final e passam a orientar a arquitetura desde o início.
A tecnologia, porém, resolve apenas parte do problema. Existe uma segunda fragmentação, menos visível: a das competências.
Quem conhece o desafio nem sempre possui os dados necessários. Quem possui os dados pode não ter o algoritmo. Quem desenvolve o algoritmo pode depender de infraestrutura computacional ou científica externa. Por isso, o desafio central passa a ser orquestrar organizações diferentes em torno de um problema comum.
Essa discussão está no centro do framework 3C, desenvolvido pelo World Economic Forum com a Capgemini. A primeira etapa é combinar tecnologias e capacidades; a segunda é fazê-las convergir para gerar novas soluções; a terceira é criar um efeito cumulativo, no qual conhecimento, padrões e relações construídos em um projeto reduzem o risco e aceleram os seguintes. Em 2026, o próprio Fórum reforçou que orquestrar pessoas, dados e fluxos de trabalho é crítico para transformar combinações tecnológicas em impacto real.
O avanço da inteligência artificial tende a exigir menos concentração e mais capacidade de coordenação. Em muitos casos, o valor estará em fazer tecnologias, dados e competências distribuídas trabalharem juntas com segurança, governança, validação científica e viabilidade regulatória. A próxima vantagem competitiva não está em possuir todos os ativos, mas na capacidade de conectá-los sem perder o controle sobre eles.
É essa lógica que orienta o ConvergeLab. Mais do que concentrar tecnologias ou dados em uma organização, a proposta é criar condições para que capacidades distribuídas possam trabalhar juntas com segurança, governança, validação científica e viabilidade regulatória.
Em um cenário no qual a inteligência artificial depende cada vez mais de dados de qualidade, talvez a próxima vantagem competitiva não esteja em possuir todos os ativos. Pode estar na capacidade de conectá-los sem perder o controle sobre eles.
Entenda também como a IA pode impactar até 37% dos trabalhadores e expõe lacuna digital no Brasil.
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