Por que a IA exige mudança de cultura, não apenas de código

Por que a IA exige mudança de cultura, não apenas de código

*Por Eduardo Ibrahim

Se você navega pela internet, gosta de gadgets ou trabalha com tecnologia hoje, com certeza já deve ter testado uma porção de ferramentas de inteligência artificial. Afinal, existem diversas opções por aí, e a nossa curiosidade natural nos empurra a experimentar um novo bot de chat, um gerador de imagens ou um assistente de escrita a cada semana. É impossível não se impressionar com o que essas ferramentas conseguem fazer, mas no meio desse turbilhão de novidades, também é super normal sentir aquela leve ansiedade e se perguntar silenciosamente: "onde é que nós vamos parar com tudo isso?".

Vivemos em um momento de lançamentos massivos e atualizações diárias que, às vezes, parecem um surto coletivo, onde todo mundo exige pressa, respostas prontas e produtividade máxima. Mas respire fundo. A inteligência artificial não veio para esvaziar o nosso espaço ou nos tornar obsoletos; ela veio para nos fortalecer. O objetivo real não é fazer a gente trabalhar de forma automática ou ser substituído por telas, mas sim nos dar suporte para que a gente entregue mais qualidade, criatividade e relevância. No fundo, a IA veio nos devolver o direito de pensar.

A grande verdade que precisamos encarar é que o desafio atual já deixou de ser puramente técnico. Nós já temos tecnologia de ponta capaz de resolver praticamente qualquer problema lógico ou automatizar tarefas repetitivas. O verdadeiro gargalo não está nas linhas de código ou na capacidade do software, mas na nossa mentalidade, na nossa cultura e em como a gente se relaciona com essas inovações no dia a dia.

Recentemente, virou um lugar-comum falar sobre "letramento em IA". Todo mundo corre para aprender comandos básicos e truques de escrita para tentar salvar alguns minutos criando e-mails ou relatórios. Isso é ruim? Claro que não, é o balizamento inicial que ajuda bastante na nossa rotina diária. Mas aprender a operar uma janela de chat isolada não vai transformar a sua carreira e nem o seu dia a dia de forma profunda.

O perigo real desse movimento é usarmos uma tecnologia tão revolucionária apenas para continuar fazendo as mesmas tarefas antigas, só que de um jeito mais rápido. É o caso de quem usa a IA para acelerar a criação de um slide de apresentação em segundos, sem que ninguém tenha a coragem de fazer a pergunta cultural mais importante: esse slide realmente precisava existir? Quando a gente apenas injeta a velocidade do algoritmo em cima de processos que já eram confusos, chatos e cheios de burocracia, a gente não cria inovação; a gente só cria um caos que acontece em altíssima velocidade. O problema nunca foi o software, é como a gente pensa o nosso trabalho e as nossas interações.

Não basta acelerar o trabalho, é preciso transformá-lo

Para mudarmos essa chave, precisamos evoluir do uso mecânico de um comando para o que podemos chamar de parceria cognitiva. É o momento em que deixamos de tratar a máquina como um mero gerador de textos e passamos, de fato, a raciocinar junto com ela. Na época da transformação digital, o grande mantra do ambiente de trabalho era de que muita reunião chata poderia ter sido resolvida com um e-mail. Hoje, o salto é muito maior: tem reunião que não precisa nem acontecer, porque seria muito mais simples e inteligente conversar com um agente virtual, cruzar dados e testar o protótipo de uma ideia na hora, de forma muito mais barata e prática.

Essa nova dinâmica lembra o método de trabalho de Albert Einstein. Ele não desenvolveu suas teorias revolucionárias isolado do mundo fazendo contas matemáticas sem parar; ele terceirizava os cálculos mais densos, exaustivos e lógicos para o seu grande amigo, o matemático Marcel Grossmann. Hoje, a inteligência artificial assumiu em definitivo o papel de Grossmann nas nossas vidas. Ela se tornou o nosso "matemático de bolso", entregando a escala, a precisão e a velocidade técnica. Livre de todo esse esforço mecânico de processar volumes absurdos de informação, você é provocado a assumir o seu lado Einstein: focar na imaginação, na intuição, nos sonhos e na nossa capacidade única de interpretar os sentimentos e os contextos ao nosso redor.

Por isso, a grande habilidade do presente não é saber decorar termos técnicos, mas ter a capacidade crítica de saber fazer as perguntas certas para guiar a máquina. E para perguntar bem, a gente precisa de repertório, que nada mais é do que a união entre a nossa bagagem prática e a nossa curiosidade. É por conta disso que vemos um movimento muito interessante ultimamente: profissionais mais jovens e curiosos conseguindo entregar soluções incríveis e muito rápidas usando ferramentas digitais. Só que, por falta de experiência e visão crítica, o resultado deles às vezes perde o rumo. Do outro lado, quem tem mais bagagem corre o risco de ficar travado em velhas fórmulas, com receio de testar o novo. O amanhã pertence a quem conseguir conectar a energia da descoberta com a sensibilidade de quem sabe onde quer chegar.

No fim das contas, vale lembrar o que diz o escritor Simon Sinek: se você não entende de pessoas, você não entende de organizações. E o mesmo vale perfeitamente para o universo da tecnologia. Ninguém desenvolve um aplicativo, um gadget ou um sistema para ser consumido por robôs; no final de qualquer fluxo ou tela, sempre existe um ser humano.

Para entender como a cultura e o comportamento humano engolem a tecnologia sozinha, basta a gente lembrar de inovações como as TVs 3D ou o Google Glass. Eram prodígios da engenharia, custaram fortunas e tinham chips fantásticos, mas floparam porque simplesmente não se encaixavam na nossa cultura real, nos nossos hábitos e na forma como as pessoas gostam de interagir no mundo real. A tecnologia só ganha vida e faz sentido quando respeita e serve o fator humano. Quando uma ferramenta é empurrada goela abaixo das equipes sem entender a realidade e as dores de quem está na ponta, o projeto morre na praia.

A IA pode expandir a nossa capacidade de processar dados e gerar volume, mas o sentido, o afeto e a direção ética continuam sendo uma exclusividade nossa. A máquina traz a escala, mas só o ser humano traz o significado do futuro.

Confira também o que significa a mudança de Humanos-no-Loop para Humanos-na-Liderança da IA.

*Eduardo Ibrahim é fundador e CEO da Humana AI, plataforma criada para potencializar a força de trabalho empresarial, autor dos livros Economia Guiada por IA e o best-seller Economia Exponencial, e Faculty Global da Singularity University — prestigiada instituição de ensino sediada no Vale do Silício, no campus de pesquisa da NASA, focada em preparar lideranças globais para solucionar os grandes desafios da humanidade por meio de tecnologias exponenciais.

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