Por que viajar "de pé" em aviões é pesadelo de segurança? Especialista explica

Quem já viajou de avião sabe como pode ser desconfortável passar longas horas na poltrona — e, no caso da classe econômica, dificilmente os assentos são os mais espaçosos ou acolchoados para os passageiros. Mas e se a experiência a bordo fosse diferente a ponto de você embarcar e passar sua viagem em um assento parecido com o selim de uma bicicleta, praticamente de pé?

Esta proposta inusitada foi apresentada no projeto Skyrider, da italiana Aviointeriors. Basicamente, a ideia é que os passageiros ficassem com inclinação de cerca de 45º enquanto estariam apoiados em uma pequena superfície acolchoada durante voos curtos, de até duas horas. A alteração permitiria até 20% mais passageiros a bordo e passagens até 30% mais em conta.

assentos verticais da Aviointeriors

Primeiro, vale lembrar que trata-se apenas de uma proposta conceitual, cujos protótipos foram apresentados pela empresa em 2012. Em comunicado replicado pela agência AFP, a italiana reforçou que “os assentos ‘de pé’ foram propostos como uma resposta ousada a um dos maiores desafios da indústria e, embora maximizem o espaço e a ergonomia, nunca foram pensados para serem transformados em realidade”. Mas será que seria possível usar assentos do tipo em aviões?

Viajar de pé em avião?

Pode até ser incômodo caminhar pelas fileiras no interior da cabine do avião em busca do seu assento, afinal, todas as poltronas parecem ter sido posicionadas da forma mais apertada possível. Mas há um motivo para isso: de fato, os assentos são instalados para otimizar o espaço na cabine e são construídos com materiais mais finos para reduzir a massa e aumentar a capacidade de assentos.

assento vertical avião

Até aqui, o conforto não pareceu prioridade, certo? É que, além de otimizar o espaço, os assentos precisam ser feitos para resistir à força G mais extrema sem se soltarem. Além disso, são feitos de materiais não inflamáveis e que não se deformam no caso de um impacto como uma forma de deixar a evacuação mais rápida, se necessário. 

Para entender melhor os desafios de engenharia que permitiriam (ou não) que aviões comerciais tivessem assentos do tipo para os passageiros, o CT Auto conversou com Alvaro Martins Abdalla, professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP). Antes, vale recordar o que ocorre no caso de uma emergência: ele explicou que, no caso de um pouso de emergência, a carga dinâmica faz o peso do corpo se multiplicar, espalhando uma força extrema do tronco para a bacia do ocupante. Depois, a força segue pelo assento, escoa pela poltrona, é descarregada no piso e, finalmente, na estrutura do avião.

Segurança dos aviões

Se um avião com assentos como os da Skyrider fizesse um pouso de emergência, é possível que os ocupantes tivessem que depender das pernas para absorver a energia do impacto. “O mecanismo faz com que a pelve seja retida, mas o tronco e a cabeça avançam. Sem retenção superior ou superfície dianteira adequadamente absorvedora, pode ocorrer impacto da cabeça, flexão cervical, elevada carga abdominal, rotação da pelve e escorregamento sob o cinto”, explicou Abdalla.

assentos em avião

Para o professor, os assentos Skyrider precisariam de mecanismos e sistemas de absorção de energia, retenção da pelve e do tórax, bem como controle das cargas transmitidas aos membros inferiores para oferecerem a mesma proteção das poltronas tradicionais. “Assim sendo, haveria o problema do aumento de peso e custo, e isso reduziria a vantagem do conceito”, observou o professor.

“Em minha opinião, o assento Skyrider não é uma configuração impossível. O desafio principal não seria criar uma estrutura que permaneça presa ao piso sob o fator de carga de 16 g. O desafio é controlar a maneira como o corpo desacelera ”, concluiu.

Futuro da aviação

Agora, façamos um exercício de imaginação: e se as grandes empresas da aeronáutica decidissem incorporar assentos do tipo em aviões comerciais como o Boeing 737 ou o Airbus A320? Será que a engenharia, as normas técnicas vigentes e requisitos das agências reguladoras permitiriam a mudança?

Para o professor, não, e os motivos são vários. “Não se trata apenas da substituição de assentos; praticamente todos os sistemas de cabine, partes e estruturas de interior e exterior da aeronave deveriam ser reavaliados. Por exemplo, a estrutura do teto, piso e fuselagem quanto aos pontos de fixação dos assentos, as cargas teriam novos e diferentes caminhos de transmissão”, observou.

avião

Além disso, também seria necessário explorar a biomecânica por meio de novos ensaios, que teriam que demonstrar que os membros dos ocupantes estariam protegidos mesmo no caso de impactos — isso sem considerar os ensaios de evacuação, ou seja, o abandono completo do avião deveria ocorrer dentro do tempo já determinado.

Na visão dele, o mais interessante da proposta está não apenas na mudança da forma de viajar, mas também na demonstração de que a instalação de um novo conceito de assentos em um avião — que, à primeira vista, é algo simples — pode mudar completamente a engenharia da aeronave. E, esta, é profundamente complexa. Quer saber mais sobre o que realmente faz um avião voar? Confira nossa matéria sobre a ciência por trás da aerodinâmica!

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