Se você cresceu usando internet discada no início dos anos 2000, provavelmente se acostumou a esperar todo mundo em casa desocupar a linha telefônica, ligar o modem, escutar aquele barulho que anunciava a conexão e abrir o ícone verde com o "K" prateado na área de trabalho. E aí começava a buscas pelo nome das músicas que ouvia nas rádios, via a lista de resultados com arquivos de nomes estranhos e tamanhos incertos e esperava de 15 minutos a quase uma hora para baixar um único MP3, torcendo para que ninguém tirasse o telefone do gancho no meio do processo.
Esse programa era o KaZaa, e por um bom tempo ele foi praticamente sinônimo de baixar música no Brasil. Uma geração inteira aprendeu a montar a coleção de MP3s, gravar CDs para festas e churrascos e descobrir bandas novas através dele. Depois, de forma quase repentina, o ícone verde sumiu dos computadores e das conversas. Hoje, boa parte de quem usou o programa não sabe explicar exatamente o que aconteceu com o KaZaa nem por que ele desapareceu tão rápido quanto surgiu.
A resposta envolve uma briga judicial em pelo menos quatro continentes, uma empresa registrada numa ilha do Pacífico para escapar da Justiça estadunidense, milhões de computadores infectados por spyware e uma dupla de empreendedores que, sem querer, acabou inventando o Skype no processo. É essa história que a gente conta a seguir.
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Nascimento das cinzas do Napster
O KaZaa não surgiu do nada. Em julho de 2001, uma decisão judicial obrigou o Napster — o programa que havia inventado a febre do compartilhamento de música pela internet — a suspender suas operações, atendendo a um processo movido pela indústria fonográfica dos EUA. Da noite para o dia, milhões de usuários ficaram sem seu principal meio de trocar arquivos MP3, mas esse vácuo não duraria muito.
Poucos meses antes, em março de 2001, uma empresa holandesa chamada Consumer Empowerment já havia lançado o KaZaa. Por trás do projeto estavam o sueco Niklas Zennström e o dinamarquês Janus Friis, que depois ficariam mundialmente conhecidos como os criadores do Skype. A tecnologia por trás do programa, batizada de FastTrack, tinha sido originalmente desenvolvida por um grupo de programadores estonianos — entre eles Jaan Tallinn, que anos depois se tornaria uma figura de peso no debate sobre segurança em inteligência artificial.
A diferença técnica entre o KaZaa e o Napster explicava boa parte do problema que a Justiça teria pela frente. Enquanto o Napster dependia de servidores centrais para indexar os arquivos disponíveis — o que tornava relativamente simples derrubar o serviço por completo —, o FastTrack funcionava de forma descentralizada, usando os próprios computadores de usuários com conexões mais rápidas como "supernós" da rede — muito parecido com o BitTorrent atualmente. Não havia um interruptor único para desligar. Bastava um usuário estar online para que parte da rede continuasse de pé.
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Fenômeno no Brasil e no mundo
O crescimento foi vertiginoso. Em pouco mais de dois anos, o cliente do KaZaa já somava mais de 60 milhões de downloads, com até 4 milhões de usuários conectados simultaneamente em seus picos de uso, o suficiente para colocar o site entre os mais visitados do mundo. Em abril de 2004, esse número de downloads já passava de 350 milhões; ao longo de toda sua existência, a própria empresa por trás do programa chegaria a reivindicar a marca de mais de 389 milhões de instalações — volume que poucos softwares da história da internet alcançaram.
Durante uma audiência judicial na Austrália, em 2004, advogados demonstraram ao juiz o tamanho da rede ao vivo: naquele exato momento, 2,1 milhões de usuários estavam conectados trocando 1,17 bilhão de arquivos entre si. Não era exagero de marketing, mas sim o retrato de uma infraestrutura de compartilhamento que havia se tornado parte do cotidiano digital de meio mundo.
No Brasil, o fenômeno do KaZaa tinha um sabor particular. Estávamos na era da internet discada e dos primeiros pacotes de banda larga, quando ainda era comum a família inteira dividir uma única linha telefônica entre chamadas e conexão à internet por provedores como iBest, IG e AOL Brasil.
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As lan houses se multiplicavam pelos bairros, sites como o Superdownloads eram destinos obrigatórios e o MSN Messenger e o ICQ dividiam a atenção de quem estava online. Nesse cenário, o KaZaa virou praticamente um verbo: "baixar do KaZaa" era a forma mais comum de conseguir download de música sem gastar um centavo, numa época em que comprar um CD original custava caro para boa parte dos brasileiros e o streaming como conhecemos hoje simplesmente não existia.
O preço de ser gratuito
Apesar de toda essa popularidade, nem tudo era vantagem. Para se manter de graça, o KaZaa vinha com programas de terceiros embutidos na instalação — ferramentas de adware e spyware como Cydoor, Gator e a barra de ferramentas New.net, que exibiam anúncios, alteravam configurações do navegador e deixavam os computadores visivelmente mais lentos.
Reclamações sobre PCs travando após a instalação do programa se tornaram tão comuns que surgiu uma versão alternativa não-oficial batizada de Kazaa Lite K++, uma versão "limpa" do cliente, sem os complementos que ninguém queria, que chegou a superar o próprio KaZaa oficial em popularidade entre usuários mais experientes. A Sharman Networks, dona da marca na época, tratou a iniciativa como violação de direitos autorais e, em dezembro de 2003, pressionou provedores de hospedagem para tirar do ar praticamente todos os sites que distribuíam o KaZaa Lite.
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Havia ainda outro problema, menos falado, mas igualmente frustrante: a rede era frequentemente inundada por arquivos falsos e corrompidos, parte deles distribuída por empresas contratadas pela própria indústria fonográfica como tática de combate à pirataria. Para quem baixava música depois de quarenta minutos de espera numa conexão discada, era comum abrir o arquivo e descobrir um MP3 mudo, com a faixa errada, ou pior: algum tipo de vírus disfarçado de música.
Depois de um tempo, baixar a música certa no KaZaa começou a ser questão de sorte, num processo muitas vezes frustrante e que exigia a paciência dos usuários.
Que fim levou o KaZaa?
Seguindo praticamente todo programa do tipo que surgiu na época, o fim do KaZaa aconteceu nos tribunais, e a trama é digna de filme. Ainda em 2001, a entidade holandesa de direitos musicais Buma/Stemra processou a Consumer Empowerment, a empresa original por trás do programa. Para escapar do cerco jurídico, Zennström e Friis venderam os ativos da marca KaZaa em janeiro de 2002 por 600 mil euros (cerca de US$ 750 mil na cotação da época) para a recém-criada Sharman Networks.
A artimanha por trás dessa venda não era por acaso. A Sharman foi registrada em Vanuatu, um arquipélago no Pacífico Sul, mantendo sede operacional na Austrália sob o comando da executiva Nikki Hemming, enquanto os servidores da rede ficavam hospedados na Dinamarca e a empresa responsável pela tecnologia FastTrack operava a partir de outro paraíso fiscal.
Ou seja, o KaZaa havia se tornado, nas palavras de um advogado da época, uma empresa que estava "em todo lugar e lugar nenhum" para dificultar ao extremo qualquer tentativa de processo sob uma única jurisdição.
Mesmo assim, a Justiça avançava simultaneamente em várias frentes. Em dezembro de 2003, a Suprema Corte holandesa deu uma vitória ao KaZaa, decidindo que o distribuidor do software não podia ser responsabilizado pelo fim que os usuários davam a ele — a responsabilidade seria individual, não da empresa.
Já nos Estados Unidos, a RIAA e a MPAA vinham processando o KaZaa, o Grokster e o Morpheus (da StreamCast) desde outubro de 2001, numa batalha que chegaria à Suprema Corte do país em 2005 no caso conhecido como MGM v. Grokster — um precedente histórico que definiu que redes P2P poderiam, sim, ser responsabilizadas caso incentivassem ativamente a pirataria entre seus usuários.
Na Austrália, onde a Sharman Networks efetivamente operava, o cerco se fechou em setembro de 2005: a Justiça Federal australiana decidiu que a empresa, embora não cometesse pirataria diretamente, havia "autorizado" seus usuários a infringir direitos autorais em larga escala, e determinou mudanças obrigatórias no software para filtrar conteúdo protegido.
O resultado veio em seguida: em 2006, a Sharman fechou um acordo bilionário, pagando mais de US$ 100 milhões (quase R$ 220 milhões na cotação da época) à indústria fonográfica e cinematográfica para encerrar todos os processos ao redor do mundo, comprometendo-se a transformar o KaZaa num serviço legal e pago.
A queda do KaZaa
O problema é que, quando o KaZaa finalmente tentou se reinventar como plataforma legal de streaming e download de música, cobrando cerca de US$ 10 por mês, com aplicativos para iPhone, iPad e iPod Touch, o mundo já havia seguido em frente sem ele.
O protocolo BitTorrent, mais eficiente por fragmentar arquivos em pedaços baixados simultaneamente de múltiplas fontes, já havia se tornado o novo padrão entre quem ainda compartilhava arquivos por P2P. Ao mesmo tempo, o YouTube, lançado em 2005, começava a mudar radicalmente a forma como as pessoas ouviam música sem precisar baixar nada — um movimento que, poucos anos depois, o Spotify levaria a um novo nível.
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Em 2011, o KaZaa tentou uma última cartada relevante com um aplicativo móvel dedicado, mas a tentativa chegou tarde demais para reverter a irrelevância que já havia se instalado. Em agosto de 2012, o site kazaa.com saiu do ar definitivamente, encerrando de forma silenciosa a trajetória de um dos softwares mais baixados da história da internet.
Curiosamente, ao longo de todo esse processo, chegou a circular um boato afirmando que a própria Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), aquela do caso Edward Snowden, havia conseguido quebrar a criptografia usada pelo programa — um detalhe que dá a dimensão do nível de escrutínio que o KaZaa atraiu, mesmo depois de anos de existência.
KaZaa ainda existe? O que sobrou da marca
Não, o KaZaa não existe mais — pelo menos não como o programa de compartilhamento de arquivos que marcou uma geração. O serviço e a marca da era Sharman Networks estão inativos desde 2012, e não há continuidade oficial entre aquele software e qualquer projeto atual que eventualmente use um nome parecido. Se você encontrar algo chamado "KaZaa" circulando por aí hoje, ele não tem relação nenhuma com o programa que você — ou seus pais — usava para baixar música.
Mas há um epílogo curioso nessa história. Os mesmos Niklas Zennström e Janus Friis que criaram o KaZaa reaproveitaram boa parte do conhecimento em redes P2P acumulado no projeto para fundar o Skype, lançado em 2003 — ainda no auge dos problemas judiciais do KaZaa.
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A tecnologia que conectava usuários diretamente uns aos outros para trocar arquivos de música virou, com alguns ajustes, a espinha dorsal de um dos serviços de chamadas pela internet mais usados do mundo. O software que a indústria fonográfica tentou destruir nos tribunais acabou, de forma indireta, ajudando a inventar o futuro das ligações online.
Época que não volta mais
O KaZaa chegou ao fim não porque a Justiça finalmente venceu a pirataria, mas sim porque surgiu algo melhor. O streaming legal resolveu, com preço acessível e catálogo instantâneo, o problema que levava milhões de pessoas a arriscarem baixar vírus e arquivos corrompidos em busca de uma música. No fim das contas, foi o mercado e a conveniência, mais do que qualquer sentença judicial, quem decretou o fim daquele jeito de baixar e consumir música.
Para quem viveu a era do modem discado, das lan houses e dos CDs gravados às pressas antes da festa, o KaZaa segue como uma lembrança vívida de um Brasil digital que já não existe mais — um lembrete de como duas décadas foram suficientes para transformar completamente a forma como o mundo inteiro consome música.
Bateu saudade daquela época? Então que tal relembrar que o Windows XP foi lançado há 25 anos e os feitos incríveis alcançados por ele?
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