
Conhecida pelo app para fazer anotações de reuniões com inteligência artificial, a Read AI agora quer levar a IA para o seu e-mail. Essa é a aposta da Ada, um assistente classificado como um “gêmeo digital” que cuida da sua caixa de entrada para responder mensagens, acompanhar tarefas, agendar encontros e muitos mais de maneira autônoma.
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O lançamento acontece em um momento de crescimento acelerado da empresa no Brasil, país que concentrou uma expansão de aproximadamente 200% no número de usuários em relação a 2024.
O conceito por trás da Ada vai além de um chatbot ou de um assistente de escrita. Em entrevista exclusiva ao Canaltech, o cofundador e CEO da Read AI, David Shim, pontua que a ferramenta constrói um modelo comportamental do usuário com base em sinais reais.
"Esse aprendizado começa imediatamente e se torna mais preciso à medida que mais contexto é acumulado. Não há um ponto fixo em que o sistema esteja 'totalmente configurado'. Em vez disso, ele evolui continuamente, com o objetivo de antecipar intenções com cada vez mais precisão e reduzir a necessidade de intervenção manual", explicou.
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Na prática, a Ada funciona como um intermediário inteligente entre o profissional e sua rotina de comunicação. A plataforma analisa e-mails recebidos, sugere respostas, agenda compromissos com base na disponibilidade real do usuário e mantém o acompanhamento de tarefas discutidas em reuniões anteriores.
Tudo isso sem que o profissional precise reconstruir esse contexto manualmente.
A nova plataforma também promete manter a produtividade mesmo durante períodos de férias ou ausência. Um ponto sensível para o mercado brasileiro, pois, segundo um levantamento da Read AI, quatro em cada dez profissionais relatam que a falta de documentação causa interrupções quando alguém da equipe se ausenta.
Por que o e-mail (e não um novo app)?
A escolha do e-mail como ponto de partida chama a atenção em um cenário onde mensageiros corporativos, como o Slack, Microsoft Teams e Google Chat, dominam a comunicação corporativa. Para Shim, no entanto, a decisão é estratégica.
"O e-mail ainda é a camada mais universal de trabalho para todos os profissionais, globalmente", afirmou. "Ao operar no e-mail, a Ada se torna uma presença 'ambiente', coordenando reuniões dentro de um fluxo já existente, respondendo com disponibilidade, gerenciando follow-ups e redigindo respostas dentro das conversas."
O CEO antecipou que a expansão para outros canais já está nos planos. "O próximo passo é expandir esse modelo para outros canais e fluxos de trabalho, começando com o Microsoft Teams e Slack, aumentando a capacidade da Ada de engajar e executar tarefas."
O crescimento no Brasil
Os números da Read AI no mercado brasileiro são expressivos. A empresa registrou mais que dobrou o número de usuários ativos semanais em comparação com o ano anterior.
O CEO atribui o desempenho no Brasil a uma combinação de maturidade digital e demanda reprimida.
"O Brasil é um mercado digitalmente nativo, onde o uso de IA é crescente. Em 2025, 68% dos profissionais já utilizavam IA diariamente e 84% desejavam uma adoção mais ampla no trabalho", disse Shim ao Canaltech, citando a pesquisa conduzida pela empresa.
Para o executivo, o problema que impulsiona essa adoção tem nome: "workslop”, um termo que descreve o tempo perdido por equipes que refazem tarefas ou buscam contexto em diferentes sistemas sem conseguir avançar.
De acordo com o levantamento da Read AI, sete em cada dez profissionais brasileiros revisitam anotações ou procuram decisões passadas apenas para se manterem alinhados.
"A IA resolve isso ao transformar conversas do dia a dia em inteligência organizada e acionável", afirmou Shim.
Quem manda na Ada?
A proposta de um "gêmeo digital" que acessa e-mails, calendários e históricos de reuniões levanta questões inevitáveis sobre privacidade. A própria pesquisa da Read AI reconhece a resistência: quase metade dos brasileiros se dizem confortáveis com a ideia. Mesmo assim, condicionam a aceitação à transparência.
Shim afirmou que a transparência está incorporada no funcionamento da ferramenta.
"Antes de enviar qualquer e-mail que compartilhe informações potencialmente sensíveis, este Gêmeo Digital leva a conversa pública a uma interação direta com o usuário por meio da 'barra lateral'. Esse recurso mostra um rascunho da mensagem e solicita aprovação", explicou.
Na prática, isso significa que a Ada não faz envios sem o aval do usuário, o que garante mais transparência e controle das ações.
O CEO destacou, ainda, que quase todos os modelos da Read AI são proprietários e patenteados, e que as informações dos usuários não são compartilhadas por padrão para treinamento.
A plataforma, porém, oferece uma opção para liberar o uso dos dados para aprimorar os modelos, adotada por 10% da base de usuários.
Em ambientes corporativos, o controle é dividido: o funcionário define como a Ada opera no dia a dia, enquanto a empresa pode estabelecer políticas e limites de uso. A Read AI afirma que o acesso às informações segue estruturas de permissão e uma abordagem "de baixo para cima".
Os limites éticos de uma IA que age por você
Questionado sobre até onde a Ada deveria poder ir ao agir em nome de alguém, Shim pontua que a Ada foi projetada para operar dentro de limites claramente definidos, sempre alinhados à conscientização e ao consentimento do usuário.
“O objetivo não é substituir o julgamento humano, mas apoiá-lo e ampliá-lo", disse em entrevista ao Canaltech. "À medida que esses sistemas se tornam mais capazes, definir e fazer cumprir esses limites torna-se tão importante quanto a própria tecnologia."
A resposta é cuidadosa, mas não escapa de um desafio concreto: à medida que a Ada aprende mais sobre o usuário e ganha capacidade de execução, a linha entre assistência e autonomia tende a ficar cada vez mais fina.
A empresa promete manter o humano "no ciclo de decisão", mas o sucesso dessa promessa dependerá de como o produto evoluirá nos próximos meses. Especialmente quando chegar a plataformas mais dinâmicas, como Slack e Teams, onde a velocidade das trocas deixa menos espaço para revisão.
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