
Caso você, leitor, seja um millennial que guarda na memória as frustrações de morrer no último chefe de um jogo de SNES e ter que começar do zero, a nostalgia pelo estilo dos jogos antigos provavelmente ressoa fundo.
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Atualmente, a maioria dos jogos abandonou essa construção de resiliência em favor de experiências com recompensas constantes e pequenas frustrações que podem ser superadas com microtransações.
Essa diferença nas abordagens também teria afetado o cérebro dos gamers? Segundo pesquisas científicas sobre o tema, sim: em entrevistas com profissionais da saúde mental, a repórter Daniella Gray, do site Newsweek, descobriu que a memorização de padrões, dedicação e perseverança necessárias para terminar um jogo recompensavam o jogador com uma satisfação de longa duração.
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Os jogos costumavam ter início, meio e fim claros, e era necessário melhorar as habilidades ou começar do zero diversas vezes. Pontos de parada naturais ajudavam a criar pausas, que levavam o gamer a desligar o console e sair de casa.
É um espelho do mundo real: com isso, eram treinadas paciência, tolerância a frustrações e a energia de perseverança millennial. E isso faz toda a diferença.
Os jogos da Geração Z
A experiência moderna dos videogames, em contraste, é a de jogos como serviço, em sua maioria. Games “grátis” possuem camadas de microtransações: desconfortos leves na jogabilidade podem ser resolvidos com um pouco de dinheiro.
O algoritmo cutuca os jogadores para que nunca parem de jogar, gerando um ciclo de vício que não possui um fim visível. É a “dopamina do fast-food”, segundo a pesquisadora Veronica Lichtenstein, onde o cérebro deseja a recompensa imediata constante.
A retenção e monetização são mais importantes para o design de jogos modernos (excetuando, é claro, jogos mais focados no single–player e na narrativa, que ainda existem). O medo de perder algo (Fear Of Missing Out, o famoso FOMO) mantém os jogadores focados, o que pode levar a sono de má qualidade, ansiedade e um ruído difícil de se desvencilhar.
Jogos retrô e comportamento
Não é à toa, então, que muitos jogadores da geração Z acabem fascinados pela estética pixelada e design dos jogos de consoles antigos. Sem notificações, passes de batalha e sistemas rankeados que julgam todo e qualquer movimento, é refrescante embarcar numa experiência gamer com início, meio e fim. É a “comida conforto”, onde a estabilidade e previsibilidade contrastam fortemente com o imediatismo e ansiedade modernos.
Segundo BrainFacts, site educativo da revista científica Society for Neuroscience, os jogos de ação modernos ajudam a desenvolver a percepção e coordenação motoras, velocidade de reação e adaptabilidade à imprevisibilidade. Experiências violentas curtas e constante, no entanto, podem aumentar a ansiedade e piorar a regulação e controle de emoções.
Jogos de estratégia, no entanto, são majoritariamente positivos, ajudando na coordenação motora, memória e pensamento espacial, com praticamente nenhum efeito adverso.
Estudos da Universidade da Geórgia e Cleveland Clinic mostraram que videogames melhoram habilidades espaciais e visuais e troca entre tarefas, indicando um efeito positivo que até aumenta a proporção de massa cinzenta no cérebro e ajuda na comunicação entre diferentes regiões do órgão.
Ao mesmo tempo, há o que se chama de “transtorno de jogar na internet” e as consequências emocionais de usar os jogos como mecanismo principal para abstrair dos problemas da vida. Os jogos não são bons ou ruins inerentemente, mas sim têm potencial para melhorar habilidades ou aumentar a ansiedade nos jogadores a depender dos hábitos de cada um.
A resiliência dos jogos millennials era construída à medida que os gamers ligavam para amigos ou buscavam revistas com guias, quando não havia uma forma simples de simplesmente quebrar as barreiras da dificuldade.
Parte do problema atual é que a interação entre amigos na internet fica no mesmo aplicativo que vende skins e passes de temporada: a confusão dessa fronteira pode ser muito prejudicial.
Nenhum cérebro gamer é melhor do que o outro, mas seu desenvolvimento acontece em ambientes diferentes, com regras diferentes. Jogos são positivos, em geral, mas precisam de controle: à medida que crescem, crianças precisam de controle para que a jogatina não atrapalhe a socialização, o sono, a escola ou o humor.
O acompanhamento dos adultos é importante para que o mundo dos jogos não seja um ambiente secreto, mas sim monitorado e guiado por eles. Como qualquer outra mídia, os videogames alimentam a curiosidade, alegria e relacionamentos, para além do ganho de dopamina, mas precisam ser usados de maneira inteligente.
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