Durante muito tempo, falar sobre Linux no desktop significava ouvir praticamente a mesma resposta das grandes empresas: não havia usuários suficientes para justificar o investimento. Se determinada companhia precisasse escolher entre desenvolver e manter uma versão para Windows, macOS ou Linux, o sistema do pinguim quase sempre ficava para depois. A comunidade acabava preenchendo parte dessa lacuna com projetos independentes, camadas de compatibilidade e soluções alternativas.
Em 2026, entretanto, alguma coisa parece ter mudado. E talvez a melhor maneira de perceber isso seja olhar para empresas que, historicamente, não tinham exatamente o Linux como prioridade.
Até a Epic Games entrou nessa história
A notícia de que a Epic Games pretende disponibilizar uma versão do seu cliente para Linux é particularmente simbólica. A empresa não é conhecida por ter sido uma das maiores defensoras do sistema no desktop, e seu movimento chama atenção justamente porque representa uma decisão comercial: desenvolver uma versão oficial de um software custa dinheiro, exige manutenção e precisa fazer sentido para o negócio.
A Epic, portanto, não precisa necessariamente ter se apaixonado pelo Linux. Basta que tenha percebido que existe uma quantidade suficientemente grande de usuários para justificar o investimento.
O Linux deixou de ser um mercado irrelevante
O crescimento do Linux no desktop ainda não significa que ele esteja perto de ultrapassar o Windows em quantidade de usuários. A questão é outra. Para uma empresa, não é necessário dominar um mercado para que ele seja interessante. Dependendo do tamanho e do perfil desse público, uma plataforma que antes não compensava o esforço pode passar a justificar uma versão própria.
O ecossistema de jogos ajuda a explicar essa transformação. A Valve investiu pesado no Linux com o SteamOS, o Proton e o Steam Deck, e uma consequência desse movimento foi tornar muito mais simples jogar no sistema. O resultado também pressionou desenvolvedores a considerar o Linux durante o desenvolvimento de seus jogos e ferramentas.
Outras empresas começaram a perceber a mesma oportunidade. A NVIDIA, por exemplo, passou a oferecer soluções mais robustas para usuários Linux interessados em jogos. A GOG também já demonstrou interesse em levar seu cliente para a plataforma.
São movimentos diferentes, mas apontam para a mesma direção: o custo de ignorar o Linux está ficando maior.
A barreira técnica também diminuiu
Há quinze anos, recomendar Linux para alguém que nunca havia utilizado o sistema poderia significar preparar essa pessoa para uma quantidade considerável de barreiras. Hoje, a situação é bastante diferente.
Distribuições modernas conseguem instalar drivers, atualizar o sistema, gerenciar aplicativos e configurar hardware sem exigir que o usuário conheça o funcionamento interno do sistema operacional. Projetos como SteamOS e distribuições voltadas para jogos também ajudaram a transformar tecnologias antes pouco acessíveis em ferramentas utilizadas por pessoas comuns.
Isso reduz um obstáculo importante para as empresas. Quanto mais fácil for para alguém instalar e utilizar Linux, maior será o público potencial de um aplicativo desenvolvido para a plataforma.
É um ciclo interessante: mais usuários tornam o Linux mais atraente para empresas, enquanto mais aplicativos tornam o Linux mais atraente para novos usuários.
Ainda existe um grande problema: software profissional
Se os jogos avançaram tanto, por que ainda é tão difícil convencer algumas pessoas a abandonar o Windows? A resposta está principalmente nos softwares profissionais e nos ecossistemas construídos ao redor deles.
O DaVinci Resolve, da Blackmagic Design, já possui versão para Linux e demonstra que é perfeitamente possível desenvolver uma ferramenta profissional para a plataforma. O problema é que não basta o programa principal existir. Editores dependem de plugins, efeitos, templates, integrações e outros componentes que formam um ecossistema inteiro.
O mesmo vale para programas de CAD, engenharia, arquitetura, design e produção audiovisual. Em muitos desses segmentos, o problema não é simplesmente a ausência de um aplicativo, mas a quantidade de ferramentas e processos construídos ao redor dele durante décadas.
É por isso que alternativas como o Affinity, que já conseguem funcionar no Linux por meio de camadas de compatibilidade, são tão interessantes. Se o mercado continuar crescendo, empresas que se anteciparem podem conquistar usuários justamente enquanto concorrentes maiores ainda consideram se vale a pena entrar.
Talvez o Windows 11 tenha ajudado
Existe ainda uma ironia nessa história. Parte do crescimento do interesse pelo Linux pode ter sido impulsionada pelo próprio Windows.
Mudanças no Windows 11, exigências de hardware, publicidade, integração de serviços e decisões que desagradaram parte dos usuários fizeram algumas pessoas procurarem alternativas. O Linux estava ali quando elas começaram a olhar para o outro lado.
Só que, desta vez, elas encontraram um sistema muito mais maduro do que aquele que existia anos atrás.
Por isso, talvez o mais interessante de observar em 2026 não seja simplesmente quantas pessoas estão usando Linux. É perceber que empresas que antes não enxergavam valor suficiente na plataforma começaram a enxergá-lo.
Este conteúdo é um corte do Diocast. Assista ao episódio completo, em que revisitamos uma das divisões mais antigas do universo Linux: a diferença entre uma distribuição fácil e uma distribuição considerada avançada. Só que existe um detalhe importante nessa discussão. O que acontece quando aquela distro considerada “para iniciantes” está rodando justamente na máquina de alguém que trabalha profissionalmente com edição de vídeo, criação de conteúdo e inteligência artificial local?