O Bazzite já deixou há algum tempo de ser apenas aquela distribuição Linux para quem queria transformar um PC em uma espécie de Steam Deck. A proposta continua fortemente ligada aos jogos, mas o projeto vem construindo algo mais ambicioso: um sistema baseado no Fedora Atomic que tenta esconder boa parte da complexidade do Linux, preservando as possibilidades que fizeram tanta gente escolher a plataforma.
O Bazzite 44 representa um passo importante nessa direção. A atualização reúne mais de 700 commits e foi apresentada pelo Universal Blue como a maior atualização da história do projeto. Entre as novidades estão um novo sistema gráfico para atualização, uma versão reformulada do Bazzite Portal, o Bazaar mais econômico, gerenciamento de múltiplas GPUs com o CardWire e uma nova pilha de recursos voltados para jogos.
Mais interessante ainda é perceber que várias dessas mudanças não são necessariamente sobre jogos. Elas atacam justamente aquelas pequenas fricções que fazem um usuário acostumado ao Windows pensar duas vezes antes de instalar alguma distro Linux.
Instalar o Bazzite ficou mais simples
Uma das primeiras diferenças aparece antes mesmo de o usuário começar a utilizar o sistema. O Bazzite adotou um novo instalador baseado no Fedora Atomic, com uma experiência bastante direta para escolher o disco, configurar o usuário e iniciar a instalação. Para quem já instalou distribuições Linux anteriormente, talvez pareça uma mudança pequena, mas simplificar esse primeiro contato é importante para uma distribuição que pretende chegar também às pessoas que não querem aprender como cada componente do sistema funciona antes de começar a utilizá-lo.

O Secure Boot também é suportado, inclusive em cenários de dual boot com Windows. Existe uma etapa para cadastrar a chave do Universal Blue no firmware, mas o procedimento é documentado e pode ser realizado durante ou depois da instalação. Portanto, ainda há uma particularidade técnica envolvida, mas ela não exige que o usuário saia procurando uma solução por fora.
Esse tipo de detalhe resume bem a evolução do Bazzite: a tecnologia continua complexa por baixo, mas a intenção é que ela apareça cada vez menos para quem só quer usar o computador.

Bazzite Portal concentra configurações que antes exigiam terminal
Depois da instalação, essa filosofia fica ainda mais evidente no Bazzite Portal. A ferramenta foi reescrita e ganhou uma interface mais integrada ao restante do sistema. Ela funciona como uma central para várias tarefas que anteriormente poderiam exigir comandos ujust no terminal. É possível encontrar configurações relacionadas ao sistema, instalar ferramentas, ativar recursos e acessar a documentação diretamente pela interface gráfica.

Isso inclui algumas funções particularmente interessantes para quem está chegando agora ao Linux. O Portal oferece atalhos para ferramentas como OpenRGB, Waydroid e Decky, além de opções relacionadas a VRR, HDMI-CEC, atualizações e outros recursos específicos do Bazzite.
Também existe uma seção para instalação de aplicativos e ferramentas. Entre as opções disponíveis estão soluções para diferentes necessidades, incluindo software de criação, ferramentas de inteligência artificial e componentes voltados a hardware gamer.

E aqui existe uma diferença importante em relação à velha ideia de que usar uma distribuição imutável significa viver no terminal. O terminal continua lá e continua sendo uma opção para quem gosta de administrar o sistema dessa maneira. O que mudou é que ele deixou de ser uma obrigação para uma série de tarefas comuns.
Um atualizador gráfico finalmente coloca o terminal em segundo plano
Talvez a mudança mais simbólica seja o Bazzite Updater. Anteriormente, atualizar o sistema podia significar clicar em um ícone e, de repente, ver um terminal executando o Topgrade. A ferramenta funcionava, mas não era exatamente a experiência que você esperaria oferecer para alguém que acabou de abandonar o Windows.
O Bazzite 44 transforma esse processo em uma aplicação gráfica própria. O Bazzite Updater permite procurar e instalar atualizações, visualizar changelogs e acessar opções de rollback. A interface também pode ser adicionada ao Steam Big Picture e utilizada com um controle.

Isso combina particularmente bem com a filosofia do Bazzite porque o sistema é baseado em imagens imutáveis. Em vez de simplesmente alterar o sistema instalado arquivo por arquivo, novas versões da imagem são disponibilizadas e o computador pode inicializar a partir da implantação atualizada. Se alguma coisa der errado, existe inclusive a possibilidade de voltar para uma implantação anterior.
O terminal continua disponível, mas agora ele realmente parece uma escolha.
O kernel do Bazzite também mudou
Por baixo de toda essa interface amigável está uma das mudanças mais interessantes do lançamento: o Bazzite passou a utilizar o kernel do Open Gaming Collective, ou OGC.
O projeto reúne desenvolvedores interessados em criar componentes que possam ser utilizados por diferentes distribuições Linux para melhorar a experiência de jogos. O Bazzite incorporou esse trabalho à sua própria infraestrutura, em vez de manter toda a otimização exclusivamente dentro do projeto.
Na versão 44, a distribuição utiliza a série 7.2 do kernel OGC, que recebe, entre outras coisas, melhorias de escalonamento desenvolvidas para processadores híbridos e assimétricos. Os desenvolvedores destacam ganhos especialmente nos chamados 1% lows, uma métrica importante para perceber quedas e oscilações de desempenho durante os jogos.
CardWire resolve uma dor antiga dos notebooks
Quem usa um notebook com gráficos integrados e uma GPU dedicada conhece outra fonte tradicional de complicação no Linux: decidir qual GPU deve estar ativa e qual aplicação deve utilizar cada uma delas.
O Bazzite 44 apresenta o CardWire como substituto moderno para ferramentas anteriores de gerenciamento, como Switcheroo e Supergfxctl. A ideia é tornar a configuração de GPUs híbridas mais simples, permitindo definir modos e controlar qual placa deve ser utilizada sem precisar montar uma coleção de configurações específicas.
O sistema utiliza mecanismos baseados em eBPF para controlar o acesso aos dispositivos gráficos. Em notebooks, isso também pode ajudar no consumo de energia, já que uma GPU dedicada pode permanecer em estados de baixo consumo quando não é necessária.
É uma novidade que provavelmente passará despercebida por quem tem um desktop com uma única placa de vídeo. Para quem tem um notebook gamer, porém, a diferença pode ser enorme.

Contêineres ficaram mais amigáveis no KDE
Outra novidade interessante é o Container, uma aplicação desenvolvida para facilitar o gerenciamento de contêineres usados pelo Distrobox.
A ideia é particularmente adequada ao Bazzite. Como a base do sistema é imutável, instalar determinados pacotes diretamente no sistema não é a abordagem recomendada. Em vez disso, o usuário pode criar um contêiner com outra distribuição, instalar os programas dentro dele e integrá-los ao desktop.
Isso significa que você pode estar utilizando o Bazzite baseado no Fedora e, ao mesmo tempo, criar um contêiner Ubuntu para instalar pacotes com apt. O programa instalado pode depois aparecer no menu de aplicativos como se fosse um software convencional.
É uma maneira de preservar a estabilidade da base imutável sem transformar o computador em uma máquina limitada. O próprio projeto recomenda o uso de contêineres para boa parte dos programas que não precisam ser instalados diretamente no sistema.

O Bazzite também está cuidando melhor da VRAM
Entre as mudanças menos visíveis, mas potencialmente importantes para jogadores com pouca VRAM, está a chegada do dmemcg-booster e do plasma-foreground-booster.
A tecnologia utiliza recursos do kernel para dar prioridade de memória de vídeo aos aplicativos que estão em primeiro plano. Assim, quando a VRAM começa a ficar pressionada, processos em segundo plano, como navegadores, podem ser sacrificados antes do jogo que está sendo executado.
O recurso foi incorporado ao Bazzite justamente por ser especialmente interessante para equipamentos com 8 GB de VRAM ou menos. No KDE Plasma, o plasma-foreground-booster acompanha qual janela está em primeiro plano e atribui a ela a prioridade mais alta.
Não significa que qualquer jogo passará magicamente a entregar mais quadros por segundo. A proposta é evitar situações em que outros programas disputam recursos com o jogo quando a memória gráfica já está próxima do limite.
Bazaar ficou mais leve
A loja de aplicativos do Bazzite também recebeu atenção. O Bazaar, que funciona como a loja de Flatpaks da distribuição, passou por uma otimização importante no consumo de memória. Segundo os desenvolvedores, o aplicativo pode ficar praticamente inativo quando não está realizando pesquisas ou atualizações, chegando a consumir apenas alguns megabytes de RAM quando está em segundo plano.
Além disso, o Bazaar foi aceito no GNOME Circle, uma coleção de aplicativos que seguem critérios específicos de integração e qualidade dentro do ecossistema GNOME.
Pode parecer uma informação pequena, mas existe uma lógica interessante por trás disso. Uma loja de aplicativos não deveria precisar ficar ocupando recursos constantemente enquanto você está jogando. No Bazzite 44, ela está sendo tratada cada vez mais como uma ferramenta que aparece quando é necessária e desaparece quando não é.
E os números de popularidade?
O Bazzite faz parte do Universal Blue, projeto que reúne diversas imagens imutáveis baseadas no Fedora. Segundo os desenvolvedores, o Bazzite se tornou disparadamente o projeto mais popular do ecossistema, com uma quantidade de usuários ativos muito superior à de outras imagens do Universal Blue.
Mais impressionante ainda é a afirmação de que o Bazzite seria responsável por aproximadamente 30% do tráfego do Flathub.
É uma estatística que merece alguma cautela. O próprio Flathub mostra uma enorme quantidade de sistemas não identificados nas suas métricas, o que dificulta transformar esses números em uma contagem precisa de usuários. A página oficial de estatísticas registra bilhões de downloads acumulados, mas não oferece uma fotografia perfeita da base instalada de cada distribuição.
Ainda assim, a própria existência desse dado já mostra como o Bazzite cresceu. Segundo os desenvolvedores, entre os sistemas identificados no tráfego do Flathub, o Bazzite aparece atrás do Fedora. Não dá para transformar isso automaticamente em “Bazzite é a segunda maior distribuição Linux”, porque são métricas diferentes, mas é um sinal bastante claro da dimensão que o projeto alcançou.
O Bazzite está ficando mais interessante para quem nem joga
A distribuição continua sendo extremamente voltada para jogos, mas cada vez mais o conjunto de ferramentas parece adequado para um usuário comum. O sistema oferece uma base Fedora Atomic, atualizações atômicas, rollback, integração com Flatpak, contêineres, gerenciamento simplificado de hardware e agora interfaces gráficas para boa parte das tarefas que anteriormente exigiam comandos.
Isso faz diferença para quem olha para o Linux e pensa: “Eu até gostaria de usar, mas não quero passar meu tempo aprendendo a consertar o sistema”.
O Bazzite não elimina completamente a necessidade de conhecimento técnico, nem pretende ser uma solução universal para todos os computadores. Existem limitações de hardware, problemas específicos que ainda podem aparecer e situações em que o terminal continua sendo a maneira mais rápida de resolver alguma coisa.
Mas a direção do projeto é bastante clara. O computador deveria trabalhar para o usuário, e não exigir que o usuário aprenda como ele funciona antes de conseguir trabalhar, criar ou jogar.
Para uma distribuição criada em torno dos jogos, é uma evolução que pode acabar interessando justamente a quem queria instalar Linux por outros motivos.
E, se você ainda tem dúvidas sobre como é usar o Bazzite fora dos jogos, fizemos a experiência de passar um mês inteiro com ele e tentar fazer praticamente tudo, menos jogar.