Com o lançamento do Ubuntu 26.04 LTS já consolidado, a Canonical começou a revelar seus planos para o próximo ciclo de desenvolvimento. O Ubuntu 26.10, codinome “Stonking Stingray”, chega em outubro deste ano, mas sua importância vai muito além de uma atualização semestral.
Segundo a equipe de engenharia do Ubuntu Desktop, boa parte do trabalho realizado durante este ciclo servirá para preparar o terreno para o Ubuntu 28.04 LTS, a próxima versão de suporte estendido da distribuição.
O roadmap publicado pela Canonical apresenta uma visão sobre como a empresa enxerga o futuro do desktop Linux. Essa estratégia está organizada em quatro pilares: uma plataforma robusta baseada no GNOME, uma experiência simples por padrão, um desktop capaz de compreender contexto e uma plataforma cada vez mais integrada e confiável.
O GNOME continua sendo o centro da experiência Ubuntu
Nos últimos anos, a Canonical tem investido fortemente em uma aproximação com o projeto GNOME, abandonando antigas tentativas de criar uma experiência paralela e concentrando esforços no desenvolvimento do ambiente gráfico mais popular do ecossistema Linux.
O Ubuntu 26.10 será lançado com o GNOME 51, previsto para setembro, e a equipe já trabalha tanto na integração da nova versão quanto no envio de contribuições diretamente para o projeto. Ao mesmo tempo, a Canonical afirma estar levando correções de estabilidade do GNOME 50.1 para o Ubuntu 26.04 LTS.
Essa estratégia ajuda a reduzir divergências entre Ubuntu e GNOME, simplifica a manutenção do sistema e permite que melhorias feitas pela Canonical beneficiem toda a comunidade Linux.
Mudanças que sustentam o sistema
Nem todas as novidades aparecem na área de trabalho. Uma das mudanças previstas para o Ubuntu 26.10 é a conclusão da migração do tradicional dbus-daemon para o dbus-broker. Embora a maioria dos usuários provavelmente nunca perceba essa alteração, ela afeta diretamente componentes fundamentais da comunicação interna do sistema.
Segundo a Canonical, a mudança traz melhorias em confiabilidade, segurança, desempenho e manutenção da pilha de software utilizada pelo desktop.
O mesmo raciocínio vale para os investimentos em acessibilidade. A empresa afirma estar trabalhando para alinhar o Ubuntu aos requisitos da norma WCAG 2.2 AA, além de atender exigências regulatórias como a European Accessibility Act.
Parte desse trabalho envolve auditorias externas, correções de problemas identificados e melhorias no ecossistema Flutter, tecnologia utilizada por diversos aplicativos desenvolvidos pela Canonical e que agora, a versão desktop, está sob sua responsabilidade.
Simplificar sem limitar
Um dos temas centrais do roadmap é a busca por uma experiência mais simples para novos usuários sem sacrificar a flexibilidade que sempre caracterizou o Linux. A App Center continua sendo um dos principais exemplos dessa filosofia.
A intenção da Canonical é transformar a loja de aplicativos em uma plataforma cada vez mais independente do formato de empacotamento utilizado. Para o usuário comum, isso significa encontrar aplicativos por nome, categoria ou avaliação sem precisar entender a diferença entre Snap, pacotes tradicionais ou outros formatos.
Ao mesmo tempo, usuários mais experientes continuarão tendo acesso às informações necessárias para escolher exatamente o formato que desejam instalar.
A empresa também está revisando a experiência de gerenciamento de drivers. Novos metadados, classificações mais claras e indicadores de maturidade devem ajudar usuários a compreender melhor as opções disponíveis para seu hardware.
O instalador do Ubuntu pode mudar bastante até 2028
Embora algumas das mudanças mais ambiciosas ainda não estejam previstas para o Ubuntu 26.10, a fase de design já começou.
A Canonical trabalha em uma reformulação significativa da instalação do sistema. O objetivo é reduzir a complexidade enfrentada por novos usuários durante etapas como particionamento de disco e configuração de armazenamento.
A proposta envolve fluxos guiados, configurações seguras por padrão e uma apresentação gradual das opções avançadas. Outra mudança importante é a criação de uma experiência de onboarding após o primeiro boot.
Em vez de concentrar todas as decisões durante a instalação, o Ubuntu passaria a permitir que parte da personalização acontecesse após o sistema já estar funcionando. A ideia lembra abordagens utilizadas por Fedora, Android, Windows e macOS.
Segundo a Canonical, essas mudanças não estrearão em 2026, mas as decisões que moldarão essa experiência estão sendo tomadas agora.
Desktop consciente de contexto
Talvez o aspecto mais interessante de todo o roadmap seja a visão da Canonical para o futuro da interação entre usuários e computadores. A empresa chama essa iniciativa de “Context-Aware Desktop”, algo que pode ser traduzido livremente como um desktop consciente de contexto.
A proposta não é simplesmente adicionar mais uma janela de chat baseada em inteligência artificial ao sistema operacional. Segundo a Canonical, o objetivo é criar um ambiente capaz de compreender o que o usuário está tentando fazer e oferecer assistência utilizando informações de aplicativos, serviços e do próprio sistema.
É uma visão alinhada às declarações recentes da empresa sobre inteligência artificial, mas com foco em privacidade, transparência e controle por parte do usuário. Como parte dessa iniciativa, o Ubuntu já começa a explorar tecnologias de reconhecimento de voz executadas localmente. A ideia é utilizar mecanismos de conversão de fala em texto diretamente no dispositivo, sem a necessidade de enviar dados para serviços externos.
Caso esse projeto avance, poderá representar uma das maiores transformações na experiência do desktop Linux.
Empresas continuam sendo uma prioridade
O roadmap também mostra que a Canonical continua investindo fortemente em recursos voltados para ambientes corporativos.
O projeto authd receberá suporte à autenticação baseada em contas Microsoft com autenticação multifator integrada ao Microsoft Authenticator. Administradores também poderão utilizar atributos dos provedores de identidade para definir automaticamente UID e GID dos usuários, facilitando a administração de grandes ambientes.
Outra novidade será a possibilidade de desativar a autenticação local para contas gerenciadas remotamente, garantindo que as políticas de acesso sejam controladas exclusivamente pelo provedor de identidade utilizado pela organização.
Já o NetworkManager ganhará suporte para autenticação via PKCS#11 e smart cards, permitindo o uso de dispositivos como YubiKeys para conexões VPN através das interfaces gráficas tradicionais.
Mais transparência para hardware certificado
A Canonical também pretende aproximar usuários das informações sobre certificação de hardware. No Ubuntu 26.10, informações sobre equipamentos certificados deverão aparecer diretamente nas configurações do GNOME, facilitando a identificação de dispositivos oficialmente homologados para funcionar com o sistema.
Além disso, a empresa continua investindo na reorganização de sua documentação, incluindo a nova plataforma Wiki do Ubuntu e a consolidação de conteúdos sob uma estrutura unificada.
O Ubuntu 26.10 é apenas o começo
Embora algumas novidades sejam visíveis já em outubro, boa parte do trabalho descrito pela equipe de engenharia representa investimentos de longo prazo que devem amadurecer ao longo dos próximos ciclos de desenvolvimento.
Se os planos divulgados pela empresa forem concretizados, o Ubuntu 28.04 LTS poderá ser uma das versões mais importantes da distribuição nos últimos anos.
O desenvolvimento do Ubuntu 26.10 seguirá o seguinte calendário:
A fase de congelamento de recursos está prevista para 20 de agosto de 2026. O congelamento da interface ocorrerá em 10 de setembro. A versão beta deve ser disponibilizada em 24 de setembro, seguida pelo congelamento final em 8 de outubro. O lançamento oficial permanece marcado para 15 de outubro de 2026.
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