GameHub roda jogos de PC no celular e revela o futuro do gaming em ARM

GameHub roda jogos de PC no celular e revela o futuro do gaming em ARM

Rodar um jogo de PC diretamente em um smartphone ainda parece uma daquelas coisas exige uma gambiarra enorme, streaming pela internet ou uma versão específica para Android. O GameHub mostra que a realidade já é bem diferente. Com ele, é possível executar jogos de Windows no celular, usando o hardware do próprio aparelho e tecnologias de compatibilidade que traduzem instruções entre arquiteturas e APIs diferentes.

Em nossos testes, um Galaxy S25 conseguiu executar títulos como Cuphead e Rise of the Tomb Raider, embora com resultados bastante diferentes. Enquanto o primeiro apresentou desempenho extremamente alto, o segundo mostrou que ainda estamos longe de transformar qualquer celular em um PC gamer universal.

O mais interessante, porém, está por trás do aplicativo. O GameHub reúne tecnologias como Wine, Proton, DXVK, Box64 e FEX, projetos que ajudam a explicar por que a distância entre PC, Linux, Windows, ARM e Android está ficando cada vez menor. E, no meio dessa história, aparece também a Valve, que tem investido em tecnologias capazes de fazer software x86 funcionar em processadores ARM.

O que é o GameHub?

O GameHub é um cliente para Android desenvolvido pela GameSir, fabricante chinesa conhecida principalmente por seus controles e acessórios para dispositivos móveis. O aplicativo funciona como uma espécie de central para diferentes tipos de jogos, reunindo títulos de Android, jogos de PC e até opções de streaming.

No caso dos jogos de PC, a proposta é particularmente interessante: o GameHub consegue executar localmente softwares desenvolvidos originalmente para computadores, sem depender de um PC transmitindo a imagem para o celular.

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Isso significa que, ao colocar Rise of the Tomb Raider para funcionar, por exemplo, o smartphone está realmente processando o jogo. O vídeo não está vindo de um computador remoto.

A experiência depende bastante do hardware. O próprio projeto não apresenta uma lista muito precisa de requisitos mínimos, mas os testes da comunidade indicam que Android 8 é uma base possível, enquanto versões mais recentes do sistema tendem a oferecer uma experiência melhor. Processadores Snapdragon também costumam levar vantagem nesse cenário, especialmente por causa do suporte aos drivers gráficos utilizados por essas soluções.

Em memória, 6 GB pode ser considerado um ponto de partida, mas 8 GB ou mais é uma escolha muito mais confortável. O armazenamento também merece atenção: os jogos continuam tendo praticamente o mesmo tamanho que teriam em um PC. Instalar alguns títulos grandes pode consumir dezenas de gigabytes rapidamente.

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Um Galaxy S25 como PC gamer

Para testar o GameHub, utilizamos um Galaxy S25, conectado a um monitor por meio do Samsung DeX. A combinação é interessante porque o DeX transforma a interface do Android em algo muito mais próximo de um desktop tradicional, permitindo usar teclado, mouse e monitor externo.

Também é possível utilizar controles virtuais na tela, mas um controle físico torna a experiência muito mais próxima de uma plataforma convencional.

O GameHub apresenta uma interface própria para organizar a biblioteca. É possível adicionar jogos de Android e títulos de PC, além de conectar uma conta Steam para visualizar a biblioteca adquirida na plataforma.

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Os jogos aparecem com diferentes indicadores de compatibilidade. Alguns possuem uma marca de verificação, indicando que já foram testados e apresentam suporte conhecido. Outros aparecem como desconhecidos, o que não significa necessariamente que sejam incompatíveis, apenas que não existe uma validação suficiente para garantir o funcionamento.

Essa distinção é importante porque o GameHub ainda está longe de oferecer a previsibilidade de um console. A compatibilidade varia bastante de um jogo para outro.

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Cuphead mostra o potencial

O primeiro teste foi com Cuphead, e o resultado foi impressionante. O jogo funcionou de maneira extremamente fluida no Galaxy S25, chegando a registrar aproximadamente 280 FPS quando o limite de quadros foi removido. A temperatura do aparelho ficou em torno dos 60 °C durante o teste.

Naturalmente, não existe muita vantagem em buscar centenas de quadros por segundo em um jogo como Cuphead. O teste serve mais para mostrar quanto desempenho o aparelho consegue entregar quando a carga é relativamente leve.

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O GameHub também disponibiliza controles virtuais, limite de FPS e opções relacionadas a resolução e filtros de escala. No teste, a resolução ficou limitada a 720p, possivelmente como parte da configuração utilizada para equilibrar desempenho e compatibilidade.

O resultado demonstra que a execução local de jogos de PC em smartphones modernos já deixou de ser apenas uma demonstração tecnológica. Para determinados títulos, ela pode ser uma experiência perfeitamente jogável.

O problema está nos jogos mais pesados

A história muda quando entramos em títulos mais exigentes. Rise of the Tomb Raider conseguiu iniciar e apresentar uma taxa de quadros na faixa dos 30 a 50 FPS em diferentes momentos, mas houve travamentos, glitches gráficos e variações de desempenho. Reduzir as configurações gráficas também não produziu uma melhora tão significativa quanto seria esperado.

Ainda assim, conseguir iniciar um jogo desse porte em um smartphone e mantê-lo acima dos 30 FPS em determinados momentos já é um resultado impressionante.

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O teste com Batman foi menos feliz. O jogo apresentou erro durante a inicialização e não chegou a funcionar corretamente. Max Payne também teve problemas: a janela do jogo chegou a abrir e os sons eram reproduzidos, mas a imagem não apareceu de maneira adequada. Isso deixa claro que a compatibilidade ainda é um dos maiores obstáculos da plataforma.

Ter um Snapdragon poderoso não significa que todos os jogos de PC vão funcionar. Existem inúmeras variáveis envolvidas, desde a versão do Windows para a qual o jogo foi desenvolvido até a API gráfica utilizada, drivers e mecanismos de proteção contra cópia ou anti-cheat.

A verdadeira mágica está no software

É aqui que o GameHub fica muito mais interessante do que parece. Um computador tradicional utiliza predominantemente processadores x86, enquanto smartphones Android são dominados pela arquitetura ARM. As duas famílias possuem conjuntos de instruções diferentes. Um jogo compilado para x86 não pode simplesmente ser executado diretamente em um processador ARM como se as arquiteturas fossem equivalentes. É necessário um tradutor.

Projetos como Box64 e FEX desempenham justamente esse papel, convertendo instruções x86 para instruções que podem ser executadas em ARM. Em paralelo, outras camadas resolvem problemas relacionados ao sistema operacional e às APIs gráficas.

O Proton, por exemplo, permite que jogos desenvolvidos para Windows sejam executados no Linux. O DXVK traduz chamadas do Direct3D para Vulkan, aproveitando uma API gráfica disponível em diferentes plataformas.

No GameHub, essas tecnologias podem ser combinadas para criar uma cadeia de compatibilidade bastante complexa. O jogo originalmente espera encontrar o Windows e um processador x86. O Proton fornece uma camada para que ele funcione em um ambiente Linux, enquanto o DXVK cuida da tradução gráfica. Depois, o FEX ou o Box64 pode lidar com a diferença entre x86 e ARM.

E há uma curiosidade particularmente interessante nessa história: a Valve está envolvida no desenvolvimento do FEX.

O interesse da Valve em ARM

A Valve tem financiado o FEX como parte de seu trabalho com dispositivos baseados em ARM, incluindo o projeto Steam Frame. A tecnologia permite executar software originalmente compilado para x86 em processadores ARM, justamente o tipo de problema que aparece quando tentamos levar jogos tradicionais de PC para dispositivos com outra arquitetura.

Isso não significa que a Valve esteja desenvolvendo o GameHub ou que exista uma parceria direta entre as duas empresas. O ponto importante é outro: tecnologias financiadas e desenvolvidas para resolver problemas do ecossistema Linux e Steam acabam sendo úteis em projetos independentes que tentam levar jogos para outras plataformas. É um efeito colateral poderoso do desenvolvimento aberto.

O GameHub consegue aproveitar uma parte desse trabalho porque várias das peças necessárias para construir essa ponte estão disponíveis publicamente. O mesmo acontece com outras soluções, como o Winlator e o BannerHub, que seguem caminhos próprios para executar aplicações e jogos de Windows em dispositivos Android.

Por que tudo isso não deixa o celular lento?

A primeira reação ao ver tantas camadas de tradução funcionando simultaneamente é imaginar que o desempenho deveria ser péssimo. Seria uma expectativa razoável. O jogo precisa lidar com uma arquitetura diferente, uma API gráfica diferente e um sistema operacional diferente do ambiente para o qual foi desenvolvido. Acontece que tradução de software evoluiu bastante.

O Proton já mostrou que é possível executar jogos de Windows no Linux com uma perda de desempenho marginal, quando, por vezes, não há ganhos, em uma enorme quantidade de títulos. A Apple também demonstrou, com o Rosetta 2, que a tradução entre x86 e ARM pode ser suficientemente eficiente para permitir que aplicativos tradicionais funcionem nos seus chips Apple Silicon.

O FEX segue uma lógica semelhante. Em vez de simplesmente interpretar cada instrução individualmente, tecnologias modernas de tradução podem otimizar e reutilizar partes do código convertido, reduzindo o custo desse processo.

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GameHub também é mais do que jogos de PC

Apesar de essa ser a função mais impressionante, o GameHub não se limita a executar jogos de Windows. O aplicativo também reúne jogos nativos de Android, permite trabalhar com instaladores e oferece recursos de streaming. A interface tenta funcionar como uma biblioteca central para diferentes formas de jogar, em vez de ser apenas um emulador ou uma camada de compatibilidade.

Também é possível instalar jogos diretamente pelo próprio aplicativo quando eles estão disponíveis na biblioteca suportada. O processo se aproxima bastante da experiência de uma loja tradicional, com download, instalação e gerenciamento centralizados.

Isso ajuda a explicar por que o projeto é chamado de GameHub. A proposta é concentrar diferentes fontes e métodos de execução em uma única interface.

Dá para aposentar o PC gamer?

Ainda não. O GameHub mostra um potencial enorme, mas os próprios testes deixam isso evidente. Cuphead funciona de maneira excelente. Rise of the Tomb Raider é jogável em determinadas condições, mas exige concessões. Outros títulos simplesmente não iniciam.

Um PC gamer também oferece uma margem de compatibilidade muito maior, além de mais potência, armazenamento expansível e possibilidade de atualizar componentes. Um smartphone continua limitado pelo seu sistema térmico, bateria, GPU integrada e pelo suporte específico de cada jogo.

Isso não diminui o que o GameHub consegue fazer. Para quem já possui um smartphone potente, a possibilidade de rodar jogos da própria biblioteca Steam sem comprar outro computador pode ser muito interessante. Em determinados cenários, um aparelho que já está no bolso pode assumir uma função que antes exigiria um equipamento adicional.

Talvez o futuro dos jogos não seja escolher entre PC, console ou celular, mas simplesmente executar o mesmo software no dispositivo que estiver disponível naquele momento.

E, quando isso acontece usando ferramentas abertas desenvolvidas por comunidades e empresas que trabalham em diferentes partes do ecossistema, o que parecia uma gambiarra começa a parecer uma prévia bastante interessante do que vem pela frente.

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