O Affinity deu início a uma virada no mundo do design?

O Affinity deu início a uma virada no mundo do design?

O mercado de design gráfico movimenta bilhões todos os anos e, por décadas, a Adobe reinou quase absoluta nesse cenário. Ferramentas como Photoshop, Illustrator e InDesign viraram padrão de mercado, estabelecendo formatos, fluxos de trabalho e até exigências em vagas de emprego. Mesmo com o surgimento de novas soluções especializadas, como o Figma dominando a área de prototipagem e design de interfaces, a gigante sempre manteve o controle do ecossistema criativo profissional. Nos últimos tempos, porém, essa hegemonia começou a ser discreta, mas consistentemente cutucada. E o principal nome dessa movimentação atende por Affinity.

A suíte da Serif surgiu oferecendo algo que parecia simples, mas extremamente sedutor: ferramentas profissionais sem assinatura mensal, vendidas no modelo de licença vitalícia. O pacote formado por Affinity Photo, Designer e Publisher passou a atender exatamente o mesmo público que usa Photoshop, Illustrator e InDesign, com desempenho sólido, interface moderna e recursos comparáveis para a maioria dos fluxos criativos do dia a dia. A proposta encontrou reação positiva, especialmente entre freelancers e pequenos estúdios cansados da dependência da Creative Cloud.

A compra pelo Canva e o novo rumo

Quando a Canva adquiriu a Serif, muita gente achou que o Affinity iria perder identidade ou ser dissolvido dentro da plataforma de design online. O que aconteceu foi justamente o oposto. A estratégia parece ter sido integrar mundos diferentes: o Canva segue forte no ambiente web, com sua proposta acessível baseada em templates e colaboração rápida, enquanto o Affinity evolui como uma suíte de desktop robusta voltada para usuários profissionais.

O nascimento do Affinity Studio consolida essa visão. Agora, as ferramentas desktop se conectam com serviços em nuvem e passam a assumir um papel semelhante ao do Creative Cloud da Adobe, mas com um diferencial importante: a chegada de uma camada gratuita. O usuário pode instalar e usar os aplicativos sem pagar nada no início, entrando em planos pagos apenas quando precisa de funcionalidades extras, especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial.

Esse modelo reduz drasticamente a barreira de entrada. Para muitos profissionais e empresas que ainda recorriam a versões piratas da Adobe por falta de opções viáveis, o Affinity surge como uma alternativa legal, moderna e financeiramente muito mais atraente.

Essa movimentação não “destrona” a Adobe da noite para o dia, mas cria um incômodo real. Pela primeira vez em muito tempo, existe um concorrente com porte suficiente para disputar o público profissional oferecendo ferramentas equivalentes sem o peso de assinaturas caras. Em ambientes corporativos, isso tem um valor enorme, já que permite reduzir custos e regularizar a situação de software sem renunciar a produtividade.

Para freelancers, o impacto é ainda mais direto. Ter acesso gratuito inicial a uma suíte com padrão profissional torna a entrada no mercado menos onerosa, tendendo a acelerar a migração de muitos usuários da Creative Cloud para o ecossistema Affinity, especialmente aqueles que não dependem de colaboração com equipes inteiras presas aos formatos da Adobe.

E o Linux nessa história?

É exatamente aqui que a empolgação esbarra numa frustração recorrente. Apesar da expansão do Affinity Studio, não existe versão oficial para Linux e não há planos oficiais de lançar suporte nativo ao sistema do pinguim, embora um dos líderes da empresa tenha cogitado publicamente essa possibilidade.

Usuários fazem experimentos rodando o Affinity via Wine, Bottles ou Proton. Em alguns casos, a aplicação funciona razoavelmente, em outros surgem problemas sérios: diálogos de salvar quebrados, instabilidade gráfica, recursos de IA indisponíveis, dificuldades com aceleração por GPU e falhas que impedem um uso profissional confiável.

Na prática, para a comunidade Linux, o impacto direto do crescimento do Affinity continua limitado. O espaço permanece ocupado pelas ferramentas open source como GIMP, Inkscape, Krita, Scribus, Darktable e outras, que evoluem constantemente, permitindo fluxos profissionais sólidos, mas nem sempre com a mesma integração e polimento encontrados em soluções proprietárias modernas.

A Affinity ameaça o open source?

Apesar de algum alarme inicial, a resposta mais sensata é não. O sucesso do Affinity não representa uma ameaça direta aos projetos open source. Eles atuam em contextos diferentes: enquanto a suíte da Serif disputa o mesmo público da Adobe em Windows e macOS, no Linux as ferramentas abertas continuam sendo a principal alternativa real. Os projetos comunitários seguem essenciais, tanto por garantirem suporte nativo à plataforma quanto por sustentarem a filosofia de liberdade de software que molda todo o ecossistema.

Além disso, para muitos usuários do Linux, a ausência de uma suíte proprietária não é um obstáculo. É comum encontrar fluxos híbridos, com a edição principal feita em ferramentas open source, com eventuais passos mais específicos realizados em outra máquina ou plataforma quando exigido pelo cliente ou pela equipe.

A pergunta que fica é: o Affinity deu a alfinetada perfeita na Adobe?

Para quem está no Windows e macOS, sem dúvida. Nunca houve um concorrente tão bem posicionado financeiramente, tecnicamente e estrategicamente para brigar por uma fatia relevante desse mercado. Para quem está no Linux, o efeito é mais distante: observa-se a movimentação, torce-se por um suporte oficial futuro e continua-se construindo soluções criativas com as ferramentas abertas que seguem firmes no ecossistema.

Este conteúdo é um corte do Diocast. Assista ao episódio completo, onde conversamos sobre as novidades do Affinity agora sob o Canva, as expectativas de uma versão nativa para Linux e os desafios para os designer que buscam alternativas aos ecossistemas fechados como o da Adobe.