Soplos é uma distro Linux que você ainda não conhece, mas deveria!

Soplos é uma distro Linux que você ainda não conhece, mas deveria!

Se você nos acompanha há algum tempo, provavelmente já nos viu falar de praticamente todo tipo de distribuição Linux. Tem distro para jogar, para ressuscitar computador antigo, para quem quer estabilidade acima de tudo e até aquelas feitas para quem gosta de passar mais tempo configurando o sistema do que usando o computador. O Soplos, porém, é uma novidade por aqui.

Desenvolvido na Espanha, o projeto tenta construir uma distribuição voltada para usuários domésticos que querem ter uma experiência relativamente simples, mas sem abrir mão de ferramentas para tarefas mais específicas. A proposta inclui gamers, designers, criadores de conteúdo, programadores e também quem só quer navegar na internet, trabalhar com documentos e usar o computador normalmente.

A promessa estampada no próprio projeto resume a ideia: fazer com que “o primeiro passo para escapar do Windows seja fácil”. Para chegar lá, o Soplos combina a base do Debian Testing com uma série de ferramentas próprias para a instalação de programas, gerenciamento do sistema, kernels, processos, repositórios e até softwares que tradicionalmente dão trabalho para instalar no Linux.

E é justamente essa quantidade de recursos que torna a distro interessante. Instalamos o Soplos para descobrir se existe algo realmente especial aqui ou se estamos diante de mais uma distribuição tentando fazer coisas demais ao mesmo tempo.

Três versões para públicos diferentes

O Soplos está disponível em três sabores diferentes, cada um associado a um ambiente gráfico e a um nome próprio. A edição com XFCE se chama Tyron, a versão KDE Plasma é Tyson, enquanto a edição GNOME recebeu o nome Boro.

A ideia é relativamente fácil de entender. O XFCE atende melhor quem pretende utilizar o sistema em computadores mais modestos, enquanto o KDE Plasma oferece uma experiência mais familiar para quem está vindo do Windows. Já o GNOME representa uma mudança maior na forma tradicional de interagir com o desktop.

Para este teste, escolhemos o Tyson, baseado no KDE Plasma. É provavelmente a edição que faz mais sentido para quem está chegando ao Linux depois de anos utilizando Windows, especialmente porque o Plasma consegue reproduzir uma estrutura de desktop bastante familiar sem deixar de oferecer todas as possibilidades de personalização que já conhecemos.

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Como o Soplos usa o Debian Testing como base, os pacotes são consideravelmente mais recentes do que aqueles encontrados no Debian Stable, embora o projeto ainda se beneficie de parte do processo de testes e correções que caracteriza o ecossistema Debian.

Tecnicamente, portanto, não é uma Rolling Release no sentido tradicional de distribuições como Arch Linux, mas a experiência pode se aproximar disso para o usuário, já que o sistema recebe versões relativamente novas dos componentes ao longo do desenvolvimento contínuo do Debian Testing.

A instalação já entrega a personalidade do Soplos

A instalação utiliza o Btrfs como sistema de arquivos padrão e é realizada pelo Calamares, o instalador gráfico utilizado por diversas distribuições Linux. Quem já instalou alguma distro que utiliza esse instalador provavelmente não terá grandes dificuldades para entender o processo.

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Visualmente, entretanto, o Soplos não tenta esconder sua personalidade. A identidade visual laranja aparece desde os primeiros momentos e dá ao sistema uma aparência bastante característica. É uma daquelas escolhas que provavelmente vão dividir opiniões, mas pelo menos existe uma identidade própria em vez de simplesmente reproduzir o visual padrão do ambiente escolhido.

Depois da instalação, o primeiro contato acontece por meio de uma tela de boas-vindas que pode ser utilizada em português. E aqui encontramos uma das características mais interessantes e, ao mesmo tempo, mais curiosas do Soplos: essa tela oferece uma quantidade enorme de ações que podem ser executadas com poucos cliques.

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Uma caixa de ferramentas disfarçada de tela de boas-vindas

Você pode instalar programas em diferentes formatos, incluindo DEB, Flatpak, Snap e AppImage, gerenciar drivers, configurar componentes de hardware, instalar ferramentas de segurança, escolher kernels, configurar programas recomendados e até encontrar softwares que normalmente exigiriam uma pesquisa um pouco mais cuidadosa para funcionar no Linux.

Existe uma seção dedicada a navegadores, outra para personalização, opções relacionadas a backups, firewall, VPN e limpeza do sistema. Há até ferramentas antivírus disponíveis para instalação.

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Em vários aspectos, isso lembra bastante o LinuxToys, projeto que já apresentamos aqui no Diolinux. A diferença é que, no Soplos, essa filosofia de reunir várias tarefas em uma única interface está integrada diretamente à distribuição.

O resultado é poderoso, mas existe uma questão de experiência de uso. Uma tela de boas-vindas normalmente deveria ajudar o usuário a entender o sistema e realizar os primeiros passos essenciais. O Soplos transforma essa tela em uma central de administração bastante completa.

Para um usuário avançado, isso pode ser excelente. Para alguém que acabou de sair do Windows e está vendo Linux pela primeira vez, pode ser informação demais logo de cara. O Linux Mint, por exemplo, faz um trabalho diferente ao utilizar a tela inicial para conduzir o usuário por algumas configurações básicas antes de apresentar ferramentas mais avançadas. No Soplos, a sensação é mais próxima de abrir uma caixa de ferramentas.

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Até DaVinci Resolve e Affinity entram na lista

Um dos pontos que mais chamam atenção está na lista de programas que podem ser instalados com poucos cliques. Entre eles aparece o DaVinci Resolve, uma das ferramentas profissionais de edição de vídeo mais importantes disponíveis para Linux.

Instalar o Resolve manualmente pode ser um processo trabalhoso, principalmente porque o suporte oficial da Blackmagic é direcionado a determinadas distribuições e configurações. O Soplos utiliza o projeto MakeResolveDeb para transformar o instalador disponibilizado pela Blackmagic em um pacote adequado ao sistema.

Testamos o instalador e ele conseguiu fazer o processo corretamente, inclusive em um computador com hardware Intel. Isso não significa que o DaVinci Resolve vá funcionar normalmente nessa configuração, já que existem limitações relacionadas ao suporte de GPU no Linux, mas demonstra que a ferramenta de instalação cumpre seu papel.

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Outro caso ainda mais curioso é o Affinity. A suíte da Serif se tornou uma alternativa importante para designers que decidiram abandonar o ecossistema Adobe, mas não possui uma versão nativa oficial para Linux. No Soplos, porém, existe uma opção para instalar o Affinity utilizando uma versão do aplicativo para Windows executada por meio do Wine e distribuída como AppImage.

O resultado pode ser surpreendentemente bom. E existe uma diferença importante entre dizer que o Soplos “traz o Affinity para o Linux” e reconhecer o que realmente está acontecendo: essa solução pode ser utilizada em outras distribuições também. O mérito do Soplos está em colocar a opção diante do usuário e facilitar a descoberta.

Para alguém que está tentando sair do Windows sem abandonar imediatamente ferramentas profissionais específicas, esse tipo de atalho pode ajudar bastante.

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As ferramentas próprias são o grande diferencial

O projeto fica ainda mais interessante quando começamos a procurar por Soplos no menu de aplicativos. Existem vários programas desenvolvidos especificamente para a distribuição, embora alguns deles precisem ser ativados pela própria central de boas-vindas. Instalamos praticamente todos os que estavam disponíveis para entender até onde vai essa ideia.

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O Sys Cleaner, por exemplo, reúne tarefas de manutenção do sistema em uma interface gráfica. Ele permite remover pacotes DEB, Flatpaks e Snaps, limpar caches e esvaziar a lixeira.

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Também existe uma ferramenta para coleta de informações da GPU, que parece ter sido pensada principalmente para facilitar o diagnóstico e a coleta de logs quando um usuário precisa pedir ajuda à comunidade.

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Outro aplicativo funciona como um gerenciador de AppImages, permitindo organizar e administrar esses programas sem depender exclusivamente do terminal. A proposta lembra ferramentas como Gear Lever e AppManager, mas com uma solução desenvolvida pelo próprio projeto.

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Há ainda um gerenciador de Web Apps, que permite transformar sites em aplicativos integrados ao desktop, algo que já existe em outras distribuições, mas que novamente aparece como uma opção pronta dentro do ecossistema do Soplos.

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O impressionante gerenciador de Kernel

Entre todas essas ferramentas, talvez a que mais tenha chamado nossa atenção seja o gerenciador de Kernel. Ele permite trocar a versão do kernel e escolher configurações preparadas para diferentes perfis de uso. Existem opções voltadas para jogos, escritório, áudio e vídeo, além da possibilidade de selecionar otimizações específicas para a arquitetura do processador. Também é possível aplicar patches individualmente e até trabalhar com configurações relacionadas ao Secure Boot.

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Para quem realmente sabe o que está fazendo, existe ainda a possibilidade de baixar e compilar um kernel com as modificações escolhidas. Quem não quiser entrar nesse nível de personalização pode simplesmente selecionar uma das versões pré-compiladas disponibilizadas pelo próprio projeto.

E a lista não se limita aos kernels do Soplos. Também aparecem alternativas mantidas pela comunidade, como o Linux Zen e o Linux Ghost, este último com otimizações direcionadas especialmente a processadores mais recentes da AMD.

É uma quantidade de controle bastante incomum de encontrar em uma distro voltada justamente para facilitar a vida do usuário comum. E aqui aparece novamente aquela característica que define o Soplos: ele tenta colocar ferramentas avançadas atrás de interfaces gráficas relativamente acessíveis.

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Gestão de processos e repositórios

O projeto também possui uma ferramenta gráfica para gerenciamento de processos. É uma função útil para usuários que querem identificar e encerrar programas sem abrir um terminal.

Outro aplicativo permite gerenciar os repositórios utilizados pelo sistema. É possível trocar os servidores, testar a velocidade dos mirrors e escolher uma fonte que ofereça melhor desempenho para sua conexão.

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Os repositórios de software proprietário também já vêm habilitados, o que ajuda a explicar por que o Soplos consegue oferecer tantos programas diferentes diretamente em suas ferramentas.

São aplicativos que fazem sentido quando observados como um conjunto. O projeto está tentando criar uma camada própria de administração sobre o Debian, permitindo que o usuário faça coisas que normalmente exigiriam conhecimento de terminal ou pesquisa na internet.

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Nem tudo está pronto

Existe, entretanto, uma diferença importante entre uma boa coleção de ferramentas e uma experiência de usuário realmente refinada.

Visualmente, alguns desses aplicativos ainda parecem bastante diferentes entre si. Os ícones, principalmente quando colocados lado a lado, não formam um conjunto tão coeso quanto o restante da interface.

Isso parece um detalhe pequeno, e realmente é quando pensamos no funcionamento do sistema. Mas é justamente esse tipo de detalhe que pode fazer diferença quando um projeto pretende ser uma porta de entrada para usuários que ainda não conhecem Linux.

Um ícone precisa continuar reconhecível em diferentes tamanhos, fundos e contextos. Quanto mais simples e consistente for sua construção, mais fácil é manter sua identidade em diferentes situações.

Não é algo que faça o Soplos funcionar pior, mas mostra que ainda existe espaço para amadurecer a experiência visual de um projeto relativamente novo.

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Afinal, vale a pena instalar o Soplos?

E aqui chegamos à hora de colocar um pouco de freio no entusiasmo. O Soplos é interessante, mas ainda não recomendamos a distribuição como primeira opção para a maioria das pessoas.

O primeiro motivo é bastante simples: o projeto é muito novo. Estamos falando de uma distribuição com poucos anos de existência. Ela pode construir algo muito maior no futuro, mas ainda não existe tempo suficiente de estrada para saber como o projeto vai se comportar depois de vários ciclos de desenvolvimento.

O segundo ponto está diretamente relacionado ao terceiro: o Soplos tenta fazer muita coisa ao mesmo tempo.

Existe uma equipe pequena mantendo a distribuição, três ambientes gráficos diferentes, ferramentas próprias de gerenciamento, instaladores, kernels modificados, documentação, comunidade e toda a infraestrutura necessária para manter o projeto funcionando.

Isso é impressionante, mas também representa um risco. No mundo do software livre, não faltam projetos que começaram com uma quantidade enorme de ideias, cresceram rapidamente e depois tiveram dificuldades quando os poucos desenvolvedores responsáveis perderam tempo, dinheiro ou motivação para continuar mantendo tudo.

Por isso, preferimos observar o Soplos com interesse, mas também com alguma cautela.

O quarto ponto é que já existem alternativas consolidadas com propostas semelhantes. O próprio Linux Mint é um exemplo bastante óbvio para quem busca facilidade, enquanto outras distribuições oferecem ferramentas específicas para jogos, criação de conteúdo ou gerenciamento simplificado.

Isso não diminui o mérito do Soplos. Pelo contrário: algumas das ideias implementadas aqui são boas o suficiente para merecer atenção, e várias delas poderiam inspirar outros projetos.

Uma distro para ficar no radar

No fim das contas, o Soplos talvez seja mais interessante pelo que pode se tornar do que pelo que é hoje.

A distribuição mostra uma preocupação clara com um problema que continua relevante: como fazer alguém que está acostumado ao Windows conseguir realizar suas tarefas no Linux sem precisar aprender uma dúzia de comandos no terminal antes de começar a usar o computador.

DaVinci Resolve, Affinity, drivers, kernels, AppImages, Flatpaks, repositórios, processos e ferramentas de manutenção aparecem em uma interface única. Para quem já conhece Linux, isso pode parecer uma coleção de atalhos. Para um usuário novo, pode representar a diferença entre desistir diante de uma tarefa complicada e simplesmente clicar em um botão.

Não colocaríamos o Soplos no lugar de uma distribuição consolidada ainda. Mas vale instalar em uma máquina secundária, experimentar em uma máquina virtual e, principalmente, acompanhar o projeto.

Porque, se a equipe conseguir transformar essa enorme coleção de ideias em um sistema cada vez mais coeso, estável e fácil de usar, podemos estar vendo o começo de uma distribuição bastante interessante.

E se você quiser conhecer outra distro que também está tentando simplificar bastante a vida de quem usa Linux, vale conferir o Bazzite. O projeto já alcançou uma escala muito maior e tem algumas soluções próprias bastante interessantes para quem quer usar Linux no desktop e, principalmente, para jogos.