Durante anos, a ideia de uma Steam Machine parecia um experimento que havia ficado preso no passado. A primeira tentativa da Valve de criar um computador para a sala de estar acabou não conquistando o mercado, e o projeto foi lentamente deixado de lado. Agora, porém, com o sucesso do Steam Deck, a empresa decidiu tentar novamente.
As novas Steam Machines finalmente entraram em pré-venda, ou melhor, abriram uma fila para entrar na fila de compra, e as primeiras unidades já começaram a chegar às mãos de criadores de conteúdo e veículos especializados. O problema é que o entusiasmo inicial rapidamente deu lugar ao choque: o modelo mais básico custa US$ 1.049, com apenas 512 GB de armazenamento, enquanto a versão de 2 TB sobe para US$ 1.349. O novo Steam Controller também é vendido separadamente por US$ 69.
Naturalmente, a internet reagiu como era esperado. Boa parte das discussões gira em torno do preço elevado e das inevitáveis comparações com o PlayStation 5, Xbox Series X e até mesmo PCs gamers montados peça por peça. Para nós, brasileiros, a situação fica ainda mais distante da realidade. Considerando que o Steam Deck sequer foi lançado oficialmente no Brasil, é improvável que as Steam Machines tenham distribuição oficial por aqui. Se chegassem, dificilmente custariam menos do que um carro popular usado.
Só que, em meio às críticas, quase ninguém parece ter percebido a verdadeira jogada da Valve.
O preço é alto, mas existe um motivo
O primeiro impulso é culpar a Valve pelo valor elevado do hardware. Porém, o cenário atual da indústria ajuda a explicar parte da situação.
A crescente demanda por memória e armazenamento para data centers voltados à inteligência artificial pressionou toda a cadeia de produção de componentes eletrônicos. SSDs, memórias e diversos outros itens ficaram mais caros, impactando praticamente qualquer equipamento eletrônico lançado recentemente.
A própria Valve admitiu que pretendia lançar as Steam Machines por algo próximo de US$ 800, mas precisou rever os planos devido ao aumento dos custos de fabricação. Existe outro detalhe importante: diferente de Sony e Microsoft, a Valve não subsidia o hardware esperando recuperar o investimento na venda de jogos.
Nos consoles tradicionais, é comum que o fabricante venda o aparelho com margens muito pequenas, ou até prejuízo, apostando que o consumidor comprará jogos e assinaturas ao longo dos anos. A Valve não pode fazer isso.
A Steam Machine precisa praticamente se pagar sozinha, justamente porque ela não obriga ninguém a comprar jogos exclusivamente pela Steam, o multiplayer é gratuito e grande parte dos jogadores no PC já tem uma biblioteca montada.
Ela não está competindo com PlayStation
É muito fácil olhar para uma Steam Machine de mais de mil dólares e concluir que um PlayStation 5 Pro oferece um custo-benefício muito melhor.
Em vários aspectos, essa comparação faz sentido. O console da Sony entrega desempenho superior em jogos otimizados para ele, possui um catálogo consolidado e chega ao consumidor por um preço significativamente menor.
Mas talvez esse nem seja o concorrente que a Valve esteja tentando enfrentar. Enquanto Sony e Microsoft disputam qual console vende mais unidades, a Valve parece estar tentando mudar completamente a forma como as pessoas enxergam um videogame.
Reviews iniciais são bastante positivos
Os primeiros testes publicados por reviewers mostram um cenário curioso. Quase todas as análises elogiam:
- A qualidade da construção;
- O baixo consumo energético;
- O funcionamento do SteamOS;
- A integração com HDMI-CEC para controlar televisores;
- E a facilidade de uso.
As reclamações se concentram praticamente em dois pontos. O primeiro é óbvio: o preço.
O segundo envolve a promessa de jogos em 4K utilizando FSR. Desde o anúncio já era sabido que o hardware utilizaria uma APU AMD personalizada, semelhante ao conceito do Steam Deck, recorrendo ao FSR para fazer upscale da imagem.
Neste setup, alguns jogos conseguem entregar uma boa experiência, enquanto outros dependem de níveis muito agressivos de reconstrução de imagem. Tanto que a Valve alterou discretamente o texto de divulgação do produto.
Onde antes aparecia “4K com FSR”, agora aparece “até 4K com FSR”, uma mudança pequena, mas que deixa as expectativas um pouco mais realistas.

O verdadeiro produto talvez nem seja o hardware
Aqui está a parte mais interessante: mesmo que as Steam Machines vendam pouco, elas podem cumprir perfeitamente o objetivo da Valve.
O hardware funciona como um modelo de referência. Da mesma forma que aconteceu com o Steam Deck, outras fabricantes poderão criar equipamentos compatíveis utilizando o SteamOS.
Isso abre espaço para que existam Steam Machines de diferentes fabricantes, com diferentes especificações e diferentes faixas de preço. A Valve já mostrou que não pretende manter o SteamOS restrito ao seu próprio hardware, pelo contrário.
Em entrevista recente ao The Verge, Pierre-Loup Griffais, um dos principais desenvolvedores do SteamOS, explicou que a versão 3.8 ampliou significativamente o suporte a diferentes plataformas de hardware. Hoje o sistema já funciona muito bem em computadores com GPUs AMD e Intel.
O próximo grande passo é o suporte completo às placas da NVIDIA. Segundo a pesquisa de hardware da própria Steam, a maior parte dos computadores dos usuários utiliza placas NVIDIA. Sem esse suporte, o SteamOS jamais conseguiria atingir a maioria dos jogadores de PC. E a Valve sabe disso.
Você talvez nunca compre uma Steam Machine
Essa talvez seja a maior sacada de toda essa história. A própria Valve afirma que instalar o SteamOS em um computador já existente é um dos caminhos para obter praticamente a mesma experiência da Steam Machine.
Ou seja, talvez você nunca compre o hardware oficial, você simplesmente instalará o SteamOS no computador que já possui. Nesse cenário, o produto deixa de ser a Steam Machine, mas o próprio SteamOS.
Um console que continua sendo um PC
Essa é uma diferença enorme em relação aos consoles tradicionais. Uma Steam Machine continua sendo um computador.
Você pode:
- Trocar o SSD;
- Aumentar a memória RAM;
- Instalar outro sistema operacional;
- Utilizar outras lojas de jogos;
- Navegar na internet;
- Trabalhar normalmente.
Caso o hardware fique fraco para os jogos mais modernos daqui a alguns anos, ele ainda continuará sendo um computador funcional; não virá a ser um equipamento descartável.
Além disso, a Valve fez uma parceria com o iFixit para fornecer peças de reposição, documentação técnica e facilitar reparos. É uma filosofia completamente diferente daquela adotada pela maior parte da indústria de consoles.
Outro ponto importante é que o SteamOS não obriga ninguém a utilizar apenas a Steam. Você pode instalar jogos da GOG, Epic Games, Heroic Games Launcher, emuladores e diversas outras aplicações.
Essa abertura explica, inclusive, por que a Valve não pode depender da venda de jogos para subsidiar o hardware. Quem compra uma Steam Machine provavelmente já possui centenas de jogos acumulados na biblioteca da Steam.
Mas nada impede que ele passe meses jogando apenas títulos da Epic Games ou da GOG. O sistema não cria barreiras artificiais.
Nem mesmo o Windows parece ignorar isso
A Valve também revelou que trabalha em um novo instalador para o SteamOS. Hoje, instalar o sistema normalmente exige apagar completamente o disco. No futuro, a ideia é oferecer um instalador muito mais amigável, incluindo suporte automático a dual boot.
Imagine um cenário onde qualquer usuário possa instalar o SteamOS ao lado do Windows com poucos cliques. Na hora de jogar, basta iniciar pelo SteamOS. Para trabalhar, utilizar programas específicos ou software profissional, basta iniciar o Windows. É difícil não enxergar como isso poderia pressionar a Microsoft.
Nos últimos meses, a empresa também passou a demonstrar maior interesse em criar uma experiência de Windows mais voltada para jogos, inclusive aproximando a interface do sistema daquela encontrada no Xbox. Concorrência costuma beneficiar ao consumidor.
O Linux pode ganhar muito com isso
Talvez o maior impacto das Steam Machines nem esteja no mercado de consoles. Se o SteamOS realmente se consolidar como uma plataforma simples para jogadores, milhões de pessoas poderão utilizar Linux sem sequer perceber que estão utilizando Linux. Isso também fortalece tecnologias como Proton, Mesa e diversos outros projetos de código aberto.
Além disso, distribuições como Bazzite, Nobara e outras soluções focadas em jogos tendem a evoluir ainda mais, aproveitando todo o trabalho realizado pela Valve.
Existe ainda uma questão pouco comentada: preservação de jogos. Graças ao Proton, muitos títulos antigos podem continuar funcionando durante muitos anos, independentemente das mudanças realizadas pela Microsoft no Windows. Esse talvez seja um dos maiores legados do SteamOS a longo prazo.
Uma estratégia que vai além das vendas
Talvez as Steam Machines nunca alcancem o sucesso comercial do Steam Deck, mas, se conseguirem convencer milhões de pessoas a instalar o SteamOS no computador que já possuem, a Valve terá alcançado exatamente aquilo que pretendia desde o início. Nesse cenário, vender consoles deixa de ser o objetivo principal.
O verdadeiro plano sempre foi transformar o SteamOS na plataforma padrão para jogar no PC e, olhando por esse ângulo, as Steam Machines são apenas a primeira peça de um jogo muito maior.
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