
Corrida da IA movimenta expectativas em torno das ferramentas e nos milhões de dólares que podem gerar. Dado Ruvic/Reuters/Ilustração Se não fosse a intensa rivalidade entre a Anthropic e a OpenAI, o boom da inteligência artificial generativa talvez não tivesse chegado tão rapidamente. A disputa atual é para ver quem chegará primeiro à bolsa de valores. Ambas veem uma estreia antecipada como uma forma de influenciar a maneira como investidores avaliarão o setor e consolidar seus CEOs como as principais vozes da inteligência artificial. Até maio, muitos assessores acreditavam que a OpenAI sairia na frente. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a empresa informou a alguns investidores que pretendia lançar sua oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) já em setembro. Mas a Anthropic se antecipou. Em 1º de junho, anunciou que havia protocolado de forma confidencial os documentos necessários junto aos reguladores americanos. A OpenAI fez o mesmo uma semana depois. Agora no g1 A disputa vai além do embate entre os CEOs da OpenAI, Sam Altman e o da Anthropic, Dario Amodei, ex-pesquisador da OpenAI e um dos responsáveis pela tecnologia que tornou o ChatGPT possível. A competição também chegou a Wall Street. É raro que dois rivais diretos de tamanho porte busquem captar recursos ao mesmo tempo. Como as ofertas serão gigantescas, as empresas estão recorrendo a alguns dos mesmos bancos de investimento. A OpenAI pretende abrir capital com uma avaliação próxima de US$ 1 trilhão, segundo informações divulgadas anteriormente pela Reuters. Banqueiros e consultores envolvidos nos processos precisam lidar com relações cada vez mais delicadas com as duas empresas. Segundo fontes, executivos de ambas pressionam seus assessores em busca de informações sobre os planos da concorrente. Para evitar vazamentos, alguns bancos criaram barreiras internas entre as equipes que trabalham em cada operação. Sam Altman e Dario Amodei em evento: 'Chefões' de gigantes de IA se recusam a dar as mãos em foto em grupo e evidenciam rivalidade. Reprodução/Reuters 'Guerra total' Conflitos entre grandes executivos não são novidade. Elon Musk e Jeff Bezos trocam críticas públicas há anos por causa da corrida espacial. Bill Gates e Steve Jobs também protagonizaram disputas sobre supostas cópias entre produtos da Microsoft e da Apple. Mas a tensão entre Altman e Amodei se tornou um dos motores da maior revolução tecnológica da atualidade. Ela influencia a velocidade com que novas ferramentas de IA são lançadas, os recursos que recebem e, em última instância, a forma como a tecnologia é usada no dia a dia. "É uma guerra total entre eles", afirmou Anastasios Angelopoulos, CEO da Arena, empresa especializada em avaliação de modelos de IA. "Toda vez que a Anthropic lança algo novo, a aposta é que a OpenAI responderá rapidamente — e vice-versa." As duas empresas se recusaram a comentar a rivalidade entre os executivos. Chefões da OpenIA e da Anthropic se recusam a dar as mãos em evento Disputa sobre receitas As divergências também envolvem a maneira como cada companhia apresenta seus números financeiros aos investidores. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a OpenAI tem dito a investidores e funcionários que a metodologia contábil utilizada pela Anthropic superestima a receita da empresa em bilhões de dólares. Em abril, a diretora de receitas da OpenAI, Denise Dresser, afirmou a funcionários que a empresa considera os resultados financeiros da rival inflados, de acordo com um memorando interno obtido pela Reuters. A diferença está na forma de contabilizar receitas. A Anthropic registra como faturamento o valor total pago pelos clientes por seus serviços de IA. Parte desse dinheiro, porém, é posteriormente repassada a parceiros como Amazon e Google. A OpenAI utiliza outro método e registra apenas a receita líquida, descontando os pagamentos feitos à Microsoft. A Anthropic afirmou à Reuters que segue práticas contábeis consolidadas e que registra a receita bruta porque é a responsável principal pela transação, enquanto os parceiros de computação em nuvem atuam apenas como canais de distribuição. As comunicações internas de Dresser tinham como objetivo tranquilizar funcionários da OpenAI, preocupados com o crescimento acelerado da rival. Para Gil Luria, analista da D.A. Davidson, a corrida para abrir capital primeiro também tem relação com essa disputa. "Uma razão para a Anthropic querer chegar antes ao mercado é definir o padrão de como empresas de IA de ponta apresentam seus resultados financeiros, de forma favorável ao seu próprio modelo de negócios", afirmou. Sam Altman e Dario Amodei: qual CEO sairá na frente na corrida de Wall Street? Jens Schicke/IMAGO/Julien De Rosa/AFP via DW Pressão interna O desejo de superar a concorrente também provocou tensões dentro da OpenAI. Recentemente, Altman entrou em conflito com a diretora financeira Sarah Friar sobre a capacidade da empresa de cumprir todas as exigências necessárias para uma abertura de capital em um prazo tão apertado, segundo três fontes. De acordo com essas pessoas, Altman disse que ela deveria encontrar uma solução ou contratar outros banqueiros e advogados que fossem capazes de executar o plano. Posteriormente, Friar informou a assessores que a liderança da empresa está alinhada em relação ao cronograma. Em entrevista à CNBC após o anúncio da Anthropic, Altman afirmou que não pretende apressar a estreia da OpenAI na bolsa. Elon Musk e Sam Altman travam na Justiça batalha pela OpenAI Uma rivalidade antiga A disputa começou no fim de 2020, quando Amodei deixou o cargo de vice-presidente de pesquisa da OpenAI e fundou a Anthropic com outros ex-funcionários. A nova empresa prometia dar prioridade à segurança dos sistemas de IA. Dentro da OpenAI, muitos enxergaram a decisão como uma crítica à forma como Altman conduzia a companhia. No início de 2022, a Anthropic treinou a primeira versão do chatbot Claude, mas optou por não lançá-lo imediatamente para realizar pesquisas adicionais de segurança. A OpenAI também desenvolvia projetos semelhantes. Parte da equipe trabalhava em uma ferramenta chamada internamente de "superassistente", enquanto o cofundador John Schulman desenvolvia uma interface de conversação. Em determinado momento, a empresa chegou a considerar o lançamento do assistente em março de 2023, junto com o GPT-4. Mas os rumores sobre o projeto da Anthropic mudaram os planos. Segundo uma das fontes, Altman determinou que a OpenAI colocasse um chatbot no mercado o mais rápido possível. "De repente, tudo virou: precisamos lançar isso em duas semanas." O resultado foi o ChatGPT, lançado em 30 de novembro de 2022. O produto se tornou o aplicativo de consumo com crescimento mais rápido da história, atraindo milhões de usuários e alterando os planos de desenvolvimento das maiores empresas de tecnologia. A Anthropic lançou o Claude alguns meses depois e passou cerca de três anos tentando alcançar a rival. No fim de 2024, Amodei redirecionou pesquisadores para focar nos chamados modelos de raciocínio após observar o sucesso inicial da OpenAI nessa área. A dinâmica mudou novamente no fim de 2025, quando a Anthropic lançou uma atualização poderosa do Claude Code, ferramenta voltada para programação. A OpenAI, que ainda obtém grande parte de sua receita com assinaturas do ChatGPT, voltou a intensificar os investimentos em softwares corporativos e ampliou os recursos destinados ao Codex, seu produto para desenvolvimento de código. Relação cada vez pior As relações entre as empresas se deterioraram após a demissão inesperada de Altman pelo conselho da OpenAI, no fim de 2023. Na época, membros do conselho chegaram a discutir brevemente a possibilidade de unir os dois laboratórios sob a liderança de Amodei. Em um depoimento recente, um ex-executivo da OpenAI afirmou que a ideia foi considerada por um período "extremamente curto" antes de ser descartada. Ainda assim, a notícia enfureceu muitos funcionários da OpenAI. Altman retornou ao cargo poucos dias depois, mas o ressentimento permaneceu. A rivalidade passou a ocorrer também em público. Em fevereiro, Altman criticou anúncios da Anthropic exibidos durante o Super Bowl, classificando-os como "enganosos" por sugerirem que a OpenAI pretendia vender publicidade dentro do ChatGPT. No mês seguinte, Amodei acusou Altman de usar uma disputa da Anthropic com o Pentágono para beneficiar a OpenAI. Durante uma cúpula sobre inteligência artificial realizada na Índia, em fevereiro, o primeiro-ministro Narendra Modi incentivou os executivos presentes a darem as mãos como demonstração de união. Em uma cena que viralizou nas redes sociais, Altman e Amodei, que estavam lado a lado no palco, recusaram o gesto.