'Estamos protegendo a criação de Deus': as freiras ativistas que desafiam as companhias de Big Tech

'Estamos protegendo a criação de Deus': as freiras ativistas que desafiam as companhias de Big Tech
Agora no g1 A irmã Susan Francois talvez não corresponda à imagem que muita gente faz de uma freira católica. Ela não usa hábito, a veste tradicional composta por túnica e véu. E também é ativa na rede social TikTok. Seu perfil reúne vídeos gravados em frente a um centro de detenção de imigrantes em Nova Jersey, nos Estados Unidos, onde defende migrantes e suas famílias. Mas a irmã Francois também vem chamando atenção por outro tipo de ativismo. Ela e outras freiras da Congregação das Irmãs de São José da Paz, que reúne 88 religiosas nos EUA e no Reino Unido, praticam o chamado ativismo acionário. Como acionistas, usam sua participação em empresas para pressionar grandes corporações a adotar medidas relacionadas a temas como mudanças climáticas, direitos territoriais dos povos indígenas e justiça racial. "Como tesoureira da congregação, sou a responsável por representar nossos interesses [...] quando cobramos que essas empresas atuem em favor do bem comum", afirma Francois. Em um caso recente, elas tentaram convencer o conselho de administração da gigante de tecnologia Palantir (empresa de análise de dados que atua, por exemplo, como intermediária tecnológica entre o Vale do Silício e o governo dos EUA) a responder às suas preocupações. As freiras acreditavam que o software de inteligência artificial (IA) da empresa estava sendo usado pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) e por outros órgãos públicos para "rastrear e identificar imigrantes para detenção e deportação". Segundo elas, isso poderia representar uma violação dos direitos humanos. Mais especificamente, as religiosas queriam que a Palantir realizasse uma Avaliação de Impacto sobre Direitos Humanos (HRIA, na sigla em inglês) para analisar como seus produtos e serviços são utilizados e reduzir possíveis impactos negativos. Para isso, recorreram ao chamado shareholder resolution (proposta apresentada por acionistas para deliberação em assembleia), um mecanismo que permite aos acionistas submeter propostas à votação na assembleia geral anual da empresa. A proposta recebeu apenas 13% dos votos, mas a irmã Francois considera o resultado uma vitória, argumentando que os fundadores da companhia controlam 49,9% das ações com direito a voto. "Do [total] de votos de acionistas que não fazem parte do grupo controlador, 56% votaram a favor da proposta das irmãs", afirma. "O fato de tantos acionistas terem concordado conosco diz muito." A BBC procurou a Palantir para comentar o caso, mas a empresa não respondeu. Mas em um comunicado anterior aos acionistas, a companhia afirmou que a iniciativa das freiras se baseava em "equívocos e informações incorretas sobre o trabalho da Palantir". A empresa também disse que não é uma companhia de dados, não vende dados pessoais nem oferece serviços de mineração de dados. A votação ocorreu menos de duas semanas depois de o papa Leão 14 divulgar, em maio, sua primeira grande encíclica — Magnifica Humanitas ou "Magnífica Humanidade", na tradução do latim para o português —, na qual alertou que a IA precisa ser "desarmada" para não "dominar a humanidade". O pontífice defendeu que a IA deve ser colocada a serviço do "bem comum" e que a dignidade humana precisa ser preservada. A coincidência de datas foi casual, mas serviu de estímulo para a irmã Francois. "Já li essa encíclica muitas e muitas vezes. Ela reforça tudo o que está por trás do [nosso] trabalho", afirma. A Palantir não é a única empresa que recebeu — ou foi ameaçada de receber — propostas de acionistas apresentadas pelas freiras como forma de pressionar os conselhos de administração a enfrentar questões que elas consideram de natureza moral. As religiosas também confrontaram o Citigroup, uma das maiores instituições bancárias do mundo, por causa do financiamento a projetos de combustíveis fósseis na Amazônia. Preocupadas com os impactos sobre as comunidades indígenas da região, elas pediram que o banco publicasse um relatório sobre o tema. Em abril de 2024, o Citigroup atendeu ao pedido. Questionada sobre a eficácia desse tipo de iniciativa, já que muitas dessas propostas não conseguem apoio da maioria dos acionistas, a irmã Francois responde que isso depende da forma como se define o sucesso. "Nossa primeira proposta foi apresentada pela congregação em 1976 a uma empresa que talvez você conheça: a Colgate-Palmolive. O tema era o sexismo na publicidade e [a forma como as mulheres eram retratadas]." Os acionistas pediram que a empresa adotasse medidas para combater a discriminação de gênero. A Colgate-Palmolive se opôs à proposta, alegando que ela era desnecessária, e a medida acabou rejeitada. Ainda assim, quase meio século depois, a irmã Francois diz não se decepcionar com o resultado. "O sexismo desapareceu da publicidade? Não. A situação é diferente da que existia nos anos 1970? Sim." "Para as irmãs, e para a maioria dos investidores guiados por valores e princípios religiosos, o sucesso está em colocar essas questões em pauta e fazer com que elas cheguem ao conselho de administração para serem debatidas." Então, como acionistas, as freiras lucram com as mesmas empresas cujas práticas criticam? Sim, responde a irmã Francois, reconhecendo a ironia da situação. No entanto, ela explica que os rendimentos obtidos com esses investimentos são destinados aos cuidados de saúde das religiosas mais idosas e ressalta que a congregação possui apenas uma pequena participação nessas empresas. A irmã Francois também afirma que há companhias nas quais elas jamais investiriam, como fabricantes de armas e empresas cuja principal atividade seja a produção de combustíveis fósseis. Ainda assim, Francois defende que é preciso dialogar com as grandes corporações e estar presente nos espaços onde as decisões são tomadas."Se nos afastarmos dos centros de poder (...), deixaremos de ter voz sobre a forma como [as decisões são] tomadas", afirma Francois. A Congregação das Irmãs de São José da Paz foi fundada em 1884, durante o pontificado do papa Leão 13, cuja atuação inspirou o papa atual a adotar o nome Leão 14. A irmã Francois afirma que Leão 13 foi o autor do primeiro documento da Igreja Católica sobre a doutrina social voltada ao mundo do trabalho e diz que ambos os papas se dedicaram a temas sociais que afetam diretamente a vida das pessoas. Por isso, quando alguns questionam se um grupo de freiras deveria tentar influenciar práticas empresariais de uma forma que pode ser vista como política — especialmente em um período de crescente polarização —, a irmã Francois tem uma resposta direta: "Não estamos defendendo partidos políticos. Estamos defendendo o valor da criação de Deus e o direito de todas as pessoas aos direitos humanos. Se isso é política, tudo bem." O recado do papa Leão 14 sobre a inteligência artificial em seu primeiro 'cartão de visitas' ao completar um ano de pontificado Palantir: por que o crescimento do poder global da empresa de IA causa preocupação? A Inteligência Artificial vai ser adorada como um deus?