Presidente do Irã manda restabelecer internet internacional após bloqueio durante protestos


Kit da Starlink com antena, modem e cabos custa US$ 499 Divulgação/SpaceX Após quase três meses de restrições, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, ordenou a reabertura do acesso internacional à internet no país, segundo informou a mídia estatal iraniana nesta segunda-feira (25). A decisão foi confirmada pelo chefe de relações públicas do Ministério das Comunicações do Irã, segundo a imprensa estatal. Segundo o observatório de monitoramento digital NetBlocks, a maior parte da população iraniana estava sem acesso à internet havia 87 dias. Apenas alguns cidadãos conseguiam acessar a rede por meio de VPNs consideradas mais avançadas e de alto custo, usadas para contornar as restrições impostas pelo governo. Irã afirma que não há acordo iminente com EUA pelo fim da guerra As limitações no acesso à internet no Irã vêm sendo alvo de críticas de organizações internacionais e de defensores da liberdade digital, especialmente em momentos de tensão política e social no país. Até o momento, não há informações quando o serviço deve ser totalmente restabelecido nem se haverá limitações parciais de acesso. Histórico do Irã com a internet O bloqueio geral da internet no Irã começou em 8 de janeiro, em meio a protestos contra o regime iraniano que tomaram as ruas do país desde o fim de dezembro. Na época, o NetBlocks informou que o nível de conectividade havia caído para cerca de 1% do padrão normal no país, que tem cerca de 90 milhões de habitantes. Níveis de conectividade de internet no Irã entre 5 e 13 janeiro Reprodução/NetBlocks Bloqueios de internet e apagões digitais não são novidade no Irã. O regime teocrático costuma restringir o acesso à rede durante protestos antigoverno ou períodos de tensão militar e política. Em fevereiro, no início da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o governo iraniano voltou a restringir o acesso à rede. Na época, o NetBlocks contabilizou mais de uma semana ininterrupta de apagão digital, com a conectividade estagnada em torno de 1% dos níveis normais. Com a interrupção, tarefas simples como usar o Google Maps ou acessar sites internacionais se tornaram impossíveis. Apenas a intranet local, controlada pelo governo e com funcionalidades limitadas, permaneceu disponível. O bloqueio também afetou iranianos que vivem fora do país e tentavam contato com familiares. Relatos publicados pela agência Deutsche Welle mostraram que chamadas telefônicas para celulares e telefones fixos no Irã quase não conseguiam ser completadas durante o apagão. Apesar das restrições, alguns iranianos recorreram a ferramentas para burlar a censura, como VPNs, a plataforma Psiphon e conexões ilegais da Starlink, empresa de internet via satélite de Elon Musk. Esta foi a terceira vez que o Irã promoveu um bloqueio geral de internet. As outras ocorreram em 2019, durante protestos contra o aumento do preço dos combustíveis, e em 2022, após a morte de Mahsa Amini, presa por supostamente usar o véu islâmico de forma inadequada. Em 2025, o governo iraniano também acusou o WhatsApp de espionar usuários do país e colaborar com Israel. A Meta negou as acusações e afirmou que as mensagens do aplicativo são protegidas por criptografia. Bloqueio Starkink Até mesmo a Starlink foi parcialmente afetada. Segundo Amir Rashidi, diretor da organização Miaan Group, o governo iraniano utilizou jammers — equipamentos que geram interferência em sinais — próximos às antenas da empresa para bloquear o funcionamento do serviço. Na ocasião, a Proton VPN afirmou que as conexões a partir do Irã estavam diminuindo porque “a internet foi completamente desligada”. O NetBlocks também relatou que a população estava praticamente isolada do mundo exterior. Especialistas ouvidos anteriormente pelo g1 explicaram que governos conseguem interromper o acesso à internet ao obrigar operadoras a suspenderem sinais enviados por cabos e antenas. No caso da internet via satélite, porém, o bloqueio é mais complexo porque as empresas responsáveis pelo serviço podem operar sem infraestrutura física dentro do país. Segundo Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, a alternativa encontrada pelo Irã foi investir em técnicas de jamming para embaralhar os sinais emitidos entre satélites e antenas de usuários. Pesquisadores e ativistas também alertaram que o apagão digital dificulta a organização de protestos, restringe a circulação de informações independentes e favorece a disseminação de narrativas pró-governo. Além disso, durante ataques militares, o bloqueio da internet pode impedir que civis recebam alertas de evacuação e avisos de segurança em tempo real.