Nos livros de História, quando tratarmos dos eventos mais relevantes do século XXI, é possível afirmar que a Macworld Conference & Expo 2007, realizada em San Francisco (Califórnia, Estados Unidos), constituirá um daqueles marcos que a sociologia não poderá ignorar.
Essa será a memória remanescente de Steve Jobs para o resto do mundo: a vez em que ele subiu no palco e apresentou o iPhone, que passou de um mero objeto para um ponto de inflexão paradigmático na trajetória da humanidade e no jeito como ela se relaciona com a tecnologia.

Jobs, claro, era e segue sendo muito mais que aquele momento: existiu mais de meio século antes e mais de 4 anos depois — e, por que não, ressoou mais 15.
Seu legado é objeto de uma disputa latente entre aqueles que consideram que sua existência transcendeu a matéria e que ele próprio se tornou uma ideia — o que por vezes acompanha a afirmação de que “a Apple nunca mais foi a mesma” desde a sua morte — e aqueles que acreditam que a sua fama de disruptivo e inovador não passou de uma mera jogada publicitária apoiada em um mito fundador pautado pelo sonho americano.
Diante de todas essas certezas, há uma série de retratos (literários e cinematográficos, que podem ser adjetivadas como controversas, boas, ruins, algumas até mesmo péssimas) que buscaram entender o homem e os seus feitos. Ele provavelmente era algo no meio de todas essas especulações.
Além dos produtos apresentados ao longo dos anos em suas conferências históricas, uma coisa um tanto única sobre Jobs é o seu perfil de executivo. Hoje, é quase impossível achar — ao menos entre as empresas ocidentais — aquela figura tradicional de um CEO 1Chief executive officer, ou diretor executivo. engravatado e ortodoxo quanto à teoria econômica clássica. Quem representa essa ruptura na alta gestão das corporações, de alguma forma, é ele.
Para entender esse aspecto e sua trajetória — e, de certo modo, para compreender a Apple —, é preciso lembrar, ainda que de maneira breve, da geração à qual ele se vincula: a da contracultura. Seja sob o efeito de “Blonde on Blonde” (de Bob Dylan), de “Abbey Road” (dos Beatles), do budismo ou do uso de alucinógenos, as mudanças culturais da virada da década de 1960 capturaram as mentes da juventude americana, incluindo a do próprio Jobs.
A Tanto a relação da contracultura com o Vale do Silício — brilhantemente explorada por esse artigo do Big Think — quanto o que foi propriamente o movimento são competentemente explicados pelo historiador Theodore Roszak, que popularizou o termo com seu livro “A Contracultura”, publicado em 1969:
[É] uma certa engenhosidade tipicamente americana, uma fascinação igualmente americana por criar, construir e realizar. […] Em uma importante linha de descendência, é justamente entre essa mesma população de rebeldes e desertores que encontramos os inventores e empreendedores que ajudaram a estabelecer as bases da indústria de computadores da Califórnia.
O ethos que definiu essa vanguarda sociocultural não se diferencia muito da atmosfera singular em que o cofundador da Apple se apresentava ao falar de maneira entusiasmada — seja sobre John Lennon ou o Macintosh — das suas paixões.
Essa talvez seja uma grande virada de chave em relação à figura de Jobs: com toda a sua complexidade, é seguro afirmar que ele era apaixonado por aquilo que fazia, e essa paixão nunca foi bem um traço comum no mundo dos negócios — ao menos até aquele momento.
Fato é que a sua trajetória se confunde com os primeiros 35 anos da história da Apple, com ou sem ele a bordo. Deixando um pouco de lado o mito da garagem, o Apple I (primeiro produto da empresa, lançado em 1976) foi uma aposta primitiva da dupla de Steves (é impossível falar de Jobs sem falar de Wozniak, e vice-versa), que vislumbraria um ano depois, em 1977, o sucesso com sua segunda máquina.

O Apple II, ao lado do Tandy Radio Shack TRS-80 e do Commodore PET, representou a estreia definitiva dos computadores pessoais e, em certa medida, o triunfo da visão dos dois Steves: da parte de Woz, de uma máquina aberta e feita para entusiastas (algo intragável para a filosofia que o seu parceiro de negócios já tinha à época e que viria a consolidar nos anos seguintes); do lado de Jobs, uma compreensão mais plena da necessidade de apelar ao consumidor que não era entusiasta, apostando em um design que chamasse a atenção e uma construção bem acabada, longe da impressão amadora a que o computador antecessor remetia. Futuramente, a filosofia de Woz prevaleceria no balanço histórico e o Apple II teria o seu prestígio associado aos feitos dele.

Agora, quando tentamos aproximar a história da computação das nossas experiências atuais, é impossível não esbarrar no Apple Lisa.
Existiam aplicabilidades de interfaces gráficas de usuário (graphical user interface, ou simplesmente GUI) antes do Lisa, claro, mas o projeto partiu da convicção de Jobs de que esse era o verdadeiro futuro da computação pessoal em detrimento das linhas de comando. E essa visão surgiu de uma visita dele ao Xerox PARC, à medida que a Xerox estreitava os seus laços com a Apple.
50 anos atrás, um computador definiu como seria a computação pessoal
Marcos Daniel Vozer Felisberto01/09/2024 • 12:00Depois de alguns conflitos com o projeto do Lisa em 1981 (concluído dois anos depois, em 1983, longe de ter sido um sucesso de vendas), Jobs optou por liderar o projeto do Macintosh 128K (tocado antes dele por Jef Raskin), e esse é o produto que consolidaria a sua ambição de uma máquina verdadeiramente intuitiva, um computador “para o resto de nós”.

Outro aspecto da Apple que a máquina moldou foi o enquadramento publicitário. É impossível passar pelo Macintosh sem lembrar do histórico comercial “1984”, dirigido por Ridley Scott — à época, o cineasta era muito prestigiado pela direção de “Blade Runner” — e exibido durante o intervalo do Super Bowl XVIII.
De alguma forma, o Macintosh era uma disputa interna e externa: ele rivalizava com os computadores da IBM (cujos sistemas eram baseados em texto), com o Apple II de Woz (ao verticalizar a relação hardware-software em um computador sem slots) e, de alguma forma, com o próprio Lisa ao se posicionar como uma opção mais democrática de máquina com interface gráfica.
Mesmo com todos os seus méritos históricos, o curto prazo não foi generoso com o Macintosh em recepção comercial, que foi esmagada pelo restante do mercado de computadores em balanços financeiros.
A coisa foi tão feia que o presidente da Apple à época, John Sculley, eliminou todas as atribuições operacionais de Jobs, que não se encarregaria de nenhuma divisão da Apple pela primeira vez na história, restando apenas o cargo figurativo de presidente do conselho, ao qual, por óbvio, ele não se sujeitou. Esse foi o contexto da sua saída em 1985.
Em busca de um recomeço depois de já ter deixado a sua marca na história da tecnologia, Jobs adquiriu, em 1986, o departamento de computação gráfica da Lucasfilm (empresa por trás de franquias como “Star Wars” ou “Indiana Jones”), vendido por George Lucas — à época, em um processo de divórcio — pelo valor de US$5 milhões (além dos US$5 milhões adicionais destinados a investimentos, totalizando US$10 milhões). O departamento adquirido viraria uma empresa autônoma e se tornaria a Pixar, como detalhou o escritor de “Droidmaker: George Lucas and the Digital Revolution (English Edition)” e ex-funcionário da Lucasfilm, Michael Rubin, em um texto sobre o nascimento da empresa.
O chefe do departamento comprado pelo então ex-Apple, Edwin Catmull, tornou-se presidente da companhia. Segundo Jobs, foi ele quem financiou o grande sonho de Catmull: fazer um longa-metragem inteiramente animado por computação gráfica. Isso ocorreu nove anos depois, com o lançamento de “Toy Story”, desenvolvido junto com o diretor de criação da empresa (e o primeiro animador a integrar o seleto grupo de empregados do setor de CG da Lucasfilm), John Lasseter.

Vinte anos depois da aquisição, em 2006, a Pixar seria vendida à Disney por US$7,4 bilhões, dando a Steve (à época da aquisição, detentor de 50,1% do empreendimento) uma generosa fatia de 7% da casa do Mickey Mouse, tornando-o o maior acionista individual da Disney naquele momento.
O hiato sem Jobs marcou uma fase de baixas nos feitos da Apple, enquanto ele articulava nos anos seguintes o seu novo empreendimento: a NeXT. Embora os entusiastas da Apple tenham uma noção do período (ao menos de maneira abrangente), essa não é bem uma fase conhecida pelo grande público, ainda que a sua influência histórica para a Maçã seja enorme.
Retornando ao então novo empreendimento computacional do pai do Macintosh: ele tinha o objetivo de criar estações de trabalho de alto desempenho voltadas ao ensino superior, mas a NeXT mudou rapidamente o seu público para grandes empresas devido ao preço proibitivo dos seus produtos (o primeiro lançamento da empresa, o NeXT Cube, chegou em 1988 custando US$6.500).

Um ponto da aposta de Jobs que merece ser mencionado é o seu sistema operacional, o NeXTSTEP, que pautou alguns avanços substanciais na história da computação entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. O sistema, baseado em Unix, tinha uma interface gráfica que era uma adaptação do Display PostScript, um engine da Adobe. O NeXTSTEP foi apenas o lugar onde Tim Berners-Lee desenhou o projeto World Wide Web, e John Carmack e John Romero desenvolveram Doom e Quake. Pouca coisa.
Se, com o passar do tempo, a NeXT ascendia (Jobs mencionou anos depois que o recomeço tinha sua leveza frente ao peso de ser bem-sucedido), a Apple vivia aos trancos e barrancos; sob diferentes empreitadas e lideranças, parecia que faltava mais do que o pedaço na Maçã.
Em termos mais curtos do que corretos: no ano de 1996, a empresa, sob a liderança de Gil Amelio, promoveu a aquisição da NeXT para, dentre outras coisas, reaproveitar a base do NeXTSTEP no desenvolvimento de um novo sistema operacional, que anos depois conheceríamos como Mac OS X (processo competentemente detalhado por esse material do Cult of Mac).
Com a compra, Jobs retornou à empresa inicialmente como consultor, depois como CEO interino e, por fim, como CEO definitivo, posto em que ficaria até sua própria renúncia, em 2011.
Sua volta parece ter recolocado a missão da Apple nos trilhos. Para além do lucro, o foco se voltou mais uma vez à “fabricação de grandes produtos”.
O novo tom que a Maçã adquiriu com Jobs novamente no comando foi suficiente para que alguns nomes que cogitavam sair da empresa pensassem duas vezes antes da decisão. Entre eles, estava o diretor de design, Jony Ive. Ele cativaria Steve, e as colaborações entre os dois (e seus subordinados) dariam origem à leva extraordinária de produtos que a Apple lançaria dali em diante.

Em maio de 1998, o novíssimo iMac G3 da Apple disse “olá” mais uma vez; rompendo com o tradicional bege dos computadores da época, ele voltou ao conceito all-in-one do Macintosh, mas agora com um visual translúcido e ditando certas tendências no mundo da computação — algo que a Apple seguiria fazendo inclusive depois da morte de Jobs —, a exemplo do abandono das portas seriais e paralelas antigas, ou do próprio disquete, para a inclusão de duas portas USB, além do leitor de CD.
Outro destaque era o processador PowerPC G3, de arquitetura consideravelmente mais eficiente que a do rival Intel Pentium II, presente nos computadores Windows da época.
A ideia de um computador pessoal voltado para a era da internet era uma evolução do conceito “computador de rede” proposto por Jobs — um terminal econômico sem o uso de disco rígido, hipótese que enfrentou resistência do diretor financeiro da Maçã, Fred Anderson. Ele pressionou por um formato mais próximo do que vimos, e o frescor foi suficiente para o triunfo do iMac.

Enquadrar o iMac G3 como um computador preparado para a era da internet parece, em retrospecto histórico, uma aposta acertada. Ali, iniciava-se um período sem precedentes para a comunicação humana, cuja promessa de democratização do acesso à informação parecia ser a sua face mais sedutora.
Além do novo computador, seu retorno deu legitimamente uma nova cara à Apple; Lee Clow (que trabalhou com Jobs no comercial “1984”) foi o responsável pela célebre campanha “Think Different”, um dos empreendimentos publicitários mais icônicos de toda a história da companhia (quiçá um dos mais relevantes da história do ramo) — que consistia em difundir, com figuras históricas preteridas por sua disruptividade, os valores inovadores da Maçã.

Outro campo em que Jobs almejava oferecer uma alternativa era a experiência de compra dos produtos da Apple, e essa inquietação — com a tradicional resistência dos engravatados do conselho — produziu as Apple Stores, onde a Maçã seria capaz de ter o controle de todo o processo de venda dos seus produtos, da qualificação dos vendedores até o ambiente, cujo design arquitetônico é marcado por fachadas de vidro, áreas abertas e elementos minimalistas.

De volta à internet: vale citar John Perry Barlow, colaborador esporádico de Steve, fundador da Electronic Frontier Foundation e autor da Declaração de Independência do Ciberspaço (carta elaborada durante o Fórum Econômico Mundial, ocorrido em Davos no ano de 1996). O documento defendia a não regulamentação do espaço digital, e esse discurso representou uma filosofia muito mais ampla — beirando o anarquismo — para o compartilhamento digital.
Um dos expoentes mais emblemáticos dessas ideias surgiu em 1999: o Napster. O programa de compartilhamento de arquivos online, focado especialmente em músicas (MP3), rapidamente virou alvo dos tribunais, dado o escopo sem precedentes da popularização do serviço (em 2001, ele acumulava cerca de 8 milhões de usuários conectados diariamente).

As gravadoras de música, ao lado de artistas como o baterista do Metallica, Lars Ulrich, e figurões como Elton John, Madonna e Paul McCartney, foram o elo mais forte, e o Napster foi encerrado após perder diversas batalhas na justiça — ainda que uma sentença que responsabilizasse o serviço em definitivo por violações de direitos autorais nunca tenha ocorrido.
Para Jobs, porém, o serviço não era uma ameaça à indústria musical, mas sim um prenúncio das reformulações pelas quais o setor poderia passar em sua frente de distribuição — e é essa a mentalidade que abriu espaço para o surgimento do iPod.
Antes da resposta da Apple, surgiram alguns dispositivos focados na reprodução de arquivos MP3 (compactos por natureza), uma evolução natural do Discman e do Walkman (da Sony).
Ex-engenheiros da Maçã começaram a trabalhar em um gerenciador de um desses dispositivos para o Mac, e o projeto (chamado de SoundJam) foi adquirido pelo ex-patrão para, por fim, se tornar o iTunes.
Na era do streaming (em que a própria Apple se inseriu com o Apple Music e o Apple TV), a ideia de posse digital parece até incomum, mesmo sendo a grande tendência do consumo no início do século XXI.
O iPod surgiu então como uma consequência quase natural; afinal, a integração de hardware e software foi uma especialidade que colocou o produto na liderança do setor, que se consolidaria com uma promessa simples, mas tecnologicamente avassaladora: 1.000 canções ao alcance do seu bolso!

Na era em que carregamos terabytes em dispositivos finos e portáteis, claro, essa façanha tem um peso completamente distinto. Mas, com o iPod e o iTunes (e posteriormente a própria iTunes Store), a Apple mudou a indústria da música.
Outro grande trunfo dessa combinação foi o êxito da visão de Steve de verticalizar a relação entre o software e o hardware fora dos computadores, o que ofereceu uma alternativa acessível (os US$0,99 por música) à pirataria.
Essa visão de um aparelho com um sistema fechado, mas plenamente funcional, teria como passo natural, fora dos computadores tradicionais, um produto ainda mais ambicioso: o iPhone. Antes de o iPhone ser apresentado ao mundo, chegou-se à ideia de um único aparelho que reunisse o iPod, um telefone celular e um navegador de internet.

Aquilo que Jobs defendia pelo menos desde os anos 1980 parecia ter sido cristalizado em um produto capaz de simplificar a sua trajetória. Mas ele ainda teria alguns triunfos além do iPhone. Em 2008 e 2010, respectivamente, Steve apresentaria as primeiras gerações do MacBook Air e do iPad, derivações muito particulares de outros produtos da Apple que estão presentes em seu portfólio até os dias de hoje.
É possível afirmar que sua última grande cartada, em termos de visão, foi a aposta nas soluções em nuvem com o iCloud e, antes dele, a estreia do FaceTime, a solução mais sofisticada existente para videochamadas no mercado mobile.

Lamentavelmente, entre idas e vindas de um tumor pancreático diagnosticado em 2003 (que mais tarde viraria um câncer), Jobs teve de se afastar da direção executiva da empresa em 24 de agosto de 2011, indicando Tim Cook para lhe suceder no papel de CEO. Mais de um mês depois, no dia 5 de outubro de 2011, ele viria a falecer.
Sintetizar a importância histórica de uma figura como Steve Jobs é uma tarefa ingrata, pois não há consenso. Entretanto, se olharmos para o que ele representou, considero algumas das suas próprias palavras ditas para o extraordinário livro do jornalista Walter Isaacson — a obra, aliás, foi de grande serventia para a elaboração deste especial — um caminho razoável:
Acho que a maioria das pessoas criativas quer manifestar o seu apreço por ser capaz de tirar partido do trabalho feito por outros antes. Não inventei a língua ou a matemática que uso. Preparo pouco da comida que como, e nenhuma das roupas que visto. Tudo que faço depende de outros membros da nossa espécie e dos ombros sobre os quais ficamos em pé. E muitos de nós querem dar uma contribuição para a nossa espécie também e acrescentar alguma coisa ao fluxo. […] Não somos capazes de escrever as canções de Bob Dylan, ou as peças de Tom Stoppard. Tentamos usar os talentos que temos para expressar nossos sentimentos profundos, para mostrar nosso apreço por todas as contribuições feitas antes de nós e para acrescentar algo ao fluxo. Foi isso que me motivou.
Como em todas as outras áreas da humanidade, nenhuma construção é produto de uma única mente — embora os nossos tempos individualizem cada vez mais as conquistas ao nosso redor —, e o próprio Jobs reconhecia a importância dos times que ergueram as revoluções tecnológicas da Apple que testemunhamos ao longo das décadas.
O mundo sem ele, porém, não teria a mesma forma, e isso diz o suficiente sobre o seu legado.
Notas de rodapé
- 1Chief executive officer, ou diretor executivo.