Se eu lhe pedisse para apostar no que a Apple vai anunciar daqui a alguns dias, “câmera melhor” seria a aposta mais segura do mundo. Não é palpite, é ritual. Desde o iPhone 4, em 2010, não houve um único ano em que a Maçã subisse ao palco sem dedicar uns bons minutos a fotos de cachorros, pores do sol e gente sorrindo em baixa luz, etc.
Só que tem uma pergunta que quase ninguém faz: se a foto do iPhone já é boa há tanto tempo, o que exatamente ainda melhora?
Pergunte para quem tem um iPhone 13 se as fotos ficaram ruins. Não ficaram. O meu, que uso para registrar um filho de quatro anos em movimento perpétuo, entrega imagens que eu não trocaria pelas da minha antiga DSLR 1Digital single-lens reflex camera, ou câmera reflex monobjetiva digital.. E é justamente por isso que a frase “a câmera está X% melhor” foi perdendo significado. Melhor em quê? Para quem? Em qual foto?
Resolvi olhar para isso com a cabeça de produto, separando o que é hardware, o que é software e o que é marketing. E, de quebra, responder a uma dúvida bem prática que chega todo ano: quanto a mais essas fotos ocupam no aparelho.
O sensor principal está parado há quatro anos
Comecemos pelo dado que mais me surpreendeu ao revisar as fichas técnicas. A câmera principal do iPhone Pro (sensor de 48 megapixels, de 1/1,28 polegada, lente ƒ/1,78) chegou com o iPhone 14 Pro, em 2022. O iPhone 15 Pro manteve. O 16 Pro manteve. O 17 Pro, lançado no ano passado, também.
Segundo uma análise do pessoal do Halide, que desenvolve um dos apps de câmera mais respeitados da plataforma, sensor e lente da principal são idênticos aos das duas gerações anteriores.
Ou seja: quando você tira uma foto “normal” (no 1x) com um iPhone de 2022 ou de 2025, a luz passa pelo mesmo vidro e cai no mesmo sensor. O que muda é o que acontece depois.

Isso não é crítica, é física. Sensor maior exige lente maior, e lente maior exige mais espessura, e ninguém quer um iPhone que não cabe no bolso. A Apple chegou ao limite razoável em 2022 e, desde então, vem investindo nas outras câmeras e no processamento.
Tanto que a novidade mais comentada para o “iPhone 18 Pro Max” é uma abertura variável, um mecanismo físico que controla quanta luz entra. Se confirmada, será a primeira mudança mecânica relevante na câmera principal em quatro anos — e vale notar que alguns rumores a colocam apenas no modelo maior.
Então o que melhorou? As câmeras que você usa menos
Os saltos reais dos últimos anos aconteceram nas lentes secundárias. O iPhone 15 Pro Max trouxe a teleobjetiva de 5x. O 16 Pro levou a ultra-angular de 12MP para 48MP, o que mudou muito as fotos de paisagem e as macro. E o 17 Pro fez o mesmo com a teleobjetiva: sensor 56% maior, 48MP, 4x óptico e um 8x por recorte que a Apple chama de “qualidade óptica”.
Na prática, a foto que mais melhorou de 2023 para cá não foi a do prato no restaurante nem a do filho no parquinho. Foi a do palco no show, do jogador no estádio, do prédio do outro lado da rua. Se você nunca usa o zoom, boa parte dos “upgrades de câmera” dos últimos três anos simplesmente não aconteceu para você.
Vale dizer que o 2x também melhorou de forma silenciosa. Como o sensor de 48MP permite recortar o centro e ainda entregar 12MP reais, o 2x deixou de ser zoom digital “de mentira” e virou uma lente quase de verdade. Segundo a mesma análise do Halide, no iPhone 17 Pro ele ficou visivelmente menos processado. É um daqueles ganhos que ninguém coloca no slide, mas que aparece toda vez que você aproxima um pouquinho.
A parte que ninguém enxerga: o processamento
Aqui está o verdadeiro motor das melhorias anuais. Cada foto do iPhone é, na verdade, uma pilha de exposições combinadas em frações de segundo (Smart HDR 2High dynamic range, ou ampla faixa dinâmica., Deep Fusion, modo Noite, o tal Photonic Engine, etc.). O sensor é o mesmo, mas o chip que interpreta o que ele capturou é novo todo ano, e o algoritmo também.

O resultado é sutil e cumulativo. Menos ruído na sombra, céu que não estoura, pele que não vira cera, cabelo que não vira borrão no modo Retrato… nenhum desses itens rende uma manchete, mas juntos explicam por que uma foto do iPhone 17 parece “mais limpa” que a do 14 Pro mesmo com o mesmo sensor. O ganho está no “menos processado”, não no “mais”.
Aliás, na minha opinião, a maior melhoria de câmera dos últimos anos nem foi de qualidade de imagem. Foram os Estilos Fotográficos (Photographic Styles) da geração 16, que deixaram você decidir o “look” da foto (mais quente, mais contrastado, mais neutro, etc.) antes ou depois de tirar, em vez de aceitar o gosto da Apple. Para quem cansou daquele visual excessivamente HDR, é a diferença entre uma câmera boa e uma câmera sua.
E quanto isso custa em espaço?
Chegamos à pergunta prática. Mais megapixels é igual a foto mais pesada, certo? Menos do que parece, e por um motivo que quase ninguém repara.
Desde o iPhone 15, a resolução padrão passou de 12MP para 24MP (dobrou). Mas o formato HEIF 3High efficiency image file format, ou formato de arquivo de imagem de alta eficiência., que a Apple adota desde 2017, é muito eficiente. Nos meus testes e nos números que circulam por aí, uma foto de 24MP, no padrão, fica entre 1,5-3MB; uma de 12MP (dos iPhones anteriores) ficava por volta de 2MB. Ou seja: a resolução dobrou e o arquivo mal cresceu. Se você não mexeu em nada nos ajustes, a câmera nova não está enchendo seu iPhone mais rápido que a antiga.
A conta muda quando você entra em Ajustes » Câmera » Formatos e ativa as opções mais profissionais. O HEIF Max, com 48MP, fica por volta de 4-6MB por foto, ainda razoável. Já o ProRAW, o formato de quem edita a sério, é outra história: cada foto em 48MP fica em torno de 75MB, como nós já contamos quando o formato estreou. Setenta e cinco! Uma viagem curta de 200 fotos em ProRAW Max consome mais de 12GB; as mesmas 200 fotos, com as configurações padrão, ficam em uns 400MB.
Vale lembrar que os 48MP só valem no 1x com luz boa. Com zoom, modo Noite ou flash, o próprio iPhone volta para 12MP ou 24MP, porque juntar quatro pixels em um (o tal pixel binning) rende foto melhor do que insistir na resolução máxima no escuro. A Apple sabe disso e escolhe por você. É por isso que o padrão de fábrica é 24MP, e não 48MP: é o equilíbrio entre detalhe e tamanho que faz sentido para 95% das fotos.
Então, vale trocar pela câmera?
Depende de qual foto você tira. Se a sua galeria é filho, cachorro, comida e viagem no 1x, o iPhone 14 Pro ou o 15 Pro ainda entrega praticamente a mesma imagem, com um processamento um pouco mais antigo. Se você vive no zoom, o 17 Pro é outro aparelho! E se a Apple confirmar a abertura variável no “18 Pro Max”, aí sim teremos algo para discutir sobre a câmera principal — pela primeira vez desde 2022.
No fim das contas, “a câmera vai melhorar” continua sendo a aposta mais segura da semana que vem. A pergunta certa nunca foi essa, e sim “vai melhorar a foto que eu tiro?”
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Notas de rodapé
- 1Digital single-lens reflex camera, ou câmera reflex monobjetiva digital.
- 2High dynamic range, ou ampla faixa dinâmica.
- 3High efficiency image file format, ou formato de arquivo de imagem de alta eficiência.