Apple revela artimanhas de ex-funcionários em ação contra a OpenAI

Apple revela artimanhas de ex-funcionários em ação contra a OpenAI

Como informamos no fim da semana passada, a Apple entrou com um processo contra a , no qual acusa a empresa de inteligência artificial de roubar segredos comerciais durante a contratação de diversos ex-funcionários da companhia.

A ação se concentra em Tang Tan (líder de hardware da OpenAI e ex-designer da Apple) e (ex-engenheiro elétrico da empresa), os quais alegadamente instruíram funcionários da Maçã — que estavam em processo de entrevista na OpenAI — a fornecerem detalhes sobre dispositivos ainda não lançados, incluindo componentes, processos de fabricação e relacionamentos com fornecedores.

Conforme destacado pela Bloomberg com base nas dezenas de páginas dos autos processuais, Liu saiu da Apple levando um fornecido pela empresa (que ele nunca devolveu). Ele também tinha um relacionamento próximo com Alyssa Peng, funcionária da Maçã que continuou compartilhando informações internas.

Talvez o mais importante: ele tinha conhecimento de uma falha de software que lhe garantia acesso contínuo aos servidores de arquivos internos da Apple, e usou esse acesso para baixar apresentações, projetos de hardware, detalhes de fabricação e procedimentos de teste — tudo isso enquanto já trabalhava na OpenAI.

“KKK, descobri que consigo acessar o [armazenamento de rede], muito engraçado”, escreveu Liu para sua ex-colega da Apple, Alyssa Peng.

Quando Liu descobriu a falha, Peng entrou em cena para ajudar, segundo consta no processo. Ela respondeu “Estou pronta” e acabou ajudando-o a obter mais informações por meio de seu próprio dispositivo. Poucos meses depois, em abril, Peng também foi trabalhar na divisão de hardware da OpenAI.

Esse episódio é um dos muitos que, segundo a Apple, ilustram um “esforço sistemático para adquirir, reter e utilizar” suas informações confidenciais, ajudando a OpenAI a replicar décadas de trabalho da Apple na construção do negócio de eletrônicos de consumo mais bem-sucedido do mundo.

Em resposta ao processo, a OpenAI afirmou não ter “nenhum interesse em segredos comerciais de outras empresas”.

Envolvimento de Tang Tan

Como dissemos, quem também está no centro desse conflito é Tang Tan, que supervisionou o design do iPhone, do Apple Watch e de vários outros produtos. No final de 2023, ele comunicou aos seus superiores que estava de saída para um novo trabalho, assumindo o cargo de diretor de hardware da OpenAI em fevereiro de 2024, após conduzir uma transição que exigia a “reformulação da divisão de hardware”.

Como apontado na reportagem, Tan era conhecido por assumir riscos na Apple e por “voar muito perto do sol” ao longo de sua carreira de 25 anos: “Tan é muito conhecido por agir com rapidez, adotar uma postura ousada e pouco convencional, e quebrar padrões estabelecidos”, disse uma fonte anônima.

O processo também destaca informações de bastidores entre Tan e . Isso porque a maioria dos profissionais contratados pela OpenAI vindos da Apple pertencia à divisão de engenharia de hardware liderada por Ternus, e alguns designers haviam apoiado Tan — no lugar de Ternus — para o cargo de liderança da área de hardware em 2021.

Tan também já havia começado a trabalhar com , ex-chefe de design da Apple, e com , CEO 1Chief executive officer, ou diretor executivo. da OpenAI, em uma nova categoria de dispositivos de IA capaz de rivalizar com o iPhone. Tan e Ive colaboraram na fundação da io Products, uma startup que a OpenAI adquiriu no ano passado. Eles se uniram no empreendimento a (sucessora de Ive na chefia de design industrial da Apple) e a (ex-gerente de manufatura que havia deixado a Maçã em 2010).

Quem realmente acredita que Jony Ive e Evans Hankey não sabiam o que Tang Tan estava fazendo ilegalmente?
Claro, eles não são citados no processo entre a Apple e a OpenAI, mas fala sério.

Tan, apontado pela Apple como o articulador da estratégia para obter informações confidenciais, teria utilizado entrevistas com candidatos a vagas como uma oportunidade para coletar dados sobre futuros produtos da empresa.

Em um dos casos relatados, a Apple afirma que um funcionário obteve informações sobre um projeto poucas horas antes de se reunir com Tan para uma entrevista de emprego. A Maçã também alega que o executivo chegou a pedir a candidatos que levassem protótipos para as entrevistas de emprego — isso incluía baterias, placas lógicas e outros componentes.

A Apple alega ainda que, após aceitarem trabalhar na OpenAI, os funcionários eram incentivados a enviar informações de seus dispositivos da Apple para contas de email pessoais antes de pedirem demissão, para utilizá-las posteriormente na empresa de IA — inclusive com a ajuda de Tan, que elaborava “uma lista de verificação” para ajudar os novos contratados a evitar a detecção pelas equipes de segurança da Apple.

Pelo menos um funcionário da Apple que se candidatou a uma vaga na OpenAI demonstrou preocupação com essa prática, afirmando ter ficado “surpreso” pelo fato de as pessoas levarem componentes/produtos ainda não lançados para as entrevistas.

A Apple afirmou que tentou resolver a disputa antes de entrar com a ação judicial, inclusive entrando em contato com a OpenAI em fevereiro para comunicar a preocupação de que informações confidenciais haviam chegado até ela, solicitando que a empresa investigasse o problema e impedisse que isso continuasse. A OpenAI nunca respondeu, conforme alegado pela Apple.

Possíveis implicações para a OpenAI

As acusações, segundo o jornalista M.G. Siegler, poderão desviar o foco da OpenAI em relação às suas ambições de hardware por meses, se não anos ou, até mesmo, para sempre — já que, se a Apple conseguir provar que seus segredos comerciais foram incorporados aos produtos da OpenAI, esta poderia ser forçada a reprojetá-los.

Ademais, conforme destacado na matéria da Bloomberg, dada a influência da Apple sobre as fabricantes de eletrônicos ao redor do mundo, os fornecedores podem relutar em estreitar laços com a OpenAI, temendo comprometer relações maiores e mais antigas com a Apple ou acabar sendo envolvidos no litígio.

Eles apontam ainda que “é provável que a Apple obtenha uma medida liminar específica relacionada aos projetos de dispositivos da OpenAI”. Qualquer ordem nesse sentido provavelmente exigiria o isolamento de materiais em disputa, a preservação de provas e a certificação de conformidade, o que poderia atrasar ainda mais os planos de desenvolvimento de produtos da OpenAI.

De qualquer forma, uma pessoa a par dos planos da OpenAI disse à Bloomberg que a empresa ainda espera anunciar seu primeiro produto de hardware neste ano e lançá-lo em 2027; segundo o jornalista Mark Gurman, o verdadeiro impacto estará na expansão para uma família de dispositivos e um rival do iPhone.

Notas de rodapé

  • 1Chief executive officer, ou diretor executivo.