Com perfil decisivo, Ternus pode retomar o estilo de Jobs no comando da Apple

Com perfil decisivo, Ternus pode retomar o estilo de Jobs no comando da Apple

Como publicamos nesta semana, a Apple anunciou a tão especulada aposentadoria de Tim Cook como seu CEO 1 — cargo que passará (a partir de 1º de setembro) a ser ocupado por John Ternus, hoje vice-presidente sênior de engenharia de hardware e um dos maiores nomes no time de executivos da empresa.

Mas quem é John Ternus? Como ele começou na Maçã? O que de mais importante ele fez na empresa e quais as expectativas para seu “mandato” como CEO? É isso que boa parte dos sites especializados em tecnologia e negócios vem tentando responder desde o anúncio.

Neste artigo, vamos conhecer um pouco mais do futuro diretor executivo da Apple e, principalmente, trazer algumas especulações sobre qual será seu direcionamento no comando daquela que é uma das maiores empresas do mundo.

O começo de tudo

John Ternus formou-se em 1997, em engenharia mecânica e mecânica aplicada pela Universidade da Pensilvânia. Na graduação, ele já mostrava um espírito inovador — com destaque para o projeto de um braço mecânico de alimentação, controlado por movimentos da cabeça, para pessoas com tetraplegia.

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Tendo trabalhado por quatro anos como engenheiro mecânico em uma startup, Ternus chegou à Apple em 2001, quando passou a integrar a equipe de design de produtos (trabalhando inicialmente com monitores), e logo foi subindo na gerência da empresa até ser alçado ao cargo de vice-presidente de engenharia de hardware, em 2013, para supervisionar o desenvolvimento de AirPods, Macs e iPads.

Mais recentemente, em 2021, ele foi promovido ao posto de vice-presidente sênior do setor — substituindo Dan Riccio, a quem respondia anteriormente —, cargo que ocupará até a sua nova função.

O histórico de Ternus na Apple

Em seus 25 anos de empresa, ele fez parte de projetos grandiosos, como o lançamento do iPad original, o desenvolvimento de todas as gerações dos AirPods já lançados, bem como na bem-sucedida transição dos chips da Intel para os da família Apple Silicon em Macs e no recém-lançado MacBook Neo.

Esse último, inclusive, é considerado uma espécie de ponto de virada de chave que poderá representar uma mudança relevante na forma como a Apple lida com o mercado de computadores, já que, pela primeira vez, a empresa investiu em um Mac de baixo custo. Se der certo (e, aparentemente, vem dando), a gestão Ternus poderá adotar uma estratégia semelhante para outros produtos.

Mas nem só de sucessos ficou marcada a gestão do futuro CEO. Ele também teve um papel ativo no desenvolvimento de projetos que fracassaram, com os maiores exemplos sendo o controverso teclado borboleta e a Touch Bar dos MacBooks Pro. Enquanto o primeiro apresentou uma série de problemas, o segundo simplesmente não caiu nas graças dos usuários.

Como funcionário da Apple, Ternus é frequentemente descrito por pessoas de seu convívio como um “cara superlegal”, além de um grande colaborador que mantém foco nas reuniões e costuma construir uma imensa lealdade entre as equipes que coordena.

Estilo de liderança

Como líder executivo, por sua vez, Ternus tem um estilo de tomada de decisão considerado diferente do de Cook. Enquanto o atual CEO preza mais pelo consenso, o futuro diretor é visto como mais assertivo e decisivo, alguém que costuma tomar decisões diante de impasses e que escolhe uma direção para avançar rapidamente e evitar uma paralisação.

Preferindo dialogar diretamente com funcionários de níveis mais baixos (e não com intermediários), Ternus tem um perfil de gestão que combina um certo perfeccionismo técnico rigoroso com um pragmatismo sistêmico. Seu nível de atenção aos detalhes, inclusive, é corroborado por um relato feito pelo próprio de um período em que ele esteve na Ásia.

Em algum momento do meu primeiro ano, me encontrei em uma instalação de fornecedores. Eu estava longe de casa. Bem depois da meia-noite, eu estava usando uma lupa para contar o número de ranhuras na cabeça de um parafuso… e estava discutindo com o fornecedor por que essas peças tinham 35 ranhuras. Eles deveriam ter 25. […] Lembro-me claramente de recuar por um minuto e pensar: “O que diabos estou fazendo? Isso é normal?”

Ternus também é conhecido por preferir procurar falhas sistêmicas que possam ser corrigidas com um aprimoramento da liderança quando o assunto é lidar com erros da equipe — uma postura amigável, mas que pode ser abandonada quando a excelência exigida pela Apple para algum produto é comprometida.

A Bloomberg, por exemplo, relatou em seu perfil um episódio na ocasião do lançamento do Apple Vision Pro em que os engenheiros descobriram uma falha que ameaçava a capacidade do dispositivo de transmitir áudio de latência ultrabaixa para os AirPods — episódio que fez Ternus agir de forma enérgica e rigorosa para encontrar os responsáveis.

O que esperar da Apple de Ternus?

Com base nesse perfil mais decisivo supracitado, espera-se que Ternus traga de volta o perfil de tomada de decisões centralizado que era uma das maiores características de Steve Jobs. Enquanto Cook responde a problemas com uma longa série de perguntas antes de tomar uma decisão, Ternus simplesmente “escolhe” — estando ele certo ou errado.

Sua formação como engenheiro também pressupõe que ele atuará mais de perto no setor de hardware da empresa — diferente de Cook, que esteve sempre mais focado na cadeia de suprimentos e nas operações globais.

Com isso, é possível que vejamos mais inovações no portfólio da empresa e, quem sabe, até mesmo a entrada em novas categorias de mercado — para além das que já são especuladas, como dobráveis, robótica e óculos inteligentes.

No entanto, é inegável que cairá no colo dele o desafio de colocar de vez a Apple no mapa da inteligência artificial (IA). Quando assumir o cargo, em setembro, a Maçã já deverá ter finalmente apresentado os seus sistemas operacionais 27, com uma Siri renovada e alimentada pelo Gemini — isso caso não vejamos mais um atraso.

Antes mesmo de sua posse e de herdar esse desafio, no entanto, Ternus já teria iniciado uma reestruturação na divisão de hardware da Apple em torno de uma “nova plataforma de IA” para acelerar o desenvolvimento de produtos e aprimorar a qualidade e operações da empresa.

Pulando para o campo dos serviços, que atualmente respondem por uma grande fatia do faturamento anual da Apple, é esperado um grande foco no Apple TV. Segundo o Deadline, Ternus é um grande fã do streaming da Maçã e tem como ambição “torná-lo competitivo”.

Isso pode significar um investimento ainda maior na plataforma (ou até mesmo o licenciamento de conteúdos não originais) visando competir numericamente com concorrentes como Netflix, Disney+ e Amazon Prime Video.

Ternus também herdará uma empresa avaliada em US$4 trilhões (o que lhe renderá certamente uma pressão enorme par manter os números positivos de seu antecessor) e envolta em outros problemas (como pressões regulatórias pelo mundo, inclusive no Brasil).

Por ainda não possuir bagagem ou experiência política para lidar com esses temas, a expectativa é de que ele continue contando com um grande auxílio de Cook como presidente executivo do conselho da Apple, ao menos por um bom período.


Quais dessas expectativas irão se concretizar, isso só saberemos no futuro. Mas fato é que a diferença de estilo e potencialmente de foco entre os dois muito provavelmente fará a Apple respirar novos ares — ainda não sabemos se para melhor ou para pior.

Notas de rodapé

1    Chief executive officer, ou diretor executivo.