Na semana passada, confessei aqui que já decidi trocar de iPhone antes mesmo de a Apple anunciar qualquer coisa — e tentei explicar a mecânica psicológica por trás disso. O texto rendeu mais de 70 comentários. Li todos, respondi a vários, e saí com uma conclusão que não estava no meu roteiro: quase ninguém discutiu o iPhone. As pessoas discutiram umas com as outras.
O comentário mais curtido da página tem três palavras: “Que coisa ridícula…”. O segundo, uma piada: “O termo correto é FUMO”. Do outro lado, apareceram o “a inveja”, o “o dinheiro é de quem?” e o “quanto ódio”. No meio, um punhado de leitores que discordaram de mim com argumentos, e um pequeno grupo que passou três dias trocando memórias sobre BBS e disquetes de 5¼ (a melhor parte da seção de comentários, aliás).
Vale dizer: a matéria era sobre um sujeito admitindo um comportamento irracional com o próprio dinheiro. Não pedia adesão. Mesmo assim, dividiu a plateia em dois times que se chamaram de “seita” e de “invejosos”. Por quê?
Não é sobre o telefone
A resposta curta é que ninguém briga por um telefone. As pessoas brigam por aquilo que o telefone diz sobre elas.
A Apple construiu, desde o comercial “1984” e passando pelos anúncios “Mac vs. PC”, uma marca que funciona como identidade. Comprar um iPhone não é escolher um aparelho, é entrar em um grupo — e a Apple sempre soube disso.
O problema é que identidade funciona nos dois sentidos. Quem está dentro sente uma crítica ao produto como crítica a si mesmo. E quem está fora sente o entusiasmo alheio como uma provocação. Um leitor resumiu sem querer: “Com os preços novos, chegou a hora de separar o rico do dublê de rico”. Não é uma frase sobre tecnologia, é uma frase sobre lugar social.
No Brasil, isso tem um agravante. Quando um produto custa centenas de horas de trabalho, consumo vira julgamento moral. Trocar de iPhone todo ano deixa de ser uma decisão pessoal e passa a ser uma afronta a quem faz conta. Um leitor foi direto: “Parabéns ao autor pela coragem. A conduta é absolutamente tola”. Outro: “Trocou uma compulsão por outra”. Posso discordar do tom, mas entendo de onde vem. Para quem economiza um ano inteiro para comprar um aparelho, ver alguém tratá-lo como descartável incomoda. Do lado de lá, quem pode trocar sem esforço lê a crítica como inveja, e o ciclo se fecha.
Do primeiro iPhone ao 17: quanto cada geração custou em horas de trabalho, no Brasil e nos EUA
Michel Duarte Corrêa12/07/2026 • 12:00Aqui entra a minha parte. Respondi a alguns comentários com menos paciência do que deveria, e um leitor me chamou a atenção por isso — com razão. Quando a discussão passa a ser sobre quem é quem, e não sobre o que é o quê, todo mundo perde — inclusive o autor.
A Apple não é iPhone
A segunda coisa que os comentários deixaram clara é uma distinção que a gente raramente faz: existe a Apple e existe o iPhone, e gostar de uma não obriga a gostar do outro.
Um dos comentários mais interessantes veio de um usuário há dez anos de produtos da Apple, na faixa etária que a empresa mais mira, dizendo que o iPhone virou o produto mais “chato” da Maçã (para ele). Se tivesse que apagar um dos dois da face da Terra, apagaria o iPhone e ficaria com o Mac. Outro leitor concordou: “O MacBook está num outro patamar. Já o iPhone é mais do mesmo”. Um terceiro trocou o iPhone por um dobrável da Samsung, mas continua com Mac e diz que revisita os dois ecossistemas de tempos em tempos.
Isso não é gente “contra a Apple”. É gente que separa a empresa do seu produto mais famoso. E faz sentido: o Mac vive o melhor momento em 20 anos com o Apple Silicon, enquanto o iPhone é um produto maduro, com melhorias anuais cada vez mais sutis. Dá para ser fã da Apple e achar que trocar de iPhone todo ano é bobagem. Dá para achar o iPhone o melhor telefone do mundo e não ter a menor paciência com a empresa. Os dois sentimentos apareceram nos comentários, muitas vezes na mesma pessoa.
Teve também o debate de fundo, o de sempre: a Apple é uma empresa “acomodada”, que joga no seguro e deixa a concorrência arriscar com dobráveis e multitarefa, ou é uma empresa que faz muita pesquisa e só lança quando a tecnologia está pronta? Um leitor da área de TI defendeu a primeira tese com argumentos, eu defendi a segunda, e terminamos concordando que a resposta depende de qual usuário você tem em mente: para quem quer extrair o máximo do hardware, a liberdade do Android faz falta; para o meu pai, o ambiente fechado do iOS é exatamente o que ele precisa. Foi a melhor conversa da página — e não teve um xingamento.
A briga original: Apple vs. Google
Se a torcida briga, é porque aprendeu com os donos do time. A rivalidade entre Apple e Google (e por tabela, Android) é uma das mais bem documentadas da história da tecnologia, e vale relembrar alguns capítulos.
Em 2011, a biografia autorizada de Steve Jobs revelou que ele considerava o Android um “produto roubado” e prometia “guerra termonuclear” contra o Google, gastando “até o último centavo” dos US$40 bilhões em caixa da Apple para destruí-lo. Dois anos antes, Eric Schmidt, então CEO 1Chief executive officer, ou diretor executivo. do Google, havia deixado o conselho de administração da Apple justamente porque as empresas passaram a competir.
A guerra veio, mas por procuração. Como o Android era gratuito, a Apple processou quem o vendia: a Samsung. O julgamento de 2012 terminou com uma condenação de mais de US$1 bilhão contra a sul-coreana, e a briga se arrastou por sete anos em tribunais de vários países, até um acordo em 2018. Enquanto isso, em 2012, a Apple tirou o Google Maps do iPhone e lançou o próprio Mapas, com o resultado desastroso que todo mundo lembra, e Tim Cook teve que pedir desculpas em carta aberta.
Depois, vieram as alfinetadas de palco. Em 2014, Cook chamou o Android de “inferno tóxico” na WWDC. O Google respondeu ao longo dos anos com cutucadas nos eventos do Pixel e com uma campanha inteira contra a “bolha verde” do iMessage. Em 2022, quando um jornalista perguntou a Cook se a Apple adotaria o padrão RCS 2Rich communications service, ou serviço de comunicação rico. para melhorar as mensagens com usuários de Android, a resposta foi um “compre um iPhone para a sua mãe”. Dois anos depois, o RCS chegou ao iOS 18 — dentro de balões verdes, claro.
E aqui está o detalhe que a torcida esquece. Durante todo esse tempo, o Google pagou bilhões por ano à Apple para ser o buscador padrão do Safari, um acordo que pagava US$15 bilhões em 2021, chegou a US$20 bilhões em 2022, e virou peça central do processo antitruste contra o Google nos EUA. E em janeiro deste ano, a Apple confirmou que o Gemini, do Google, vai alimentar a nova Siri. A empresa que Jobs prometeu destruir com guerra termonuclear hoje fornece o cérebro da assistente do iPhone.
Ou seja: as empresas brigaram enquanto brigar dava dinheiro e fizeram as pazes quando a paz passou a dar mais. Quem ficou na trincheira fomos nós.
O que sobra
Não escrevo isso para dizer que os críticos estavam errados. Trocar de iPhone todo ano é, de fato, uma decisão que não sobrevive a uma planilha — e eu mesmo disse isso no texto original. O que me chamou a atenção foi outra coisa: a velocidade com que uma discussão sobre consumo virou um tribunal sobre caráter, dos dois lados. Quem troca é fútil; quem critica é invejoso. Nenhum dos dois rótulos ajuda a entender por que um aparelho de bolso mexe tanto com a gente.
A Apple vende identidade há 40 anos e faz isso melhor do que qualquer outra empresa do planeta. Funciona tão bem que a gente esquece que é marketing e passa a defender (ou atacar) a marca como se fosse um pedaço de nós. Talvez o exercício mais saudável, em setembro, seja lembrar que o iPhone é um produto, a Apple é uma empresa, e nenhum dos dois precisa da nossa lealdade. Nem da nossa raiva.
Se quiser discordar, a seção de comentários continua aberta. Só peço uma coisa: discorde do argumento, não da pessoa. Eu prometo fazer o mesmo! 😊
Notas de rodapé
- 1Chief executive officer, ou diretor executivo.
- 2Rich communications service, ou serviço de comunicação rico.