A corrida pelo “próximo iPhone” continua aquecida. Tal como a corrida à Lua, na década de 1960 (e por que não dizer a corrida atual pelo espaço?), as Big Techs têm se dedicado a encontrar o próximo device matador que irá mudar a forma de nos comunicar, manter a presença online, além de produzir e consumir conteúdo.
Desde o Google Glass, em 2013, passando pelo Apple Vision Pro, até as promessas recentes feitas por Sam Altman e Jony Ive em sua nova empresa, todos declaram que o smartphone é passado e algo novo está por surgir.
Mark Zuckerberg entrou para valer nessa briga. Em 2019, a Meta iniciou com seu óculos de realidade virtual, o Quest, que veio evoluindo gradativamente. Em 2021, profetizou a chegada do Metaverso e até mudou sua empresa de nome. Um novo conceito foi apresentado em seu Ray-Ban Meta Glass, lançado em 2021, com câmera, fone, conexão com o Instagram e, mais recentemente, trazendo consigo a Meta IA. Além da Ray-Ban, a Oakley também entrou na onda tecnológica e trouxe versões mais esportivas do Meta Display.
Mas o último big shot do Zucka foi seu Meta Ray-Ban Display com Neural Band. É verdade que o lançamento teve seus percalços e falhas, mas parece que começamos a traçar um novo caminho de interação e conexão. Os primeiros impactos foram positivos: o produto tem sido um fenômeno de vendas, esgotando rapidamente nas lojas.
Na tentativa de conseguir um exemplar, rodei várias lojas sem sucesso, sendo que algumas delas tinham filas de espera com mais de 100 nomes. Quando estava quase desistindo, depois de uma Best Buy informar que só voltaria a vender o produto em dezembro, a sorte dos tech early adopters se manifestou. Em uma visita despretensiosa à loja própria da Meta, na Califórnia, um dos últimos exemplares estava disponível e consegui finalmente adquiri-lo.
Após testá-lo por três semanas, estou pronto para traçar um ponto de vista sobre o produto. Spoiler: desta vez não o devolvi, como em experiências anteriores.
Design e conforto
A assinatura Ray-Ban sem dúvida traz credibilidade. Com um estilo mais tradicional da marca, o Meta Display é mais “quadradão”, remetendo bastante à imagem de um “nerd raiz”. O Ray-Ban Meta (Gen 2), recentemente chegado ao Brasil, já traz versões com designs mais suaves, opções de cores e maior variedade para combinar com diferentes estilos e formatos de rosto. O Meta Display, em sua primeira versão, tem apenas duas cores (black e sand) e dois tamanhos, sendo um padrão e outro um pouco maior. A pulseira tem três opções de tamanho.
Ao usá-lo pela primeira vez, ele parece desconfortável — e depois você tem certeza de que é, mesmo. Bastante grosso e pesado, rapidamente começa a cansar no rosto, especialmente se estiver quente, pois ele começa a escorregar no nariz. Mas é preciso destacar que ele é totalmente “usável”.
Obviamente, trata-se de um produto totalmente diferente e com uma proposta distinta da do Apple Vision Pro, mas vale uma comparação em relação ao lançamento da Apple. No marketing inicial, a empresa fez questão de apresentar pessoas nas mais diversas situações de trabalho e lazer — inclusive em uma festa de aniversário, usando o Vision Pro. Não é preciso nem testar o produto para saber que isso não é possível, tanto que não se vê pessoas usando-o por aí. Em minha experiência com o Vision Pro, relatada em outro post, ficou claro que, até para uso interno, o headset da Apple é cansativo e incômodo. Essa impressão é totalmente diferente da do Meta Display: ele pode ser parte do seu dia a dia. Ao usá-lo, várias pessoas o confundiram com tradicionais óculos “de grau”.

Todas as versões vêm com lentes transition, mas ele demora um pouquinho para escurecer quando muda para um ambiente externo. Além disso, depende dos raios ultravioleta para escurecer — isso significa que ele se manterá transparente ao usá-lo na maior parte dos veículos. Caso você use lentes corretivas, é possível enviar a receita previamente na encomenda e pegar os óculos já personalizados. No entanto, diferente do Ray-Ban Meta, não é possível que essa alteração seja feita posteriormente.
Uso geral e Neural Band
Em seu uso mais amplo, o Meta Ray-Ban Display tem uso exatamente igual ao Ray-Ban Meta (Gen 2): foto, vídeo, som, ligações telefônicas, interação com a Meta AI (que permite perguntas relacionadas ao que você está vendo), integração com Stories…
Além do elemento mais famoso, o pequeno display — do qual falarei mais à frente —, a grande sacada da Meta foi a Neural Band. Com design discreto e elegante, ela é composta por diversos sensores que ficam bem justos no pulso. Seu uso é intuitivo e espontâneo. Toques suaves e discretos garantem a perfeita interação com o display. Nada de gestos no ar e toques no vento. Você pode fazer os movimentos com a mão abaixada, embaixo de uma mesa de reuniões, por exemplo, ou mexendo seu braço naturalmente em uma caminhada.

A pulseira é uma grande vantagem em relação às versões mais simples. Não é preciso dar um comando de voz ou tocar o óculos para uma foto ou um vídeo. Basta um simples movimento para operá-lo. Tirar fotos ou vídeos com ele é muito fácil, natural e confortável, além de evitar aquele “modo turista”, apontando o iPhone para todos os lados.
Minidisplay
Talvez o grande hype do novo item da Meta seja o seu minidisplay. A lente direita dos óculos traz uma tela colorida de 600×600 pixels. A intensidade da luminosidade pode ser aumentada ou diminuída, sendo que apenas com o máximo de cor é possível que ela seja visualizada externamente.
Confesso que o display é melhor do que eu imaginava. Tive a oportunidade de testar rapidamente o Google Glass e estava esperando algo semelhante, mas ele é bem superior. Definição de cores, posição e visualização são muito boas, considerando as limitações técnicas e o tamanho. Toda a interação com a tela é feita via gestos da Neural Band, o que deixa tudo fácil e intuitivo.
Para quem olha de frente, é possível ver que o usuário está olhando para baixo — não é totalmente imperceptível o movimento —, mas também não chama atenção. As pessoas vão notar que você está prestando atenção em outra coisa ou vão deduzir que você tem algum desvio de visão.
O ponto da virada que o display traz de vantagem em relação ao Gen 2 é o feedback da câmera. No Ray-Ban Meta (Gen 2), você não tem como ajustar ângulo e posição das fotos previamente, precisa tirar as fotos e depois conferir no aplicativo no celular. Já com o Meta Display, você vê exatamente o que vai fotografar ou filmar, permitindo, inclusive, dar zoom. Esse recurso aumenta bastante a praticidade de utilização e a qualidade das fotos e dos vídeos.
Além disso, ele interage também com o Meta AI. Por exemplo, em uma livraria, eu perguntei a ela sobre um determinado livro. Além de me trazer um breve resumo dos pontos principais, também me mostrou a capa no display e o anúncio na Amazon.
Utilidade e aplicação
A pergunta que não quer calar: ele serve pra quê? Embora seja uma grande evolução em relação ao Ray-Ban Meta (Gen 2), o uso constante efetivo do Meta Ray-Ban Display é bastante questionável. Para alguns usos específicos, ele é fantástico. Além do uso para captação de fotos/vídeos e postagem em Stories, bastante útil para influencers e criadores de conteúdo digital, o uso “turístico” também é muito bom. Um passeio por novos lugares, cidades e paisagens será, com certeza, mais facilmente registrado que utilizando a câmera do celular, especialmente para lances rápidos.
No meu caso, uma outra aplicação muito útil foi assistir a aulas e palestras. É possível fotografar a apresentação de slides, filmar pequenos trechos e registrar detalhes para conferência e arquivo futuro. Obviamente, isso deve ser feito com autorização do professor/palestrante e os óculos têm um mecanismo de disclaimer: todas as vezes que você está fotografando ou filmando, ele acende um pequeno LED frontal, como um aviso que o momento está sendo gravado.
Outro recurso que merece destaque são os mapas. Você pode pedir para ser guiado a determinado local e a Meta AI vai montar a rota e mostrar no display, assim você pode ver o mapa demarcando o caminho enquanto se dirige ao destino. Por razões de segurança, ele só funciona para deslocamento por caminhada (não está disponível para uso dirigindo o carro).
Além dos usos relacionados à câmera, ainda existem outra aplicações profissionais, como as ligações de áudio (e até de vídeo, compartilhando o que você estiver vendo na câmera), fones de ouvido e acompanhamento de notificações. É possível ler mensagens do WhatsApp ou Messenger — um recurso útil caso você esteja em uma reunião e não queira demonstrar desatenção ao olhar frequentemente o celular. Também é possível enviar e receber mensagens pelo Instagram e postar Stories, nos quais aparecerá uma indicação de que o post foi feito via óculos.

Limitações
Muitas são as limitações. Começando pela mais evidente de todas: só é possível usar aplicativos da própria Meta. Emails, mensagens de outros apps, visualização rápida de um pequeno documento ou outros usos comuns de um smartphone ainda não são possíveis. Isso traz uma grande restrição para o uso profissional. Além disso, embora os fones de ouvido funcionem bem e discretamente, em uma conversa com áudio um pouco mais elevado é possível que a pessoa a seu lado ouça a conversa, diminuindo a privacidade.
Mesmo nos apps da Meta, existem restrições. Não é possível visualizar o feed do Instagram, por exemplo. Não sei se por ignorância minha, mas o WhatsApp Business não funcionou bem, desconectando a todo momento — apenas o WhatsApp pessoal que funcionou constantemente conectado. É possível responder mensagens por áudio ou texto ditado, ou seja, não existe nenhum modo de digitação — é impossível enviar uma resposta silenciosa.
Uma coisa boba, mas muito irritante: não é possível silenciar o som de foto. Todas as vezes que você tira uma foto, ele emite um som como se fosse uma câmera fotográfica, semelhantemente a outros aparelhos. A grande questão é que não é possível silenciar esse ruído. Como o barulho fica bem no ouvido, com em um fone, após algumas fotos ele começa a incomodar. Após uma tarde assistindo a aulas e registrando tópicos, eu já estava até com dor de cabeça.
Conclusão
Sem dúvida foi um avanço corajoso e marcante. Deixando grandes players de hardware (como Apple, Samsung e Google) para trás, a Meta deu um passo grandioso e provocou o mercado. O minidisplay e a Neural Band fazem uma grande diferença na utilização do Meta Ray-Ban Display.
Os recursos justificam os US$350 que ele custa a mais que o Ray-Ban Meta (Gen 2)? Depende. Se você vai usar apenas para fotos ocasionais e escutar algo, não. Se quer acompanhar notificações, tirar fotos mais precisas e utiliza bastante os mapas para caminhar, sim.
Em minha opinião, alguns passos precisam avançar:
- Aparelhos mais leves e confortáveis.
- Compatibilidade com um maior número de apps.
- Possibilidade de usar eSIM, como no Apple Watch — que permitiria a utilização do óculos sem ter o celular junto.
- Opção de aumento do tamanho da tela.
- Expansão para as duas lentes.
- Espelhamento para outros aparelhos.
Esses são alguns itens que fariam uma grande diferença e começariam a transformá-lo em um concorrente dos smartphones. Sinceramente, eu não acredito que será a Meta a revolucionar de fato o mercado de wearables. Talvez seja o lançamento de Ive e Altman, talvez as apostas de Apple e Samsung ou ainda o Google. Mas a empresa de Zuckerberg estabeleceu um importante marco no caminho da inovação disruptiva.