Eu tenho uma certa implicância com apps que tentam fazer coisas demais.
Não é exatamente uma regra escrita em pedra, mas é uma preferência que aparece em várias decisões do meu dia a dia. Gosto de ferramentas pequenas, previsíveis e especializadas. Gosto de saber onde cada coisa começa e termina. Gosto da velha ideia, associada à filosofia Unix, de que programas deveriam fazer uma coisa só, fazê-la bem e, quando possível, conversar bem com outros programas.
Isso sempre fez muito sentido para mim, talvez porque eu seja programador. Quando você passa boa parte da vida montando fluxos de trabalho com terminal, scripts, editores de texto, atalhos e APIs 1, é difícil não desenvolver uma espécie de alergia a aplicativos que prometem resolver tudo. Em geral, “tudo” acaba significando “um monte de coisas mais ou menos”.
E, ainda assim, eu usei o Alfred por 15 anos.
Vídeo: Alfred — um canivete suíço para o seu Mac
Rafael Fischmann20/02/2020 • 19:00Não só usei: dependi dele diariamente. Dezenas de vezes por dia. Para abrir apps, buscar coisas, acessar histórico de clipboard, expandir snippets, fazer contas rápidas e executar pequenos comandos do sistema. Ou seja: exatamente o tipo de app que, numa leitura rígida da filosofia Unix, eu deveria olhar com desconfiança.
Bom, eu olho mesmo. Mas a história é um pouco mais interessante do que isso.
Onde o macOS deixa a desejar
O macOS é um sistema excelente em muita coisa, mas ele tem uma coleção curiosa de pequenas ausências. Não são buracos enormes. São fricções pequenas, quase bobas, que aparecem tantas vezes ao longo do dia que acabam virando parte do custo de usar um Mac.
O histórico de clipboard é um bom exemplo. A Apple finalmente adicionou o recurso ao Spotlight no macOS Tahoe 26, mas ele ainda é bem mais simples do que o que apps como Alfred e Raycast oferecem. Antes disso, copiar uma coisa em cima da outra era aceitar que o item anterior tinha ido embora para sempre.

O seletor de emojis nativo também é daqueles recursos que deveriam ser invisíveis de tão confiáveis. Só que, na prática, ele nem sempre aparece quando deveria, nem sempre busca tão bem quanto poderia (inclusive no iOS) e vive naquela zona desconfortável entre “funciona” e “funciona quando quer”.
O gerenciamento de janelas melhorou bastante desde o macOS Sequoia 15, quando a Apple adicionou recursos nativos de organização por bordas, cantos, menu e atalhos de teclado. Mas ele continua sendo um recurso relativamente básico. Há atalhos oficiais, há algumas variações úteis, mas não existe ali a mesma flexibilidade de um app dedicado como o gratuito e open source Rectangle, com opções mais avançadas.
Isoladamente, nenhum desses problemas justifica instalar um app enorme. O ponto é justamente esse: no desktop moderno, a filosofia Unix pura nem sempre “fecha a conta”. Se eu levar a ideia ao pé da letra, instalo um app para clipboard, outro para snippets, outro para janelas, outro para emojis, outro para abrir apps, outro para comandos rápidos, outro para calculadora, outro para contatos, outro para automações pequenas…
No fim, a defesa de ferramentas pequenas pode virar uma gaveta lotada: cada app com seu atalho, seu ícone na barra de menus, suas permissões de acessibilidade e suas próprias esquisitices.
A exceção à regra
É aí que apps como Alfred e Raycast entram numa categoria diferente. Eles não são exatamente apps que “fazem tudo”; eles centralizam muita coisa pequena que o sistema operacional deveria fazer melhor, ou pelo menos de forma mais rápida. Funcionam quase como uma camada acima do macOS: uma interface de comando para ações que estão espalhadas demais, lentas demais ou limitadas demais no sistema.
Essa distinção parece sutil, mas muda tudo. A contradição não desaparece, mas fica mais honesta. Eu continuo preferindo ferramentas focadas. Só que, no contexto de computadores, uma ferramenta focada em ser a minha camada de produtividade pode fazer sentido, desde que seja rápida, estável e não tente sequestrar meu fluxo de trabalho.
Foi por isso que o Alfred ficou tanto tempo no meu Mac! Eu comecei a usá-lo porque o Spotlight é mais lento e era bem menos ambicioso. O Alfred abria apps de forma quase instantânea, aprendia meus hábitos, permitia buscar arquivos, fazer contas, criar snippets e acessar um histórico de clipboard decente. Para quem nunca usou, há um vídeo do MacMagazine apresentando o Alfred como um “canivete suíço” para o Mac, e essa descrição sempre me pareceu justa.
O Alfred também tem uma qualidade que parece sem graça até o momento em que você passa anos dependendo de um app: ele é muito estável. Raramente encontrei bugs sérios. Ele é rápido, não muda de interface toda hora e costuma ser atualizado para acompanhar as versões mais recentes do macOS. Em um mundo em que muitos apps parecem viver numa reforma permanente, isso conta bastante.
O mais importante: o Alfred nunca ficou limitado para mim.
A chance para o Raycast
Eu não migrei do Alfred porque ele parou de atender às minhas necessidades. Migrei por curiosidade e um empurrãozinho do Rafa e do Edu. O Raycast se tornou um dos apps mais populares dessa categoria, muita gente que eu acompanho passou a falar dele, e chegou uma hora em que eu quis saber se estava perdendo alguma coisa. Depois de 15 anos usando o mesmo app, essa é uma pergunta perigosa, porque qualquer mudança parece pior nos primeiros dias. O cérebro já decorou cada atalho, cada reação, cada pequeno detalhe.
Mesmo assim, resolvi fazer o teste direito. Desativei o Alfred completamente e passei a usar apenas o Raycast. Estou há mais ou menos um mês nessa experiência e, até agora, consigo fazer praticamente tudo o que fazia antes.

No meu caso, o uso é relativamente simples: eu abro apps, mantenho um histórico de clipboard com textos, links e imagens, uso snippets o tempo todo, faço cálculos rápidos, busco emojis e coloco o Mac para dormir digitando “sleep”. Não uso automações avançadas pelo Alfred ou pelo Raycast, porque o app Atalhos (Shortcuts) da Apple já me atende melhor nessa parte. Também não encontrei, pelo menos até agora, nenhuma extensão de terceiros que tenha virado essencial para mim.
O histórico de clipboard é talvez o recurso que mais simboliza esse tipo de app. Eu configuro para guardar três meses de histórico, o que tira muita pressão de precisar salvar coisas temporárias e pouco importantes em algum lugar. Um link, um trecho de texto, uma imagem que copiei para mandar depois… tudo fica ali, por um tempo razoável. Assim como no Alfred, o Raycast também trata dados sensíveis com cuidado. Segundo o site do app, o histórico fica criptografado localmente e senhas copiadas de gerenciadores de senha são ignoradas por padrão.
Snippets são outro caso em que eu percebo como essas pequenas automações viram uma espécie de extensão do corpo. Tenho aproximadamente 200 snippets, todos prefixados com ;, organizados em categorias como dados pessoais, textos que uso frequentemente no trabalho, caracteres ASCII (como as setas ←, →, ↑ e ↓), entre outras. É uma daquelas coisas que, depois que entram no fluxo, fica difícil usar qualquer computador sem elas.

Nesse mês de teste, só precisei abrir o Alfred uma vez para consultar algo que eu ainda não tinha no Raycast. Isso, para mim, já diz bastante.
Minhas primeiras impressões foram melhores do que eu esperava. Depois de tanto tempo usando o mesmo app, é muito fácil virar aquele usuário velho e rabugento que reclama de qualquer mudança de posição de botão. Ainda mais num app que eu aciono dezenas de vezes por dia. Mas a adaptação foi bem tranquila.
A coisa que eu mais gostei no Raycast foi o seletor de emojis. Não que tenha mudado minha vida, mas é exatamente o tipo de melhoria que importa. Ele é melhor que o seletor nativo do macOS porque, simplesmente, funciona sempre. O Alfred não tem um equivalente direto a isso. E o mais interessante é que dá para usar o mesmo atalho do sistema, ⌃ control ⌘ command barra de espaço, substituindo completamente a solução da Apple.

No restante, a experiência foi bem equivalente no meu uso pessoal.
Esse ponto é importante porque muita comparação entre apps tenta forçar uma diferença dramática onde talvez não exista. Para mim, não houve um momento de “pronto, isso aqui é claramente melhor”. O Alfred e o Raycast são excelentes no que eu mais uso. A diferença é que o Raycast parece mais moderno, mais flexível e mais preparado para atender a um público maior — principalmente por causa das extensões e da camada de inteligência artificial (IA).
A versão gratuita do Raycast é bastante generosa. Ela inclui praticamente tudo de que eu preciso: clipboard, snippets, calculadora, além de coisas que eu nem uso, como gerenciamento de janelas e literalmente milhares de extensões disponíveis na loja. Existe uma versão Pro, com recursos adicionais como sincronização em nuvem, temas customizados, uso mais amplo de IA e outros extras — mas eu, pessoalmente, não senti necessidade imediata.
Aqui, há uma diferença importante em relação ao Alfred. Recursos que eu considero básicos para o meu uso, como histórico de clipboard e snippets, fazem parte do Powerpack, que é a versão paga do Alfred. Não acho isso injusto: o Alfred existe há muitos anos, tem um modelo de licença claro e oferece inclusive uma licença vitalícia com atualizações gratuitas. Mas, para quem está chegando agora e não quer pagar antes de entender se esse tipo de app faz sentido, o Raycast provavelmente é mais convidativo.
Por ser mais moderno, o Raycast também aposta muito em IA. Há chat, comandos, integração com modelos, ações sobre conteúdo e uma proposta clara de transformar o app numa interface mais inteligente para o sistema e para ferramentas conectadas. Se isso for importante para você, vá de Raycast! No meu caso, eu só testei a Raycast AI e parei. Já uso o app do ChatGPT e o Claude Code no meu fluxo normal, e colocar mais um histórico separado de conversas e respostas acabaria criando mais uma camada para gerenciar.

Visualmente, o Raycast também me agrada mais em quase tudo. A tela de ajustes, a organização das preferências e o acabamento geral parecem mais atuais. A exceção são algumas listas: nelas, ainda prefiro o estilo mais compacto e limpo do Alfred. É uma preferência pequena, mas num app que vive de listas e resultados de busca, pequenos detalhes de densidade importam.


Histórico do clipboard do Alfred (esquerda) e do Raycast (direita)
Há ainda o Raycast Teams, que permite compartilhar snippets, quicklinks e comandos com uma equipe. Eu não testei, mas é uma diferença real para ambientes de trabalho. Até onde pesquisei, não existe algo equivalente no Alfred com a mesma proposta de colaboração integrada.
Nem tudo, porém, foi melhor
O problema mais irritante que encontrei no Raycast está nos snippets. Em alguns apps, como VS Code e Cursor, eles nem sempre são expandidos corretamente. Já tive esse tipo de problema no Alfred e consegui resolver, mas ainda não encontrei uma solução equivalente no Raycast. Para quem usa snippets o tempo todo, isso pesa.
Também me incomoda o fato de o Raycast Pro ser apenas assinatura. Eu entendo o modelo, especialmente considerando a parte de IA e infraestrutura, mas ainda gosto da clareza de uma licença vitalícia, ou pelo menos de pagar novamente só quando sai uma versão maior, como acontece no Alfred. A única coisa da versão paga do Raycast da qual senti falta de verdade foi a sincronização em nuvem, porque uso um MacBook pessoal e um outro de trabalho. Exportar e importar configurações quebra um galho, mas não é a mesma coisa.
Outro detalhe: o Raycast foi um pouco menos esperto que o Alfred para aprender alguns hábitos meus. O exemplo mais claro é o iTerm2. Eu abro o app várias vezes por dia e costumo digitar apenas T, porque, na minha cabeça, é o app de terminal. O Alfred aprendeu esse padrão relativamente rápido; o Raycast, não. Repeti várias vezes, mas ele não pareceu entender a associação. Resolvi criando um alias T nas configurações. É um caso específico e fácil de contornar, mas mostra uma diferença de comportamento.
Também não consegui fazer o Raycast buscar contatos diretamente como eu gostaria. Para isso, preciso abrir a extensão “Search Contacts”. O mesmo acontece ao buscar itens dentro dos Ajustes, algo que o Alfred consegue fazer. Não é grave, mas adiciona etapas onde eu esperava uma busca mais integrada.
E, para quem depende de automações mais complexas, o Alfred ainda parece ter uma vantagem. O sistema de workflows dele é muito maduro e bastante flexível, com recursos que parecem mais difíceis — ou menos naturais — de reproduzir no Raycast. Como esse não é o meu uso principal, não pesou muito na minha decisão. Mas eu não ignoraria isso se estivesse escolhendo uma ferramenta para automações pesadas.


Buscando a letra M no Alfred (esquerda) e no Raycast (direta)
Há também uma zona neutra. Performance e experiência geral são parecidas nos dois apps. Ambos são rápidos. Ambos somem da frente quando você termina a ação. Ambos funcionam como calculadora. Ambos têm pequenos atalhos próprios que você precisa reaprender. No Alfred, por exemplo, apagar um item do clipboard usa delete; no Raycast, o atalho documentado é ⌃ X. Menos intuitivo? Sim. Um problema? Não exatamente.
O Raycast também tem gerenciamento de janelas embutido, algo que o macOS hoje já oferece nativamente, mas de forma mais limitada. Eu ainda uso o Rectangle, mas eventualmente quero testar se faz sentido delegar mais uma função ao Raycast. Essa é justamente a parte que me deixa dividido: quanto mais coisas ele faz bem, mais tentador fica centralizar tudo nele.
Até o design novo do Raycast está nessa de “vamos ver”. A empresa disse que preparou uma grande atualização visual e, até eu fechar este texto, a promessa de lançamento até o fim de abril ainda não havia se concretizado. Mas parece questão de tempo.
A contradição meio que continua
No fundo, meus sentimentos continuam um pouco conflitantes.
Por um lado, eu não gosto da ideia de um app que vira o centro gravitacional de tudo. Sempre existe o risco do “app pato”: anda, nada e voa, mas não faz nada realmente bem. Por outro lado, tanto o Alfred quanto o Raycast são contraexemplos práticos a esse preconceito. Eles fazem muita coisa, sim, mas fazem muita coisa bem. E, mais importante, fazem muita coisa pequena que, somada, reduz atrito de verdade.
Talvez a síntese seja esta: a filosofia Unix continua sendo uma ótima lente, mas não precisa virar dogma. No terminal, faz sentido compor várias ferramentas pequenas. No desktop, às vezes faz mais sentido ter uma camada rápida, confiável e extensível que una pequenas ações espalhadas pelo sistema. Não é abandonar a filosofia; é adaptá-la ao ambiente.
Então, para quem o Alfred ainda faz sentido?
Eu diria que principalmente para quem já usa, já pagou, está satisfeito e não quer gastar tempo reaprendendo um app que, no fim das contas, resolve muitos dos mesmos problemas.
Se você depende bastante de workflows avançados, a resposta também tende a favorecer o Alfred. Ele continua sendo excelente, estável e previsível!
Para quem o Raycast faz sentido?
Provavelmente para a maioria das pessoas que está começando agora. Ele é mais moderno, tem uma versão gratuita muito forte, oferece um seletor de emojis melhor que o da Apple, tem uma loja enorme de extensões e aposta pesado em IA. Para quem nunca usou um app desse tipo, ou para quem nunca comprou o Powerpack do Alfred, eu começaria por ele.
A maior diferença hoje talvez seja mesmo a camada de IA do Raycast. Ela pode ser só um extra para alguns usuários, como foi para mim, ou pode virar o principal motivo para usar o app. Ainda não é o meu caso, mas dá para ver claramente para onde o produto está indo.
Minha escolha
Minha decisão, por enquanto, é deixar o Raycast como app padrão por mais algum tempo. O Alfred não saiu do meu Mac por ter falhado. Saiu porque, depois de 15 anos, eu quis testar se havia uma alternativa melhor para o meu fluxo atual.
Ainda não tenho certeza se o Raycast é melhor em tudo. Mas ele é bom o suficiente para substituir o Alfred no meu dia a dia, moderno o suficiente para me deixar curioso e irritante o mínimo possível para sobreviver ao teste mais difícil: ser usado dezenas de vezes por dia sem me fazer pensar nele.
Para esse tipo de app, talvez esse seja o maior elogio possível.