Em setembro de 2025, com o lançamento dos Apple Watches Series 11, Ultra 3 e SE 2, a Maçã apresentou as notificações de hipertensão.
O recurso em si foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) no dia 11 daquele mês e lançado com o watchOS 26, no dia 15; no Brasil, o recurso foi aprovado no fim do ano passado.
Como funciona?
Disponível em Apple Watches Series 9, 10 e 11, além de Ultras 2 e 3, a tecnologia da Apple não mede a pressão arterial diretamente.
As notificações de hipertensão usam dados do sensor cardíaco óptico para analisar como os vasos sanguíneos respondem aos batimentos cardíacos. O algoritmo atua passivamente, em segundo plano, revisando os dados durante períodos de 30 dias e dispara um alerta caso identifique sinais consistentes de hipertensão — leituras acima dos limites estabelecidos pela American Heart Association (AHA).
Vale notar que, nos ajustes do app Saúde, você pode mudar a classificação entre a Associação Americana do Coração e a Sociedade Europeia de Cardiologia. as quais possuem interpretações um pouco diferentes sobre medições consideradas elevadas e hipertensão, por exemplo. Como eu deixei os meus produtos ajustados para a AHA, tudo neste review será baseado nisso.

A Apple afirma explicitamente que esse recurso não se destina a diagnosticar, tratar ou controlar a hipertensão. Trata-se de um sistema de notificação, e não de um dispositivo médico para monitoramento da pressão arterial. No mais, a própria Apple e especialistas em saúde recomendam consistentemente confirmar qualquer alerta com medições tradicionais de pressão arterial.
Dito isso, eu recebi o primeiro alerta de hipertensão do meu Ultra 2 em 16 de outubro — ou seja, basicamente um mês depois da liberação do recurso. E não foi apenas um, já que recebi outro no dia 15 de novembro. Nesse momento, apesar de nunca ter tido nenhum tipo de problema relacionado a pressão, decidi que investigaria mais a fundo.

Medindo a pressão com o BPM Vision
Gentilmente, a Withings me enviou o BPM Vision, um monitor de pressão sanguínea inteligente, compatível com o app Saúde (Health) e aprovado pela FDA 1 como um dispositivo médico.
Esse é o produto mais recente da Withings para monitoramento de pressão, mas eles contam também com o BPM Connect, que tem uma proposta um pouco diferente e que o Rafa já avaliou.
O BPM Vision tem a qualidade já esperada de um produto da Withings (já falamos de vários deles aqui no site), além de ser muito simples e fácil de usar.
Ao ligá-lo, basta seguir as informações na tela para que o monitor seja emparelhado com o iPhone e se conecte à rede Wi-Fi para transmitir os dados. Tudo é feito pelo app da Withings, pelo qual você faz os acompanhamentos das medições, atualiza o firmware do produto (também possível pelo próprio aparelho), as configurações de rede, entre outras coisas.


Ainda que você armazene as medições no app Saúde e no app Withings — mais sobre os apps abaixo —, o visor do BPM Vision mostra o resultado da medição ali, na hora, junto com o seu batimento cardíaco e uma representação gráfica (baseada em cores, do verde ao vermelho) mostrando o quão boa ou ruim está a sua pressão.

O aparelho suporta a inclusão de até oito pessoas para fazer acompanhamento — além de também ter um modo convidado, para pessoas que não são da sua família e que querem fazer uma medição rápida. Vale notar que os dados de saúde são atualizados automaticamente na conta pessoal de cada usuário dentro do aplicativo.




Além da opção de fazer uma medição normal, o BPM Vision tem uma outra que faz três medições consecutivas 2, apresentando a média delas no final e permitindo que cada resultado individual seja acessado diretamente no iPhone. Essa abordagem, baseada em três medições consecutivas, costuma proporcionar leituras mais precisas e confiáveis, como recomendam alguns médicos.

O monitor vem com um manguito (a parte que você prende no seu braço) padrão, mas você pode adquirir um modelo XL, caso precise de um ainda maior.

Como eu disse, os dados são sincronizados automaticamente (por Wi-Fi) com o app Withings — e, consequentemente, com o app Saúde, caso você permita essa integração entre os apps.
Por fim, a bateria do produto é uma coisa incrível! Eu já fiz mais de 70 medições ao longo das últimas semanas e ela está agora, no momento em que escrevo este review, em 41% — sendo que quando eu tirei o produto da caixa ela estava em 77%, se não me engano. Você recarrega o produto por uma porta USB-C comum, mas a Withings promete até um ano de uso sem necessidade de recarregar — claro, dependendo da quantidade de medições que você faz diária/semanalmente.
App Withings e Saúde
Falando do app Withings em si, ele é muito bonito, com um design bem convidativo. Ao adicionar o BPM Vision nas configurações, o próprio aplicativo tem toda uma seção lhe ensinando a explorar o produto e aprender a usá-lo — tudo isso com suporte ao idioma português.


Eu particularmente prefiro acompanhar os dados das medições pelo app Saúde, mas não por qualquer rejeição ou coisa do tipo ao app Withings, e sim pelo fato de tudo meu estar concentrado no ecossistema da Apple.
A parte legal do Saúde é que, após receber a notificação de hipertensão, você pode configurar um lembrete diário para medir a pressão pela manhã e antes de deitar, por sete dias, justamente para criar esse histórico da sua pressão e identificar melhor se existe mesmo ou não o padrão de uma possível hipertensão.

As informações disponíveis no Saúde me parecem mais simplistas, mostrando de cara os intervalos das medições sistólica e diastólica nos intervalos padrões (dia, semana, mês, seis meses e um ano), com um gráfico embaixo.
O Saúde também informa se a pressão está normal, baixa ou elevada (de acordo com os dias), tem textos explicativos sobre como fazer uma medição precisa e o que é a pressão arterial, além de também ser possível mudar as diretrizes de classificação entre a Associação Americana do Coração e a Sociedade Europeia de Cardiologia, como disse acima.

Ao exportar um arquivo PDF das medições, contudo, você não controla o período. Então, se você quer realmente mergulhar nos dados, sem dúvida nenhuma os gráficos e os relatórios do app Withings são mais interessantes — a começar pelo fato de que você consegue controlar exatamente o período que quer gerar no relatório (mês passado, último trimestre ou intervalo personalizado), coisa que não é possível no Saúde.
Ao adentrar na parte de tensão arterial do app Withings, você tem os dados que podem ser filtrados por semana, mês ou ano, tem de cara as médias sistólica e diastólica, sendo possível também visualizar rapidamente os valores mais altos/baixos já aferidos. Obviamente, você também pode adicionar uma medição manualmente, bem como tem acesso a informações sobre valores das medições, explicação sobre o que é pressão alta, o que fazer para baixar a pressão, entre outras coisas.

Entrando nas definições do dispositivo, você também encontra informações sobre a classificação dos níveis de tensão arterial com base na AHA e na American College of Cardiology (ACC) — obviamente, e você estiver na Europa, os dados serão baseados em outra associação.


A riqueza dos detalhes encontrados no relatório da Withings me chamou bastante atenção. Ambos os apps levam em consideração dados da AHA, mas veja que no relatório da Withings não há nenhuma menção a uma possível hipertensão, enquanto que o relatório do Saúde mostra que há — até por isso houve disparos das notificações. O que explica essa diferença? Sinceramente, pesquisei, conversei com o meu médico e não chegamos a nenhuma conclusão.


Depois de realizar mais de 70 medições e conversar com um médico, não há motivos — pelo menos por enquanto — para eu me preocupar com uma possível hipertensão levando em consideração o meu histórico de doenças, os valores máximos aferidos e a minha média.
O que pode explicar, então, tantas notificações do Apple Watch? E sim, não foram apenas as duas que eu comentei no começo do texto, já que recebi outras em março, abril e maio deste ano.
Entendendo melhor o recurso com base no estudo publicado pela Apple
De acordo com esse paper [PDF] publicado pela Apple — que eu pedi a ajuda do ChatGPT para entender melhor os dados —, a sensibilidade (capacidade de detectar quem realmente tem hipertensão) do recurso foi de 41,2%, enquanto que a especificidade (capacidade de não alertar quem não tem hipertensão) foi de 92,3%.
Na prática, isso significa que:
- Cerca de 41% das pessoas hipertensas receberam notificação;
- Cerca de 59% das pessoas hipertensas não receberam notificação (o chamado falso negativo);
- Cerca de 92% das pessoas sem hipertensão não receberam alerta;
- Cerca de 8% das pessoas sem hipertensão receberam alerta indevido (falso positivo).
A Apple, contudo, deliberadamente priorizou a alta especificidade, ou seja, reduzir os falsos positivos. O paper fala que o ponto operacional do algoritmo foi escolhido para “minimizar falsos positivos” — a Apple preferiu alertar menos pessoas mas fazer com que os alertas fossem mais confiáveis.
O estudo clínico principal contou com 2.229 participantes, mas apenas 1.863 entraram na análise final por possuírem dados suficientes do relógio e do aparelho de pressão de referência.
- Hipertensos detectados: 241 de 585;
- Hipertensos não detectados: 344 de 585;
- Não hipertensos corretamente ignorados: 1.179 de 1.278;
- Não hipertensos alertados indevidamente: 99 de 1.278.
Outro ponto interessante do estudo é que o recurso funciona melhor em hipertensão mais severa. Para hipertensão estágio 2, a sensibilidade sobe para 53,7%; já para estágio 1, ela cai para 29,6%.
Há ainda uma nuance importante sobre os “falsos positivos”: a Apple argumenta que boa parte das pessoas alertadas e que não tem hipertensão formal tinham pressão “elevada” (pré-hipertensão), então o aviso ainda poderia ser clinicamente útil.
Então, levando tudo isso em consideração, é possível que algumas medições levemente elevadas estejam contribuindo para os alertas do relógio, mesmo sem evidências suficientes para caracterizar hipertensão.
O que fazer se receber a notificação de hipertensão?
Pesquisando sobre o assunto, eu gostei muito dessa dica que o David Snow comentou no Cult of Mac: não entre em pânico, mas também não ignore o alerta.
Compre ou peça emprestado um aparelho de medição de pressão arterial para uso doméstico aprovado pela FDA (como o BPM Vision, que eu recomendo bastante) e faça as medições seguindo as recomendações — geralmente sentado e após ter “relaxado” por uns cinco minutos, com os pés apoiados no chão, o braço apoiado na altura do coração e mão aberta, com a palma virada para cima.
Registre as medições de pressão arterial (no Withings ou no Saúde), crie um histórico que pode ser compartilhado com seu médico e marque uma consulta para discutir o alerta e as medições de acompanhamento.