WWDC26: os bastidores da virada da Apple em IA e a última keynote de Tim Cook como CEO

WWDC26: os bastidores da virada da Apple em IA e a última keynote de Tim Cook como CEO

A keynote de abertura da WWDC26 começará daqui a algumas horas, e a edição de ontem da newsletter “Power On”, de Mark Gurman (Bloomberg), trouxe um relato detalhado sobre os bastidores da crise de IA da Apple — e como a empresa tentou sair dela.

No início de 2025, conta Gurman, executivos da Apple se reuniram em uma sala de conferências próxima ao departamento de engenharia de software de Craig Federighi. Estavam presentes vice-presidentes sêniores, o diretor financeiro, o então COO Jeff Williams (hoje aposentado), o ex-chefe de design de interface Alan Dye e Mike Rockwell, o responsável pelo Apple Vision Pro. Tim Cook não estava lá — mas foi Williams quem convocou a reunião.

A pauta era direta: a Apple Intelligence havia fracassado, a renovação da Siri estava prestes a ser adiada mais uma vez, e concorrentes como Google, Meta, Microsoft, OpenAI e Anthropic avançavam em ritmo acelerado. Cook havia perdido a confiança no então chefe de IA, John Giannandrea — que também estava na sala — e o consenso era de que a empresa tinha problemas sérios de cultura, estrutura e liderança na área de inteligência artificial.

O objetivo da reunião rapidamente se tornou formular uma recomendação a Cook sobre como agir.

Logo da WWDC26

Como acompanhar a keynote de abertura da WWDC26 na segunda-feira (8/6)

Eduardo Marques06/06/2026 • 12:00

Rockwell entra em cena

Federighi conduziu boa parte das discussões, mas foi Rockwell quem se destacou. Saindo do lançamento do Vision Pro — um feito técnico, mesmo que um fracasso comercial —, ele se ofereceu para consertar a IA e a Siri da Apple.

Havia, porém, um impasse: Rockwell acreditava estar assumindo a liderança geral de IA da empresa, substituindo Giannandrea e respondendo diretamente a Cook. Federighi discordou: para ele, Rockwell deveria cuidar da Siri, mas ainda dentro da estrutura de engenharia de software, ficando abaixo dele. Rockwell considerou que Federighi não estava levando a IA suficientemente a sério e por isso recuou da proposta — mas, no fim, aceitou o cargo de liderança da Siri sob Federighi.

Giannandrea foi progressivamente esvaziado de suas responsabilidades e deixou a Apple neste ano. Para cuidar dos modelos de IA e pesquisa, a empresa contratou Amar Subramanya, ex-executivo de engenharia do Google e da Microsoft, também respondendo a Federighi.

Mais tarde, Rockwell, Federighi e Eddy Cue fecharam um acordo com o Google para usar os modelos Gemini e a infraestrutura do Google Cloud como base para a nova Siri.

Cook fora do seu estilo

A crise também mudou o comportamento do próprio Cook.

Segundo Gurman, o CEO — historicamente conhecido por delegar decisões de produto a seus liderados — passou a se envolver de forma inédita no roadmap de IA, opinar sobre funcionalidades, tomar decisões unilateralmente e até fazer um discurso de incentivo para toda a empresa.

Nunca, segundo o jornalista, Cook havia se envolvido tanto com um produto em toda a sua gestão.

A última keynote de Cook

Hoje, além de tudo isso, a WWDC26 tem um peso simbólico adicional: deverá ser a última keynote comandada por Cook como CEO. Em setembro, ele passará o bastão para John Ternus. Gurman espera que Cook abra o evento, mas que Federighi seja o protagonista da apresentação — afinal, é ele quem hoje lidera, de fato, a área de IA da Apple. E quem deverá apresentar a nova Siri, segundo o jornalista, é o próprio Rockwell.

A expectativa de Gurman para o que veremos hoje é moderada, mas positiva: a IA da Apple deve sair do patamar “completamente abaixo da média” para algo “adequado” — ainda longe de liderar, mas em uma base mais sólida para o futuro. Combinado com melhorias de desempenho e estabilidade no iOS 27 e nos demais sistemas, isso colocaria a Apple em uma posição razoável no curto prazo, dada a força de sua marca e o pipeline de hardware que vem por aí.