A Ford saiu do Brasil? Entenda como a montadora atua hoje no país

A Ford saiu do Brasil? Entenda como a montadora atua hoje no país

Quando anunciou o encerramento da produção de veículos no Brasil, em janeiro de 2021, a Ford deu fim a mais de um século de fabricação local e deixou a impressão de que estava abandonando o mercado brasileiro. Cinco anos depois, a realidade é mais complexa.

A montadora não produz mais veículos em território nacional, mas segue operando no país de outras formas, com investimento em áreas consideradas estratégicas para o futuro da indústria automotiva, como engenharia, software, ciência de dados e desenvolvimento de novas tecnologias.

Hoje, a Ford mantém dois grandes polos tecnológicos em solo brasileiro. O principal deles fica em Camaçari, na Bahia, onde está instalado um dos nove Centros de Desenvolvimento e Tecnologia da companhia no mundo. O segundo está em Tatuí, no interior de São Paulo, onde funciona o centro de testes responsável pela validação de veículos e sistemas em condições reais de uso.

Em entrevista ao Olhar Digital, Alex Machado, diretor do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford América do Sul, revelou que a operação brasileira praticamente dobrou de tamanho desde o fechamento das fábricas.

“Desde 2021, a gente praticamente dobrou a base na Bahia. Hoje, temos cerca de 1.500 engenheiros e engenheiras trabalhando aqui no Brasil”, afirmou.

Ford saiu do Brasil em duas etapas

Em 2019, a Ford anunciou o fechamento da fábrica em São Bernardo do Campo, em São Paulo, encerrando a produção de veículos pesados no país. No ano seguinte, a unidade foi vendida para a Construtora São José, que tinha planos de transformar o local em um centro logístico.

Já em 2021, fechou as outras três fábricas restantes, finalizando de vez a produção no Brasil. Eram elas:

  • Uma em Camaçari, na Bahia. Foi comprada pela chinesa BYD (o Olhar Digital conheceu a instalação após a mudança de dono);
  • Uma em Taubaté, no interior de São Paulo. Em 2022, foi comprada pela Construtora São José, com planos de transformar o espaço em uma unidade industrial;
  • Uma em Horizonte, no Ceará, que produzia a marca Troller. Ela foi vendida para a Comexport, que terceirizou a fabricação de outros veículos por lá.
Linha de montagem da nova Ranger na fábrica da Ford
Ford mantém fábrica em Pacheco, na Argentina, onde produz a Ranger – Imagem: Ford

Foco na tecnologia

Ao contrário do que acontecia quando o escopo da operação era a manufatura, o trabalho desenvolvido atualmente pela Ford no Brasil está ligado à criação e validação de tecnologias que serão exportadas e utilizadas em diferentes regiões do mundo.

Segundo Machado, a equipe brasileira participa de todas as etapas do desenvolvimento de um veículo, desde a criação de peças até a definição do perfil do consumidor e o lançamento do produto em vários mercados. Uma das principais apostas dos últimos anos foi a ampliação da capacidade de desenvolvimento de software.

  • Segundo a Ford, cerca de 35% das funcionalidades presentes nos veículos da marca em todo o mundo são desenvolvidas por equipes do país;
  • Além disso, engenheiros brasileiros foram responsáveis por aproximadamente 40% das iniciativas globais de redução de custos implementadas pela montadora em 2025.

Entre os projetos conduzidos localmente estão sistemas de atualização remota de software (Over The Air), tecnologias de conectividade, funcionalidades embarcadas e soluções voltadas à otimização de processos produtivos por meio de inteligência artificial.

A Ford também mantém um centro de testes em Tatuí. Enquanto as equipes do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia em Camaçari trabalham no desenvolvimento virtual dos sistemas e componentes, a etapa final de validação e testes acontece na cidade no interior de São Paulo.

O complexo reúne pistas asfaltadas para avaliações de desempenho e durabilidade, áreas off-road destinadas a testes em condições severas e laboratórios especializados em emissões, ruídos, motores, transmissões e análise de componentes.

Segundo Machado, o avanço das ferramentas digitais permite que milhões de simulações sejam realizadas virtualmente antes mesmo da construção de um protótipo. Ainda assim, os testes físicos continuam sendo fundamentais para verificar se os resultados obtidos nos computadores se confirmam no mundo real.

Centro de Desenvolvimento e Tecnologia de Tatuí da Ford
Ford realiza testes em campo no Centro de Desenvolvimento e Tecnologia de Tatuí – Imagem: Ford

A Ford ainda vende carros no Brasil?

O fechamento das três fábricas em 2021 encerrou a produção da Ford no Brasil, incluindo modelos como o Ka e o EcoSport. Agora, a montadora comercializa veículos importados, com foco em picapes e SUVs, além de vans e o esportivo Mustang.

A empresa também mantém uma estratégia de eletrificação no país. Atualmente, oferece modelos como o Mustang Mach-E, totalmente elétrico, e a van E-Transit, voltada ao transporte comercial. A Ford já havia revelado ao Olhar Digital que não tem planos de tornar seu portfólio totalmente eletrificado e que aposta na diversificação para o consumidor.

A estratégia global e regional da Ford é baseada no “Power of Choice” (poder de escolha). Isso significa que a empresa se empenha em oferecer ao cliente a liberdade de escolher entre veículos a combustão, híbridos ou totalmente elétricos, investindo ativamente em todas essas frentes para atender às diversas necessidades e estágios de eletrificação de cada mercado.

Ford

O portfólio atual da empresa no Brasil tem os seguintes modelos:

  • Picapes:
    • Ranger;
    • Maverick;
    • F-150.
  • SUVs:
    • Territory;
    • Bronco Sport;
  • Esportivo/alta performance:
    • Mustang GT Performance;
    • Mustang Mach 1;
    • Mustang Mach-E (elétrico);
  • Vans:
    • E-Transit (elétrica);
    • Transit Furgão;
    • Transit Minibus;
    • Transit Chassi.

Além disso, a montadora confirmou a chegada da Ranger híbrida plug-in na América do Sul em 2027. O modelo terá participação direta da engenharia brasileira e contará com um motor flex desenvolvido localmente, combinando eletrificação com a possibilidade de utilização de etanol e gasolina. A produção será em Pacheco, na Argentina.

A Ford também anunciou a estreia da van elétrica Transit City no final do segundo semestre deste ano.

Mustang Mach-E azul
Mustang Mach-E, versão 100% elétrica do esportivo, chegou ao Brasil no segundo semestre de 2023 – Imagem: Jonathan Weiss/Shutterstock

Nova geração de bateria

Ao OD, Machado também destacou que a engenharia brasileira está envolvida no desenvolvimento de uma nova geração de baterias híbridas da Ford. Segundo ele, a tecnologia será utilizada em grande escala em veículos da marca vendidos em diferentes mercados globais.

O executivo ainda afirmou que a empresa já trabalha com programas de reciclagem para baterias ao final de sua vida útil, uma estratégia que faz parte das metas globais de sustentabilidade da montadora. Isso vale inclusive para os veículos comercializados no Brasil.

A Ford pode voltar a fabricar carros no Brasil?

Por enquanto, não.

Questionado sobre uma eventual retomada da produção local, Machado afirmou que a empresa continua avaliando oportunidades de negócio, mas que atualmente não existe nenhum plano concreto para voltar a fabricar veículos no país.

Segundo ele, a estratégia da companhia está focada em áreas ligadas à tecnologia e engenharia, consideradas fundamentais para a transformação da indústria automotiva. “Hoje, não temos nenhum plano que faz sentido [de voltar a fabricar no Brasil]”, disse.

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