A geração do TikTok ainda joga da mesma forma?

A geração do TikTok ainda joga da mesma forma?

Há alguns anos, passar quatro ou cinco horas seguidas explorando um RPG parecia perfeitamente normal. Hoje, muitos jogadores alternam entre uma partida rápida, um vídeo de 30 segundos, uma mensagem no WhatsApp e outro jogo antes mesmo de terminar uma missão.

Será que a geração do TikTok realmente perdeu a capacidade de manter a atenção, ou os jogos estão simplesmente evoluindo para acompanhar novos hábitos?

Recentemente, entrei em uma fase de desenvolvimento de jogos casuais para a web. Mas descobri que o que era um jogo casual há 10 anos, hoje pode ser considerado mid-core, apenas por possuir um pouco mais de história ou menus para iniciar o jogo juntamente com um pequeno tutorial. Isso já é mais do que suficiente para não engajar o público jovem, que aparentemente está sem paciência para jogar.

O TikTok mudou muito mais do que os vídeos

Quando o TikTok surgiu, muita gente acreditou que ele era apenas mais uma rede social baseada em vídeos curtos. Mas o seu verdadeiro impacto foi muito mais profundo. Ele ajudou a consolidar uma nova forma de consumir conteúdo: rápida, personalizada e guiada por recompensas imediatas.

Em poucos segundos, o algoritmo decide o que mostrar. Se o vídeo não prende a atenção instantaneamente, basta um movimento do dedo para que outro apareça. Esse ciclo praticamente infinito de novidades reduziu o tempo que estamos dispostos a dedicar a qualquer conteúdo que demore a nos conquistar.

Naturalmente, esse comportamento não ficou restrito às redes sociais. Filmes, séries, notícias e, principalmente, os videogames passaram a disputar atenção em um ambiente onde a concorrência não é mais apenas entre produtos semelhantes, mas contra qualquer forma de entretenimento disponível na tela do celular.

Os jogos começaram a responder a isso

A indústria dos games percebeu essa mudança de comportamento rapidamente. Se antes era comum que um jogo levasse horas para apresentar suas melhores ideias, hoje muitos precisam conquistar o jogador quase imediatamente. Não porque as pessoas tenham perdido a capacidade de se envolver com experiências longas, mas porque a concorrência pela atenção nunca foi tão intensa.

Isso pode ser percebido em diversos aspectos do design moderno. Os tutoriais ficaram mais curtos e interativos, as primeiras recompensas aparecem mais cedo e as mecânicas principais costumam ser apresentadas logo nos primeiros minutos. A lógica é simples: quanto mais cedo o jogador entender por que aquele jogo é divertido, maiores as chances de ele continuar jogando.

Essa mudança também explica por que tantos jogos passaram a investir em objetivos de curta duração. Missões rápidas, desafios diários, recompensas frequentes e barras de progresso constantes criam uma sensação contínua de avanço, mesmo em sessões de poucos minutos. Não é por acaso que muitos jogadores conseguem sentir que “fizeram alguma coisa” mesmo quando têm apenas quinze minutos livres.

Curiosamente, os jogos que mais fazem sucesso atualmente continuam sendo enormes. Minecraft, GTA Online, Roblox, Baldur’s Gate 3 e Elden Ring podem consumir centenas de horas. A diferença é que eles aprenderam uma lição importante: antes de pedir cem horas do jogador, precisam convencê-lo nos primeiros cinco minutos.

Mas os jogos longos morreram?

Se a atenção das pessoas está cada vez mais disputada, seria natural imaginar que os jogos longos estão desaparecendo. Mas basta olhar para os maiores sucessos dos últimos anos para perceber que isso está longe de ser verdade.

Elden Ring, Baldur’s Gate 3, The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom, Red Dead Redemption 2 e até mesmo Minecraft continuam oferecendo dezenas, ou até centenas, de horas de conteúdo, e milhões de jogadores continuam dispostos a investir esse tempo.

Nota-se que os jogos supracitados ainda têm foco no público mais velho, então este impacto não necessariamente atingiu a indústria como um todo.

Ainda assim, o que mudou não foi a disposição para viver experiências longas, mas a exigência em relação aos primeiros momentos da jornada. Antes, um jogo podia levar algumas horas para mostrar seu verdadeiro potencial. Hoje, ele precisa convencer o jogador muito mais cedo de que vale a pena continuar. Em outras palavras, não basta ser excelente depois de vinte horas; é preciso ser interessante nos primeiros minutos.

Talvez o maior impacto da geração do TikTok não tenha sido reduzir o tempo que dedicamos aos jogos, mas aumentar a quantidade de opções competindo por esse mesmo tempo. O desafio dos desenvolvedores deixou de ser criar experiências longas e passou a ser conquistar o jogador antes que ele decida abrir outro aplicativo.

O desafio dos desenvolvedores

Imagem: Gerada por IA/ ChatGPT

Criar um bom jogo sempre foi difícil. Hoje, porém, os desenvolvedores enfrentam um desafio adicional: disputar a atenção do jogador em um ambiente onde qualquer distração está a apenas um toque de distância.

Há alguns anos, quando alguém decidia jogar, normalmente permanecia concentrado naquela experiência por um longo período. Atualmente, durante uma mesma sessão, é comum alternar entre o jogo, uma conversa no WhatsApp, um vídeo no TikTok, uma transmissão ao vivo ou uma rede social. Isso faz com que o videogame deixe de competir apenas com outros jogos e passe a disputar espaço com praticamente toda a internet.

Essa realidade influencia diretamente o desenvolvimento. Os primeiros minutos de jogo recebem cada vez mais atenção, as interfaces precisam ser intuitivas, as mecânicas são apresentadas mais rapidamente e o ritmo da progressão é cuidadosamente planejado para manter o interesse do jogador. Não se trata de simplificar os jogos, mas de reduzir as barreiras entre o jogador e a diversão.

Ao mesmo tempo, existe um equilíbrio delicado. Um jogo que busca apenas recompensas constantes pode acabar sacrificando exploração, narrativa e momentos de contemplação. O desafio dos estúdios é encontrar um ritmo capaz de prender a atenção sem abrir mão da profundidade que transforma um bom jogo em uma experiência memorável.

Isso é bom ou ruim?

Como acontece com praticamente toda transformação tecnológica, a resposta não é simples. A influência dos vídeos curtos e da disputa pela atenção trouxe benefícios, mas também criou novos desafios para quem desenvolve e para quem joga.

Por um lado, os jogos modernos costumam ser mais acessíveis. Os tutoriais são mais intuitivos, as primeiras horas de jogo são mais envolventes e a progressão acontece de forma mais clara. Isso reduz a barreira de entrada e permite que mais pessoas aproveitem a experiência sem precisar investir horas apenas para entender as mecânicas.

Por outro lado, existe o risco de que a busca constante por prender a atenção leve a decisões de design excessivamente voltadas para recompensas imediatas. Quando cada minuto precisa oferecer uma nova conquista, um item desbloqueado ou uma barra de progresso preenchida, sobra menos espaço para momentos de descoberta, contemplação e construção gradual de uma narrativa.

Talvez o maior desafio da indústria seja encontrar um equilíbrio. Jogos memoráveis sempre souberam alternar momentos de ação intensa com períodos de exploração, tensão e calma. Se tudo precisa acontecer o tempo todo, corre-se o risco de transformar a experiência em uma sequência contínua de estímulos, sem dar ao jogador tempo para absorver o que está vivendo.

Talvez a geração do TikTok não jogue menos. Ela apenas espera algo diferente. Os grandes sucessos atuais mostram que ainda existe espaço para experiências profundas e centenas de horas de conteúdo, mas conquistar esse tempo tornou-se muito mais difícil. Antes, um jogo disputava atenção apenas com outros jogos. Hoje, ele compete com praticamente toda a internet.

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