Durante séculos, a humanidade olhou para o céu se perguntando se nosso planeta seria uma raridade absoluta. Como a presença de água sempre foi considerada um requisito fundamental para o surgimento e a manutenção da vida, identificar esse elemento em outros mundos aumenta as chances de encontrar ambientes potencialmente habitáveis fora da Terra.

Felizmente, as últimas décadas de exploração espacial transformaram nossa visão do cosmos. O que antes parecia um grande deserto árido revelou-se um lugar surpreendentemente úmido. Graças a telescópios espaciais de ponta e missões robóticas audaciosas, cientistas já detectaram sinais inequívocos de H2O em planetas distantes, luas geladas, asteroides e até ao redor de objetos extremos.
Para entender como essa substância vital molda o espaço, o Olhar Digital preparou uma jornada detalhada por 13 locais fora da Terra onde a presença de água já foi confirmada ou fortemente evidenciada.
Nosso quintal espacial: água em planetas e luas do Sistema Solar
Quando começamos a procurar água, o primeiro lugar para onde olhamos foi o próprio Sistema Solar. Embora a Terra continue sendo o único mundo conhecido com oceanos abertos na superfície, nossos vizinhos escondem surpresas impressionantes debaixo do solo e sob espessas camadas de gelo.
1. Lua da Terra
A presença de água na Lua já não é novidade há pelo menos três décadas. A primeira detecção indireta de gelo nas crateras polares foi feita pela missão Clementine, da NASA, mas a quantidade e a localização exata do recurso sempre foram um mistério.
O cenário começou a mudar com a missão chinesa Chang’e-6, que conseguiu detalhar e mapear esses possíveis depósitos, conforme noticiado pelo Olhar Digital em setembro de 2025. Compreender a distribuição de água no regolito lunar é um passo crucial para o planejamento prático de futuras bases humanas.

A importância da presença dessa água na Lua vai muito além de matar a sede dos astronautas que viverão em bases permanentes. No âmbito do programa Artemis, o recurso, especialmente concentrado no polo sul lunar, é considerado o pilar central para viabilizar a exploração sustentável de longo prazo.
Transportar água da Terra para a Lua é financeiramente inviável por conta do peso, então aprender a extrair e utilizar o que já está lá – conceito conhecido como Utilização de Recursos In Situ (ISRU) – reduz drasticamente os custos e a dependência do nosso planeta.
Ao quebrar as moléculas de H2O, os cientistas conseguem separar o oxigênio para a respiração das tripulações e o hidrogênio, que serve como combustível de foguete de altíssimo rendimento para reabastecer espaçonaves que partirão em direção a Marte. Além disso, a água combinada com o regolito lunar pode ser processada para a criação de materiais de construção, como uma espécie de concreto ou tijolo lunar, capaz de erguer habitats e escudos de proteção contra a radiação cósmica.
2. Marte
O Planeta Vermelho é o destino predileto da busca por vida extraterrestre. Sabemos que Marte já teve rios, lagos e talvez até um oceano em seu passado distante.
Hoje, a água ressurge de forma surpreendente em suas profundezas. Estudos recentes baseados em dados sísmicos sugerem que Marte pode abrigar uma vasta quantidade de água líquida infiltrada nas rochas de seu subsolo. Esse reservatório subterrâneo seria grande o suficiente para cobrir todo o planeta.
A descoberta foi feita a partir de tremores registrados pela sonda InSight, aposentada pela NASA em 2022. Ao analisar como essas ondas sísmicas viajaram pelo interior do planeta, os cientistas conseguiram “escanear” a crosta marciana. O sinal revelou uma camada de rocha fraturada, impregnada de água líquida, localizada entre 11,5 e 20 km de profundidade. Foi a primeira vez que se encontrou uma evidência tão direta de água em estado líquido por lá, e não apenas na forma de gelo polar.
Essa enorme reserva subterrânea traz implicações profundas para a astrobiologia e a futura presença humana. Embora a extrema profundidade torne o acesso direto a essa água um desafio tecnológico colossal para as primeiras missões colonizadoras, o ambiente preservado e protegido da radiação solar torna essas fraturas rochosas o lugar mais promissor do planeta para a busca de vida microbiana remanescente.

Em entrevista ao programa Olhar Espacial em 23 de agosto de 2023, Larissa Santos, doutora em astrofísica pela Universidade de Roma Tor Vergata, na Itália, destacou que o volume surpreendeu os próprios pesquisadores. “No artigo, eles falaram que essa quantidade de água é maior do que a prevista pelos modelos para esse hipotético oceano de Marte no passado. A ideia, então, é que hoje haveria mais água em Marte do que no passado, quando esperávamos que ele fosse coberto por rios, lagos e oceanos.”
A descoberta ajuda a responder para onde foi o elemento fundamental da vida quando a superfície secou. Segundo a pesquisadora, em vez de o líquido ter se evaporado por completo ao longo de bilhões de anos, a própria crosta pode ter funcionado como uma esponja. “Uma das possibilidades sugeridas é que, quando Marte perdeu sua atmosfera, em vez de a água ser toda perdida para o espaço, ela acabou sendo absorvida e ficou retida na crosta, a até 20 quilômetros abaixo da superfície.”
Embora a profundidade extrema represente um desafio tecnológico quase intransponível para a exploração humana imediata, o ambiente oferece proteção natural contra a radiação solar. Isso torna essas fraturas rochosas subterrâneas o abrigo mais promissor do planeta para a busca por vida microbiana remanescente.
3. Europa (Lua de Júpiter)
Cobrindo o exterior de Europa, uma das grandes luas de Júpiter, há uma crosta de gelo rígido. Por baixo dessa casca, no entanto, esconde-se um oceano gigante em estado líquido, mantido aquecido pelo calor gerado pelas forças de maré da gravidade de Júpiter.
Pesquisas indicam que a água líquida pode estar situada surpreendentemente perto da superfície, através de cristas e fraturas na crosta gelada. Essa proximidade facilita futuros estudos sobre seu potencial de habitabilidade.

4. Encélado (Lua de Saturno)
Encélado é uma pequena lua brilhante que orbita Saturno, mas seu impacto científico é imenso. Ela abriga um oceano global sob uma camada de gelo e, graças à atividade geológica em seu núcleo, dispara jatos contínuos no espaço.
Em 2023, o Telescópio Espacial James Webb (JWST), da NASA, detectou um jato gigantesco de vapor d’água saindo de fontes termais do polo sul da lua. A pluma de vapor era tão monumental que se estendia por uma distância 20 vezes maior que o diâmetro daquela lua.

Asteroides: os blocos de construção e entregadores de água
Muitas vezes vistos apenas como rochas à deriva, os asteroides são na verdade cápsulas do tempo do Sistema Solar. Eles preservam os materiais originais que formaram os planetas e guardam a resposta para uma pergunta fundamental: de onde veio a água da Terra?
5. Iris e Parthenope
Pela primeira vez na história da astronomia, cientistas conseguiram confirmar a presença de moléculas de água diretamente na superfície de dois asteroides rochosos: Iris e Parthenope.
Conforme noticiado pelo Olhar Digital em 2024, usando dados de observatórios infravermelhos, os pesquisadores identificaram a assinatura química da água ligada a minerais.
Essa confirmação foi alcançada graças aos dados do instrumento Câmera para o Telescópio Infravermelho (FORCAST), instalado a bordo do finado Observatório Estratosférico para Astronomia no Infravermelho (SOFIA), uma missão conjunta da NASA e do Centro Aeroespacial Alemão (DLR).

Ao analisar a luz infravermelha refletida pelos asteroides Iris e Parthenope, os astrônomos conseguiram isolar o comprimento de onda específico que pertence exclusivamente às moléculas de H2O, diferenciando-o da hidroxila (OH). A presença dessa água integrada à matriz mineral – e não apenas evaporada pelo calor do Sol – sugere que esses corpos preservaram material hidratado desde os primórdios do Sistema Solar, reforçando a teoria de que asteroides semelhantes foram os grandes responsáveis por transportar a água até a Terra primitiva por meio de impactos astronômicos.
6. Asteroide Ryugu
As missões de retorno de amostras nos trouxeram certezas incríveis sobre o passado do nosso sistema planetário. Quando a sonda japonesa Hayabusa2 trouxe pedaços do asteroide Ryugu para laboratórios na Terra, cientistas encontraram algo extraordinário: gotas microscópicas de água líquida presas no interior de minerais.
Essa água estava “carbonatada” e retida desde a formação do objeto, reforçando a teoria de que asteroides ricos em carbono trouxeram grandes volumes de água para o nosso planeta – saiba mais aqui.

7. Asteroide Bennu
A missão OSIRIS-REx, da NASA, coletou e trouxe à Terra amostras valiosas do asteroide Bennu. Análises minuciosas do material revelaram uma abundância de minerais alterados pela presença de água, preservando sinais de quando o objeto e seu corpo original começaram a se moldar no início do Sistema Solar.
“Na região onde Bennu se formou, a temperatura não era tão alta – apenas o suficiente para derreter o gelo”, explicou o astrônomo amador Marcelo Zurita ao programa Olhar Digital News. “A água agregou as partículas de poeira, formando uma espécie de argila que preservou praticamente intacta a química da nuvem primordial de onde se originaram os planetas e luas do nosso Sistema Solar”, complementou o especialista, que é presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital.

Exoplanetas e ambientes extremos: vapor d’água no espaço profundo
Saindo da nossa vizinhança imediata e olhando para o espaço profundo, os astrônomos utilizam espectroscopia para identificar a presença de água em atmosferas e em ambientes espaciais extremamente hostis.
8. K2-18b
Em 2019, o exoplaneta K2-18b fez história e estampou as manchetes do mundo inteiro. Localizado a cerca de 110 anos-luz de distância, este mundo é oito vezes mais massivo que a Terra e orbita na chamada “zona habitável” de sua estrela, onde as temperaturas permitem a existência de água líquida.
Cientistas identificaram claramente a presença de vapor d’água em sua atmosfera rica em hidrogênio, tornando-o um dos principais alvos da astrobiologia.
Com a chegada do James Webb, o interesse por K2-18b atingiu um novo patamar. Análises espectroscópicas mais precisas confirmaram a presença de metano e dióxido de carbono em sua atmosfera rica em hidrogênio. Esses dados reforçam a hipótese de que o exoplaneta possa abrigar um vasto oceano líquido sob sua densa camada gasosa, tornando o ambiente ainda mais promissor.

Além disso, os dados revelaram indícios preliminares de sulfeto de dimetila, molécula que, na Terra, é produzida por organismos vivos como o fitoplâncton. Embora essa possível assinatura biológica ainda exija confirmações definitivas por novas observações, o achado coloca K2-18b no topo da lista de alvos na busca por vida extraterrestre.
9. LHS 1140b
Apenas a 48 anos-luz de nós, o exoplaneta LHS 1140b é considerado um dos candidatos mais promissores para abrigar um oceano líquido alienígena. Análises baseadas em dados astronômicos sugerem que este planeta rochoso pode ser menos denso do que deveria, o que se explica caso até 20% de sua massa seja composta por água. Ele pode ter um oceano líquido coberto por uma atmosfera temperada, ideal para o desenvolvimento da vida.

10. GJ 9827 d
Em 2024, o Telescópio Espacial Hubble alcançou um feito impressionante ao detectar vapor d’água na atmosfera do exoplaneta GJ 9827 d.
Com aproximadamente o dobro do diâmetro da Terra, esse foi o menor exoplaneta até hoje onde se confirmou a presença de água na atmosfera. Embora aquele mundo seja quente demais para abrigar vida como a nossa, o achado representa um divisor de águas no estudo de mundos menores e rochosos.

11. GJ 486b
Demonstrando a incrível capacidade de observação do Telescópio James Webb, astrônomos detectaram sinais de vapor d’água perto do exoplaneta rochoso GJ 486b, de acordo com um estudo divulgado em maio de 2023.
O planeta é muito quente e orbita perigosamente próximo de uma estrela anã vermelha. A presença do vapor indica duas possibilidades: ou o planeta conseguiu reter uma atmosfera úmida mesmo sob radiação intensa, ou o sinal vem de manchas frias no próprio disco da estrela.

12. WASP-18b
O exoplaneta WASP-18b, um “Júpiter quente” escaldante, serve como prova de que a água consegue existir até nas condições mais inóspitas do Universo.
Mapeado pelo JWST, esse mundo gigante enfrenta temperaturas que ultrapassam os 2.700°C. No lado voltado para a estrela, o calor extremo destrói constantemente as moléculas de H2O, mas elas voltam a se formar no lado noturno, ligeiramente mais frio. Esse ciclo contínuo demonstra a incrível resiliência química da substância em ambientes extremos.

13. Ao redor de um buraco negro supermassivo
Até mesmo nos locais mais violentos do Universo, a água encontra um caminho para existir. Observações recentes do Webb detectaram a presença de vapor d’água no disco de acreção de um buraco negro supermassivo no centro de uma galáxia distante.
Nesse ambiente marcado por radiação extrema e forças gravitacionais esmagadoras, a molécula de H2O consegue sobreviver no gás aquecido que orbita o monstro cósmico, mostrando que a química da água é extremamente resistente.
“A detecção de água é especialmente empolgante porque demonstra que material molecular pode sobreviver em um ambiente dominado por radiação intensa”, disse Macarena Garcia Marin, coautora do estudo e astrônoma da Agência Espacial Europeia (ESA), em comunicado.
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O que todas essas descobertas significam para nós?
A constatação de que a água está presente em tantas formas e locais diferentes interfere profundamente na nossa compreensão sobre o Universo. Antes, pensava-se que a combinação de fatores que permitiu a abundância de água na Terra era um evento estatisticamente improvável. Hoje, percebemos que o H2O é uma consequência natural dos processos químicos de formação de estrelas, planetas e estruturas galácticas.
Além disso, a presença de água em corpos menores, como os asteroides, pode sugerir como a matéria-prima da vida é transportada pela galáxia. Esses impactos na juventude dos sistemas planetários semeiam mundos rochosos com os compostos básicos necessários para que mares e oceanos se desenvolvam ao longo do tempo.
Quer seja para abastecer bases na Lua e em Marte, quer seja para direcionar os espelhos dos telescópios em busca de assinaturas biológicas pelo espaço, a água continua sendo nosso principal mapa do tesouro na tentativa de responder se estamos sozinhos no Universo.
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