Artemis 2: quais foram os objetivos e avanços científicos da missão?

Artemis 2: quais foram os objetivos e avanços científicos da missão?

A missão Artemis 2 está chegando ao fim — pelo menos no que diz respeito à fase operacional. Todo o trabalho científico realizado a bordo da cápsula Orion começará a ser analisado após o retorno da tripulação.

Mas quando teremos acesso aos resultados dos experimentos realizados pela Artemis 2? De acordo com a NASA, todo o material científico coletado será arquivado e disponibilizado ao público em até seis meses após o pouso da Orion, previsto para esta sexta-feira (10), no Oceano Pacífico. Nesse mesmo período, a equipe também deverá preparar dois relatórios com os principais resultados da missão.

O primeiro abordará o trabalho da própria equipe científica, incluindo sua estrutura e metodologia. O segundo será um relatório científico lunar preliminar, avaliando como a missão cumpriu os dez objetivos científicos definidos antes do lançamento.

“Nosso objetivo era desenvolver os objetivos e maximizar o valor científico desta missão”, disse Kelsey Young, líder da equipe científica da Artemis 2, em coletiva de imprensa. “Faremos uma avaliação inicial ao longo de seis meses e estamos muito ansiosos para ver o que a comunidade será capaz de fazer com esses dados.”

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Imagem impressionante da Terra “se pondo” na superfície lunar, obtida pela missão Artemis 2 – Imagem: NASA

Observação inédita da Lua

Essa é a primeira vez que humanos chegam tão perto da Lua em mais de 50 anos. Diferente da época do programa Apollo, em que a qualidade das câmeras era limitada e a transmissão de dados era difícil, a Artemis 2 oferece uma oportunidade única de observação da Lua.

Durante o sobrevoo histórico, os astronautas capturaram mais de 175 gigabytes de imagens — um volume de dados que começou a chegar à Terra ainda durante a missão, graças a um sistema experimental de comunicação a laser a bordo da Orion.

Em coletiva de imprensa, o administrador da NASA, Jared Isaacman, informou que cerca de 50 gigabytes já haviam sido recebidos até o momento do anúncio. Grande parte desse volume foi transmitida por laser, em um teste que superou as capacidades dos sistemas tradicionais.

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Astronautas da missão Artemis 2 a bordo da cápsula Orion – Imagem: NASA

“Conseguimos transmitir 20 gigabytes em pouco mais de 45 minutos”, disse o diretor de voo Rick Henfling. “Isso é muito mais do que conseguimos com nosso sistema de telemetria em banda S.”

Os dados não se limitam a fotografias. A tripulação também gravou áudio enquanto narrava suas observações da superfície lunar, criando um registro científico de alto valor.

“É um conjunto de dados realmente rico, porque captura as nuances do que a tripulação estava vendo”, explicou Young. “São várias horas de gravações de observações científicas substanciais.”

Young contou que já está analisando as milhares de imagens que já chegaram. “Há algo em cada uma delas que me surpreende. Você pode pensar que, depois de ver centenas de imagens da superfície lunar, eu me cansaria disso. Não me cansei, nem prevejo que isso aconteça.”

Registro de meteoritos na Lua

Após o longo dia seis da Artemis 2, que incluiu a passagem pela lua, a tripulação da missão conversou com o centro de controle após reestabelecerem o contato após o período no lado oculto da Lua. Na conversa, o grupo relatou que testemunhou quatro flashes de impacto distintos na superfície da Lua — fenômenos luminosos causados por pequenas rochas espaciais que colidiram com o satélite natural. Todos os impactos ocorreram no lado visível da Lua, sempre voltado para a Terra, e nas proximidades ou ao sul do equador lunar.

De acordo com Young, houve “gritos audíveis de alegria” entre os cientistas ao acompanharem os dados enviados pela tripulação. A reação foi provocada pela identificação dos impactos na superfície da Lua — algo que não era esperado pela equipe.

Superfície da Lua com destaque para crateras e regiões de sombra
Superfície da Lua vista em detalhe – Imagem: Lukasz Lukasiewicz / Shutterstock

“O moral está muito alto. Fizemos o que nos propusemos a fazer. A equipe de ciência lunar e a tripulação se prepararam extensivamente”, afirmou. Ainda assim, ela destacou que ninguém estava preparado para observar tantos impactos.

A parte médica da Artemis 2

Como detalhado pelo Olhar Digital muito além do simbolismo histórico, a missão foi estruturada para investigar como o corpo humano reage às condições do espaço profundo, especialmente fora da órbita baixa da Terra. Para isso, os próprios astronautas participaram de uma série de experimentos que analisam saúde, desempenho e adaptação em um ambiente extremo. Os dados obtidos serão essenciais para orientar futuras missões tripuladas, incluindo projetos que visam levar humanos a Marte.

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Astronautas da missão Artemis 2 dentro da cápsula Orion – Crédito: NASA

Experimento investiga efeitos da radiação na medula óssea

Um dos estudos realizados a bordo é o AVATAR, sigla em inglês para “Uma Resposta Análoga de Tecido de Astronauta Virtual”, que utiliza tecidos humanos cultivados em laboratório para simular o funcionamento de órgãos. No caso da Artemis 2, o foco está na medula óssea, responsável pela produção de células sanguíneas e fundamental para o sistema imunológico.

As amostras foram desenvolvidas a partir de células dos próprios astronautas, coletadas antes do voo. Isso permite uma análise mais precisa dos impactos da radiação espacial, considerada um dos principais riscos fora da proteção do campo magnético terrestre. A medula óssea foi escolhida justamente por sua alta sensibilidade a esse tipo de exposição.

Após o retorno da tripulação, os pesquisadores irão analisar as amostras em nível molecular, observando como milhares de genes responderam ao ambiente espacial. Os resultados serão comparados com dados da Estação Espacial Internacional (ISS) e com exames realizados nos astronautas antes e depois do voo. A expectativa é aprimorar estratégias de proteção à saúde em missões futuras.

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Representação artística da cápsula Orion sobrevoando a Lua – Crédito: Muratart/Shutterstock

NASA monitora saúde e desempenho em espaço restrito

Outro destaque é a “Pesquisa Artemis sobre Saúde e Preparação da Tripulação” (ARCHeR), que analisa como os astronautas lidam com o confinamento e as exigências do espaço profundo. O interior da Orion oferece espaço reduzido, semelhante ao de um caminhão de mudança (cerca de 9m3), o que pode afetar tanto o bem-estar físico quanto o psicológico da tripulação.

Durante a missão, os astronautas utilizam dispositivos no pulso que monitoram indicadores como estresse, sono, atividade física e desempenho cognitivo. Esses dados ajudam a compreender como a rotina e o isolamento influenciam o funcionamento do corpo e a dinâmica da equipe.

O sistema imunológico também é monitorado. Os astronautas coletam amostras de saliva ao longo do voo, utilizando métodos simples adaptados às limitações da nave. Essas informações serão comparadas com dados anteriores ao lançamento para identificar possíveis alterações causadas pelo ambiente espacial.

Além disso, os cientistas acompanham a possível reativação de vírus latentes no organismo, como os relacionados à catapora e ao herpes-zóster. Esse fenômeno já foi observado em missões anteriores e pode indicar mudanças temporárias na resposta imunológica.

Tripulação da Artemis II
Tripulação da missão Artemis 2: Victor Glover (que vai se tornar a primeira pessoa negra a chegar à órbita da Lua), Christina Kech (a primeira mulher) e Reid Wiseman (os três, da NASA), além de Jeremy Hansen, astronauta da Agência Espacial Canadense. Crédito: NASA – Imagem: NASA

Missão acompanha flutuações de radiação em órbita

A missão também monitora a exposição à radiação de forma geral, um dos principais desafios das viagens espaciais além da órbita terrestre. Diferentemente da ISS, a Artemis 2 leva seus tripulantes para além da magnetosfera da Terra, onde os níveis de radiação são mais elevados.

Para acompanhar esse cenário, os astronautas utilizam dosímetros individuais, que registram a quantidade de radiação absorvida ao longo do tempo. A cápsula Orion também conta com sensores internos capazes de detectar variações no ambiente.

Esses sistemas permitem identificar eventos como tempestades solares, que podem aumentar rapidamente a radiação. Nesses casos, a tripulação pode adotar medidas de proteção dentro da nave.

Os dados coletados serão analisados em conjunto com informações de pequenos satélites que acompanham a missão. O objetivo é entender melhor como a radiação se comporta no interior da espaçonave e quais são seus efeitos no organismo humano.

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