Estamos no melhor momento para observar Saturno. O gigante gasoso acaba de passar pela oposição, ficando mais próximo da Terra e, por isso, aparecendo mais brilhante no céu.
Para celebrar essa ocasião, o programa Olhar Espacial da última sexta-feira (9) recebeu o astrofotógrafo amador Nyêrdson Ferreira, que exibiu imagens ao vivo do planeta dos anéis diretamente do Sertão da Paraíba – que você pode assistir na íntegra aqui.
A oposição acontece quando a Terra fica entre o Sol e outro planeta – no caso, Saturno. Nessa posição, enquanto o Sol se põe de um lado do horizonte, o planeta surge do lado oposto e pode ser observado durante toda a noite. Além disso, por conta da iluminação frontal com a luz solar, o brilho dos anéis de gelo é intensificado.

Durante o bate-papo com o apresentador Marcelo Zurita, Ferreira explicou que essa posição privilegiada favorece a captação de imagens e reduz a presença de sombras na superfície do planeta. “Quando está oposto, parece que está longe, mas está mais próximo da gente. É o Sol de um lado, a Terra no meio e o Saturno oposto. Então a gente está exatamente de frente pra ele em relação à incidência solar. E nessa fase a gente vê poucas sombras no planeta, por isso que a gente está vendo também os anéis bem brilhantes, no que chamam de Efeito Seeliger”.
Empilhamento digital revela os traços de Saturno
Ferreira, que é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e reside em Cajazeiras, ganhou destaque internacional recentemente após ter uma imagem da Lua selecionada pela NASA como a Foto Astronômica do Dia (APOD) em 25 de julho deste ano.
No programa, ele relembrou o registro dos mares da Tranquilidade e da Serenidade, destacando a técnica da “Lua mineral”, que evidencia a química do solo lunar. Segundo ele, a região mais azulada tem a maior concentração de titânio em relação às outras. “Foi um grande prazer ter sido notado pela Agência Espacial Norte-Americana”.

Para registrar Saturno ao vivo, o astrofotógrafo utilizou um telescópio refletor de 254 mm (10 polegadas) com lente Barlow 4x e câmera planetária dedicada. Ele gravou um vídeo de 120 segundos acumulando mais de 8 mil quadros individuais do planeta. O objetivo dessa técnica é driblar a turbulência criada pelos gases da atmosfera terrestre, garantindo um volume alto de dados brutos que passam posteriormente por softwares de alinhamento e seleção de nitidez.
Ao demonstrar a etapa de pós-processamento utilizando os softwares AutoStakkert! e AstroSurface, Ferreira transformou o vídeo oscilante em um retrato detalhado de Saturno. “O planeta está lá dançando no vídeo por conta de tremores de vento e da própria atmosfera. A gente junta o máximo de frames possível e no empilhamento é como se a gente pegasse uma imagem em cima da outra e tirasse uma média. O tremor e as pequenas variações somem, e a média é a imagem real”, explicou enquanto revelava as bandas atmosféricas de Saturno.
A imagem final mostrou claramente a “Divisão de Cassini”, que é a linha escura que separa os dois anéis mais brilhantes de Saturno, além de faixas de nuvens no meio do planeta. Ferreira e Zurita também abordaram duas curiosidades marcantes de Saturno: seus polos são levemente achatados porque ele gira muito rápido (seu dia dura só 10 horas) e ele é tão leve e gasoso que boiaria na água se existisse um oceano gigante o bastante para colocá-lo dentro.

Especialista mostra registros raros do espaço e dá dicas para quem quer começar
Nyêrdson Ferreira aproveitou a oportunidade para apresentar outros trabalhos marcantes de sua trajetória, como a difícil captura de uma ocultação mútua entre as luas galileanas de Júpiter, quando a lua Calisto encobriu Io. “O que vocês estão vendo aí é uma lua passando em frente a outra, esse evento é chamado de ocultação mútua. A cada seis anos o plano orbital das luas coincide com a visão terrestre. Chega um momento em que a lua simplesmente desaparece por ser ocultada. É difícil demais fazer”.
Ao encerrar a participação, o astrofotógrafo encorajou os entusiastas da astronomia a adquirirem seus primeiros equipamentos de observação, enfatizando a transformação pessoal que o hobby proporciona. “Se você está pensando em comprar um telescópio, pense duas vezes não, compre logo, porque eu me arrependo de não ter comprado antes. Comece de baixo, pegue um telescópio de uns 100 mm e vá estudando. Tenha algo que te permita observar e fotografar, isso vai enriquecer o seu conhecimento e te permitir ser muito mais feliz”.
O programa reforçou o papel relevante da astrofotografia amadora no Brasil, provando como a união de tecnologia acessível e paixão pela ciência permite conectar o público aos mistérios do cosmos.
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