Até onde seria possível “afundar” dentro do Sol?

Até onde seria possível “afundar” dentro do Sol?

Mergulhar no Sol parece coisa de ficção científica, mas a pergunta sobre até onde alguém conseguiria “afundar” dentro da estrela ajuda a explicar como o astro funciona por dentro. Em um exercício teórico, cientistas usam dados de temperatura e densidade para mostrar por que o interior solar é, na prática, um ambiente impossível para qualquer forma de vida ou tecnologia conhecida.

Antes mesmo de chegar perto da superfície, existe outro desafio: o movimento da Terra. Segundo a NASA, o planeta se desloca a cerca de 67 mil milhas por hora, quase totalmente de lado em relação ao Sol. Para alcançá-lo, uma nave precisaria “cancelar” essa velocidade lateral, algo que só seria possível com manobras complexas e ajuda gravitacional de outros planetas.

O movimento da Terra é um desafio para o “mergulho” ao Sol (Imagem: Michelangelus / Shutterstock.com)

Temperaturas extremas em cada camada

O calor é o primeiro obstáculo evidente. A agência espacial norte-americana explica que o núcleo do Sol é a região mais quente, com temperaturas que passam de 27 milhões de graus Fahrenheit (15 milhões de graus Celsius). Já a parte que chamamos de superfície, a fotosfera, é relativamente mais “fria”, em torno de 10 mil graus Fahrenheit (5.500 °C).

Um dos maiores mistérios do Sol aparece na região externa. A corona, que forma a atmosfera solar, fica ainda mais quente à medida que se afasta da superfície, chegando a cerca de 3,5 milhões de graus Fahrenheit (2 milhões de °C), superando em muito a fotosfera.

sol
Calor do sol é, obviamente, o primeiro obstáculo (Imagem: Mr.alien001 / Shutterstock.com)

Onde a densidade começa a barrar a descida

Mesmo em um cenário imaginário com um traje capaz de suportar essas temperaturas, a densidade do material solar impõe um limite. A NASA aponta que a densidade do núcleo é de cerca de 150 gramas por centímetro cúbico, aproximadamente oito vezes a densidade do ouro e 13 vezes a do chumbo. Nessas condições, “afundar” até o centro seria fisicamente impossível.

Na corona, por outro lado, a densidade é extremamente baixa, em torno de 10⁻¹⁶ g/cm³, muito menor do que a da atmosfera da Terra. Isso significa que, teoricamente, seria fácil atravessar essa camada e seguir em direção às regiões internas, incluindo a zona de convecção.

A densidade do núcleo do Sol é oito vezes a do ouro, segundo a NASA (Imagem: Phawat / Shutterstock.com)

A zona radiativa e o ponto de flutuação

A surpresa aparece na zona radiativa, uma camada profunda onde a densidade varia de forma intensa. Humanos têm densidade próxima à da água, cerca de 1.000 kg/m³, e é justamente ali que o material solar atinge valores semelhantes.

De acordo com a NASA, nessa região os fótons — partículas de luz — levam até um milhão de anos para atravessar o material denso, devido às incontáveis colisões. A densidade cai de cerca de 20 g/cm³ na parte inferior para 0,2 g/cm³ no topo, enquanto a temperatura desce de 7 milhões de °C para cerca de 2 milhões de °C.

É aproximadamente na metade da zona radiativa que a densidade se igualaria à da água. Esse seria o ponto em que alguém, em teoria, começaria a “flutuar” dentro do Sol, sem conseguir afundar mais.

Leia mais:

Ouro, plasma e o limite final

A partir desse ponto, o material se torna cada vez mais denso, até atingir valores comparáveis aos do ouro. Assim como não é possível nadar em metal sólido, também não seria viável atravessar um plasma extremamente quente e denso. A ideia popularizada em histórias de personagens que “nadam” em ouro não se aplica à física real — e muito menos ao interior de uma estrela.

O exercício, ainda que hipotético, ajuda a ilustrar como temperatura e densidade moldam a estrutura solar e por que o Sol continua sendo um dos ambientes mais extremos conhecidos pela ciência.

O post Até onde seria possível “afundar” dentro do Sol? apareceu primeiro em Olhar Digital.