Quase 80 bilhões de transações via Pix ocorreram em 2025. É o que revela o Relatório de Gestão divulgado pelo Banco Central (BC) nesta semana. E há um detalhe importante por trás dos números. Segundo a instituição, a infraestrutura central do Pix nunca sofreu um ataque bem-sucedido. Isso significa que: 1) a rede gerenciada pela autoridade monetária permanece intacta; e 2) as fraudes ocorrem fora dela.
Em entrevista ao Olhar Digital, o CTO da Vultus, Rodrigo Gava, aponta que o documento do BC deixa essa divisão clara. “A superfície de ataque está nos dispositivos, aplicativos, credenciais, APIs, iniciadores de pagamento, intermediários e participantes que operam nas bordas dessa infraestrutura”, explica o especialista em cibersegurança.
O combate a contas-laranja e o ‘pente-fino’ do BC
Para entender como os golpes ocorrem, é preciso olhar para a velocidade do próprio ecossistema. Criminosos usam contas legítimas ou abertas com dados de terceiros em diferentes bancos para repassar o dinheiro em questão de segundos. Essa pulverização rápida dificulta o congelamento dos valores antes que eles sejam sacados ou transferidos para outras instituições.
Para combater essa tática, o Banco Central atualizou o Mecanismo Especial de Devolução (MED). Agora, a vítima pode contestar no autoatendimento do aplicativo bancário. Com a mudança, o sistema consegue rastrear e conter o dinheiro mesmo quando ele passa por várias contas em sequência.

“A evolução do MED é especialmente relevante porque passa a seguir a lógica de uma resposta distribuída a incidentes”, observa Gava. “O fraudador usa contas legítimas e a velocidade do próprio Pix para pulverizar o dinheiro. A defesa precisa ter rastreabilidade e capacidade de contenção na mesma escala.”
Na prática, a nova estrutura combina inteligência de dados e alertas automáticos entre os bancos. Quando uma notificação é gerada, o sistema marca as informações de risco no Diretório de Identificação de Chaves Pix (DICT) e compartilha esses sinais com todo o ecossistema. Isso permite que os participantes identifiquem contas-laranja e bloqueiem movimentações suspeitas com mais agilidade.
Além de focar na recuperação dos valores, o órgão regulador apertou as exigências para fintechs e instituições que operam no Pix. O relatório destaca regras mais rígidas para a concessão de autorizações de funcionamento, além do cumprimento obrigatório de protocolos operacionais de segurança. O objetivo é fechar brechas de entrada em empresas que atuavam com controles mais frágeis.
De acordo com o especialista, essa padronização é indispensável para que falhas individuais não coloquem os usuários em risco. “O endurecimento das regras para participantes também deve ser entendido como gestão de risco de terceiros. Autorização, supervisão e requisitos operacionais mais rigorosos criam um patamar mínimo de segurança nas bordas do sistema, onde controles frágeis podem ser explorados para gerar fraude em massa”, destaca o especialista em cibersegurança.
IA antifraude, filtro de mensagens e a expansão internacional do Pix
Além do combate direto ao roubo de dinheiro, a gestão do ecossistema envolve conter desvios comportamentais que usam os recursos do próprio sistema. O relatório do Banco Central aponta que o campo de mensagens das transferências tem sido usado para veicular ofensas, ameaças e cobranças indevidas.
Para debater alternativas e avaliar possíveis medidas regulamentares para coibir esse abuso, sem comprometer a boa experiência de uso do Pix, o órgão regulador instituiu, em 2026, um grupo de trabalho no âmbito do Fórum Pix.

O BC também planeja desenvolver um indicador de probabilidade de fraude. A ferramenta usaria modelos de inteligência artificial (IA) e machine learning (aprendizado de máquina) alimentados pela base de dados do próprio Banco Central para gerar notas de risco em tempo real.
Apesar de planejado como uma ferramenta poderosa de inteligência de dados, o Banco Central reforça que a decisão final de reter, autorizar ou rejeitar uma transferência continuará sob responsabilidade exclusiva de cada instituição, preservando sua autonomia. E a disponibilização do indicador ao mercado ainda dependerá de calibração do modelo e de avaliações jurídicas sobre o compartilhamento das informações.
O documento do órgão regulador também detalha que os planos de expansão do Pix ultrapassam as fronteiras do país. O relatório destaca os avanços nas discussões para a interligação do sistema brasileiro com plataformas de pagamentos instantâneos do exterior, tanto em acordos bilaterais com outros países quanto na participação de hubs multilaterais. A ideia é permitir remessas e compras internacionais com a disponibilização dos recursos em moeda local em poucos segundos.
O futuro da segurança: Pix por Aproximação, Pix Offline e novas ameaças
O relatório do Banco Central também desenha os próximos anos do Pix com novidades como o pagamento por aproximação, cobranças automáticas recorrentes e a possibilidade de fazer transações sem conexão com a internet. No entanto, a chegada de conveniências também altera a forma como a segurança precisa ser planejada.

Ao retirar a necessidade de abrir o aplicativo do banco e digitar senhas a cada operação, o foco dos riscos cibernéticos muda de lugar. “Pix por aproximação, Pix Automático e o modelo ainda em estudo de iniciação sem internet do pagador ampliam novamente o modelo de ameaças”, avalia Gava.
“Passam a importar a integridade do dispositivo, a segurança das carteiras digitais, o ciclo de vida das autorizações, a proteção das integrações e a detecção comportamental”, acrescenta o CTO.
Para garantir a evolução do sistema sem comprometer a confiança dos usuários, o ecossistema caminha para um novo patamar. E ele envolve acompanhar de perto o resultado prático de cada medida implementada pelas instituições financeiras.
“O próximo passo de maturidade será medir e publicar a efetividade desses controles: tempo de detecção e bloqueio, taxa de recuperação pelo MED, falsos positivos e perdas por volume transacionado”, diz o especialista. “Em cibersegurança, acompanhar cada controle implementado ajuda a entender que o risco efetivamente foi reduzido”, conclui Gava.
O post Banco Central tem um plano para barrar fraudes no Pix – e ele envolve IA apareceu primeiro em Olhar Digital.