Brasil pode lançar astronautas ao espaço? Entenda planos e desafios

Brasil pode lançar astronautas ao espaço? Entenda planos e desafios

O Brasil já teve representantes no espaço em duas ocasiões distintas: a missão profissional do astronauta Marcos Pontes, em 2006, viabilizada por uma parceria entre as agências espaciais brasileira (AEB) e russa (Roscosmos), com treinamento na NASA; e o voo suborbital de Victor Hespanha, em 2022, com a Blue Origin.

A continuidade desses feitos, no entanto, é limitada principalmente pela ausência de um programa nacional de formação de astronautas e pela inexistência de um veículo lançador próprio. 

Victor Hespanha e Marcos Pontes
Victor Hespanha e Marcos Pontes, os dois únicos brasileiros que já estiveram no espaço. – Créditos: Blue Origin (Victor Hespanha) e NASA (Marcos Pontes)

Especialistas divergem sobre a viabilidade de novas missões: enquanto parte do setor aponta obstáculos técnicos e orçamentários críticos, outra parcela aposta em parcerias comerciais como a única via possível para o Brasil retornar à órbita terrestre.

Mais céticos ressaltam falta de sistema de formação de astronautas

Entre os mais céticos quanto a uma retomada próxima de voos tripulados brasileiros está o consultor do Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA), Lucas Fonseca, que afirma que o país não reúne hoje as condições básicas para esse tipo de missão, sobretudo pela falta de um sistema de formação de astronautas. Ele lembra que a experiência nacional sempre foi pontual e sem continuidade como política de Estado.

Lucas Fonseca
Lucas Fonseca, consultor do Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA), diz que o Brasil não reúne hoje as condições básicas para lançar astronautas ao espaço. – Crédito: Lucas Fonseca

Fonseca também aponta a limitação tecnológica como um fator decisivo nesse cenário. “Não temos foguete e está muito longe a possibilidade de termos um foguete que vá ser tripulado”. Mesmo assim, ele admite que há caminhos intermediários possíveis, embora ainda distantes de uma implementação concreta, como a compra de tecnologia ou a participação em missões internacionais. “Seria a ideia, por exemplo, o Brasil comprar uma cápsula e colocar astronautas brasileiros”. No entanto, segundo ele, essas alternativas esbarram na ausência de estrutura e formação adequada.

Seguindo uma linha semelhante, mas com um tom ainda mais enfático sobre o atraso histórico do programa espacial brasileiro, o professor e escritor Rui Botelho, editor do canal Brazilian Space e ex-servidor de carreira da Agência Espacial Brasileira (AEB), avalia que o horizonte para uma missão tripulada própria é bastante distante. 

Botelho contextualiza o problema dentro da trajetória do país, lembrando que o Brasil possui um dos programas espaciais mais antigos do mundo, mas com resultados limitados quando comparado a outras nações que começaram depois. 

Rui Botelho - AEB
Rui Botelho, ex-servidor de carreira da Agência Espacial Brasileira (AEB), não acredita em uma missão tripulada brasileira nos próximos anos. – Crédito: Rui Botelho

Segundo ele, “num curto, médio prazo, em cinco ou dez anos, é impossível”, sobretudo pela inexistência de um veículo de acesso ao espaço capaz de suportar missões humanas. Em sua avaliação, mesmo sob uma perspectiva otimista, “em 30 anos o Brasil não coloca ninguém no espaço”, reforçando a leitura de que o gargalo não é apenas financeiro, mas também tecnológico e institucional.

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Brasil tem caminho possível até o espaço

Em uma perspectiva mais intermediária, Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital, reconhece as limitações atuais, mas vê possibilidades concretas no uso de alternativas comerciais. 

Marcelo Zurita
Para Marcelo Zurita, “uma missão brasileira é uma possibilidade, sim, até para um futuro próximo” – Crédito: Marcelo Zurita

Zurita concorda que o desenvolvimento de uma nave tripulada nacional ainda está distante, mas ressalta que esse não é o único caminho possível. Para ele, “uma missão brasileira é uma possibilidade, sim, até para um futuro próximo”, especialmente se o país optar por contratar serviços de empresas privadas ou integrar missões já existentes. O astrônomo destaca que já não se trata apenas de barreiras de custo, mas de decisão estratégica. “O custo mesmo já não é mais tão alto”, afirma, sugerindo que a viabilidade depende mais de demanda e interesse governamental do que de limitações econômicas absolutas.

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador da estação espacial Habitat Marte, Júlio Rezende, condiciona uma missão tripulada brasileira à criação de estrutura científica e formação específica. Ele argumenta que o país precisaria estruturar um programa específico de treinamento de astronautas e ampliar parcerias internacionais com, por exemplo, a NASA, a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Administração Espacial Nacional da China (CNSA). 

Júlio Rezende, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador da estação espacial Habitat Marte, acredita que o Brasil precisaria estruturar um programa específico de treinamento de astronautas e ampliar parcerias internacionais para lançar missões tripuladas. – Crédito: CAPES

Além disso, Rezende aponta que voos com empresas privadas também seriam uma alternativa viável dentro de projetos científicos bem definidos. Ele reforça que qualquer avanço nesse sentido dependeria de decisão institucional. “A AEB teria que desenvolver um programa de voos tripulados, o que demandaria recursos orçamentários para desenvolver esta atividade”. Ainda assim, não descarta o potencial do país, condicionando o avanço a uma demanda social mais clara por esse tipo de investimento.

Em contraponto parcial às visões mais restritivas, a astrobióloga e especialista em agricultura espacial Rebeca Gonçalves adota uma perspectiva mais otimista, centrada no impacto econômico e social do setor espacial. Para ela, a possibilidade de novas missões existe, mas depende diretamente de investimento público e conscientização da sociedade.

Rebeca reforça que o setor espacial não deve ser visto como gasto, mas como investimento estratégico, afirmando que “cada dólar investido no setor espacial retorna cerca de 10 dólares para a sociedade”. Ela destaca ainda o impacto em inovação, saúde e economia, destacando que o setor envolve muito mais do que exploração tripulada. “Cerca de 99,9% do setor envolve ciência, pesquisa, desenvolvimento de tecnologia, inovação e retorno econômico e financeiro”. Na sua avaliação, o Brasil poderia realizar uma missão tripulada própria até 2035, desde que haja decisão política consistente e aumento de investimentos.

Rebeca Gonçalves, astrobióloga e especialista em agricultura espacial, vê com otimismo a possibilidade de o Brasil lançar astronautas ao espaço – Crédito: Rebeca Gonçalves

Como vemos, enquanto parte dos especialistas considera o cenário brasileiro distante de uma capacidade autônoma de voos tripulados, outros enxergam caminhos viáveis no curto e médio prazo – ainda que dependentes de vontade política, investimento contínuo e inserção mais ativa do país no ecossistema espacial global.

A viabilidade de futuras missões espaciais brasileiras não depende, necessariamente, do desenvolvimento de foguetes próprios, mas de uma estratégia capaz de combinar planejamento, investimento e cooperação. Ao despertar o interesse da sociedade e convertê-lo em recursos, parcerias e apoio institucional, o Brasil pode transformar a exploração espacial de uma iniciativa pontual em uma política de Estado sólida, contínua e sustentável. 

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