Caçadores de meteoritos: o mercado milionário das rochas espaciais

Caçadores de meteoritos: o mercado milionário das rochas espaciais

Conforme noticiado pelo Olhar Digital, há cerca de um ano, um fragmento de 24,5 quilos de rocha marciana, catalogado como NWA 16788, foi arrematado por US$5,3 milhões em um leilão promovido pela Sotheby’s.

O valor – astronômico em mais de um sentido – ilustra a transformação de um objeto de estudo geológico em uma das classes de ativos mais exclusivas e voláteis do mercado global. À medida que o interesse pela exploração espacial se intensifica, o mercado de meteoritos deixou de ser um nicho para se tornar um setor altamente capitalizado.

meteorito NWA 16788
O meteorito NWA 16788, que foi arrematado por US$5,3 milhões em um leilão promovido pela Sotheby’s. – Crédito: Sotheby's

Quanto vale um meteorito?

Essa valorização trouxe um desafio crescente: a disputa entre o valor comercial e o potencial científico. Amanda Tosi, química, mestre e doutora em geologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do grupo As Meteoríticas, explica que a raridade é o principal fator de precificação. 

Segundo ela, se um meteorito é comum, como os condritos ordinários ou metálicos, seu valor é menor. “Agora, se você fala de um meteorito lunar, marciano, ou um meteorito raro, como um angrito, esse valor começa a aumentar. Se só tem um dele, é mais caro ainda”.

A precificação, no entanto, é regida por uma lógica de mercado sem regras fixas. Amanda destaca que o valor de um meteorito depende de fatores como a raridade da amostra, o momento da queda e a disponibilidade no mercado. “Não existe um valor amarrado. São vários fatores. Se foi uma chuva de meteoritos, como em Santa Filomena, o valor começa alto e vai diminuindo conforme mais fragmentos são encontrados”, explica a geóloga.

Ela se refere ao episódio ocorrido em agosto de 2020, quando uma chuva de meteoritos atingiu a zona rural de Santa Filomena, em Pernambuco. O evento, que espalhou centenas de fragmentos pelo campo, rapidamente atraiu caçadores, colecionadores e pesquisadores de todo o mundo para o pequeno município. A súbita abundância de material disponível alterou drasticamente a dinâmica de valorização local, exemplificando como o mercado reage ao volume de oferta de uma queda recente.

Meteorito Santa Filomena.
Meteorito Santa Filomena. – Crédito: Diogo Vasconcellos

Falta de conhecimento desvalorizou exemplar raro

Do ponto de vista científico, a identificação vai muito além da inspeção visual. Enquanto o mercado é movido pelo imediatismo das redes sociais, pesquisadores enfatizam a necessidade de cautela. Amanda alerta para os perigos da má orientação: “Se cair na mão de uma pessoa com interesse econômico, ela pode dizer que é um meteorito, ou pior, vender um exemplar valioso por um preço muito barato”. Foi exatamente o que ocorreu com um meteorito marciano encontrado em Socorro (SP), comercializado inicialmente como um condrito comum, o tipo mais frequente, antes de ser revendido no exterior por quase um milhão de dólares.

A especialista diz que o primeiro passo para quem encontrar uma rocha suspeita é consultar especialistas. “A primeira coisa, desconfiou de uma pedra, faça o teste do diagrama que tem na internet, disponível em meteoritos.com.br. Se o resultado indicar que possivelmente é um meteorito, entre em contato com um pesquisador de alguma universidade”, orienta a química.

Em entrevista ao Olhar Digital, Amanda destacou que o cenário no Brasil é marcado por um vácuo normativo. Enquanto a lei não é aprovada, o país opera sob o princípio de res nullius, em que o objeto pertence a quem o encontra. “No Brasil, não tem lei ainda. Nós temos uma comissão que formulou um projeto após Santa Filomena (2020), que permite a venda, mas exige a doação de 20% do material para os institutos estudarem. Mas essa lei ainda não está em vigor”, explica a especialista. 

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Amanda Tosi e suas companheiras do grupo “As Meteoríticas”, Elizabeth Zucolotto e Diana Andrade, pesquisadoras UFRJ que analisaram o meteorito Santa Filomena. – Crédito: Diogo Vasconcellos

Ela acredita que a política proibitiva, adotada por países como a Argentina, é contraproducente. “Nós somos contra políticas proibitivas porque, quando as pessoas encontram, elas tentam contrabandear o material pela fronteira, e ele não fica no território brasileiro para estimular a ciência”.

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Crescimento do mercado clandestino pede medidas protetivas urgentes

Para a ciência, a perda de um exemplar é irreparável. Os meteoritos são os fósseis da formação do Sistema Solar, datados em cerca de 4,56 bilhões de anos. “Eles nos ajudam a entender a formação dos planetas. E nos meteoritos condritos carbonáceos, ricos em água e moléculas orgânicas, já foram encontrados todos os blocos iniciais, como nucleobases, açúcares e aminoácidos, que permitiram que a vida se iniciasse na Terra”, afirma Amanda. Além disso, eles oferecem informações geológicas da Lua e de Marte sem a necessidade de missões espaciais bilionárias.

O mercado clandestino, impulsionado por esses valores, tem crescido proporcionalmente ao interesse público. Exemplos como o meteorito El Ali, na Somália, que possui minerais inexistentes na Terra e foi alvo de sequestro por seu valor inestimável, ilustram a urgência de uma legislação clara. “O mercado paralelo está se expandindo, o que mostra o quanto esse setor está crescendo e abrindo os olhos de vários nichos. Precisamos de leis que ajudem a proteger esses meteoritos como patrimônio cultural científico”, conclui Amanda.

Enquanto a regulamentação não chega, o treinamento do olhar permanece como a principal ferramenta. Seja um agricultor, um estudante ou um entusiasta, qualquer pessoa pode contribuir. Conforme aponta a especialista, o “olho treinado da região” é o melhor detector. “Quando ensinamos as pessoas a reconhecer, elas olham para o chão do dia a dia e percebem que aquela pedra não estava lá ontem. O imã ajuda, mas o nosso maior amigo na caça de meteoritos é o olho”.

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