Celular tijolão e internet discada: como era a tecnologia quando o Brasil ganhou a Copa pela última vez

Celular tijolão e internet discada: como era a tecnologia quando o Brasil ganhou a Copa pela última vez

No dia 30 de junho de 2002, milhões de brasileiros acordaram cedo para assistir à final da Copa do Mundo entre Brasil e Alemanha. A vitória por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo sobre o temido goleiro Oliver Kahn, garantiu o pentacampeonato da seleção e marcou uma geração de torcedores.

Mas aquele Brasil em que o jovem Kaká ainda esperava uma oportunidade para entrar na final era muito diferente do atual quando o assunto era tecnologia. Smartphones ainda não existiam, redes sociais modernas estavam longe de surgir e a internet fazia parte da rotina de uma parcela relativamente pequena da população.

Para quem viveu o início dos anos 2000 — incluindo esta repórter, que tinha 9 anos quando o Brasil conquistou o penta —, a lembrança daquele título costuma vir acompanhada de TVs de tubo, celulares simples e do som característico dos modems discados.

Quando o Brasil ganhou o penta, estar offline era o normal

Hoje, a conexão permanente à internet é algo tão comum que parece difícil imaginar uma rotina diferente. Em 2002, porém, estar offline era a regra para a maioria dos brasileiros.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, mostram que apenas 10,3% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet naquele ano. O computador também estava longe de ser um equipamento presente em todas as casas: somente 14,2% das residências possuíam um aparelho.

Mesmo assim, a rede já começava a ganhar espaço. Segundo levantamento do Ibope eRatings divulgado na época, cerca de 14 milhões de brasileiros tinham acesso à internet em casa. Desse total, 7,6 milhões eram considerados usuários ativos no mês.

Botão de conexão à internet em um equipamento de rede, representando os acessos à internet no início dos anos 2000.
Em 2002, conectar-se à internet ainda era um processo separado da rotina. Para muitos brasileiros, isso significava ocupar a linha telefônica e aguardar a conexão do modem – Imagem: StockPhotosArt / iStock

Embora a banda larga já existisse no Brasil, ela ainda estava longe de ser comum. Em 2002, o país tinha cerca de 695 mil assinantes desse tipo de conexão, segundo a IDC. Para a maioria dos brasileiros, navegar na web ainda significava conectar o modem à linha telefônica, ouvir o famoso ruído da conexão e esperar alguns instantes até que as páginas começassem a carregar.

A conexão discada também exigia certo planejamento: como utilizava a mesma linha do telefone fixo, cada minuto online impedia que outras pessoas da casa fizessem ou recebessem chamadas. Não era raro que muitas famílias reservassem horários específicos para acessar a internet, especialmente durante a noite, quando algumas operadoras ofereciam tarifas mais vantajosas.

Em muitas casas, havia apenas um computador compartilhado entre todos os membros da família. Apenas nos anos seguintes as lan houses ganhariam força como uma importante porta de entrada para a internet, especialmente para quem ainda não tinha computador ou conexão própria.

Se os smartphones ainda estavam há anos de distância, isso não significa que os brasileiros viviam sem celular. Na verdade, a telefonia móvel já passava por um período de forte crescimento impulsionado pela expansão dos planos pré-pagos, que ajudaram a popularizar o acesso ao serviço.

Os aparelhos da época, porém, tinham uma proposta muito diferente da atual. Fazer ligações e trocar mensagens de texto eram as funções mais importantes para a maioria dos usuários. Escrever um SMS, inclusive, podia exigir apertar várias vezes a mesma tecla para selecionar cada letra, uma experiência bem distante dos teclados virtuais e corretores automáticos dos smartphones atuais. Aplicativos, redes sociais, serviços de transporte, vídeos sob demanda e pagamentos digitais ainda não faziam parte da rotina.

Modelos simples da Nokia, Motorola e Siemens estavam entre os mais populares do mercado. Muitos brasileiros que adquiriram o primeiro celular nos anos seguintes ao penta tiveram contato com aparelhos desse tipo, equipados com telas monocromáticas, antenas externas em alguns casos e recursos bastante limitados quando comparados aos dispositivos atuais. Esta repórter lembra com carinho do Nokia 1220, lançado em 2002, um tijolão azul que foi o primeiro celular de muita gente — inclusive o meu.

Coleção de celulares populares dos anos 2000, incluindo modelos da Nokia, Siemens, Motorola, Samsung e Sony Ericsson.
O pentacampeonato aconteceu antes da popularização dos smartphones. Muitos dos tijolões desta imagem sequer haviam chegado ao mercado em 2002 – Imagem: Roman Mykhalchuk / iStock

Registrar momentos do dia a dia também era uma experiência diferente. Embora câmeras digitais já estivessem no mercado, elas ainda estavam longe da popularização vista nos anos seguintes. Como os celulares com câmera não eram padrão, muitas fotos da comemoração do pentacampeonato foram feitas com câmeras analógicas, filmadoras ou equipamentos digitais simples e depois reveladas ou transferidas para o computador.

A diferença fica ainda mais evidente quando se observa o que não existia naquele momento. O primeiro iPhone só seria apresentado pela Apple em 2007, cinco anos depois da conquista brasileira. O Android, sistema operacional que hoje equipa a maioria dos smartphones do mundo, chegaria ao mercado apenas em 2008.

O celular também estava longe de concentrar as funções que desempenha atualmente. Navegação por GPS, aplicativos bancários, compras online e compartilhamento instantâneo de fotos e vídeos ainda não faziam parte do cotidiano da maioria. Quando disponíveis, muitos desses serviços dependiam de um computador conectado à internet.

A Copa era assistida em uma TV de tubo

A forma de acompanhar o futebol também era bastante diferente. A Copa do Mundo de 2002 foi disputada no Japão e na Coreia do Sul, o que obrigou muitos brasileiros a acordarem de madrugada ou nas primeiras horas da manhã para assistir aos jogos da seleção.

Na época, a experiência de acompanhar uma partida estava concentrada quase inteiramente na televisão. As TVs de tubo dominavam as salas dos brasileiros, enquanto as transmissões aconteciam por sinal analógico. A TV digital, que hoje oferece imagens em alta definição e recursos interativos, só seria lançada oficialmente no Brasil em 2007.

Para uma geração inteira de torcedores, as imagens do pentacampeonato ficaram registradas em aparelhos com tela quase quadrada, no formato 4:3, muito diferente das TVs de tela plana e alta resolução que se tornaram comuns nas décadas seguintes.

Televisão de tubo em uma sala residencial, modelo comum em muitas casas brasileiras no início dos anos 2000.
As TVs de tubo dominavam as salas dos brasileiros durante a Copa de 2002, anos antes da popularização das telas planas e da TV digital – Imagem: Yaraslau Saulevich / iStock

Isso não significa que tecnologias mais modernas não existissem. As telas panorâmicas, no formato 16:9, já começavam a ganhar espaço em alguns mercados internacionais e a própria Copa de 2002 contou com transmissões widescreen em determinados países. No Brasil, porém, esses aparelhos ainda eram produtos de nicho e estavam longe da realidade da maioria dos consumidores.

A chamada “segunda tela”, tão presente durante eventos esportivos atualmente, simplesmente não existia. Enquanto hoje é comum assistir a uma partida com o celular na mão, acompanhando estatísticas, comentários e memes em tempo real, em 2002 a atenção permanecia quase toda voltada para a transmissão televisiva.

Os gols do penta não viralizavam em segundos

Quem assistiu à final entre Brasil e Alemanha viu os gols de Ronaldo ao vivo na televisão. Mas a forma de rever aqueles lances era muito diferente da atual.

O YouTube só seria lançado em 2005. Facebook e Orkut surgiriam em 2004. Instagram, WhatsApp, Twitter (posteriormente X) e TikTok demorariam ainda mais para aparecer. Em outras palavras, as coisas não eram tão simples quanto abrir o celular e encontrar instantaneamente os melhores momentos da partida poucos segundos depois de cada lance.

Para rever os gols, a maioria dos torcedores dependia das reprises exibidas pela televisão, dos telejornais e dos programas esportivos. Os vídeos também circulavam pela internet, mas de forma muito mais limitada e lenta do que hoje.

A própria conversa sobre o jogo acontecia de outra maneira. Sem redes sociais modernas, o debate passava por telefonemas, mensagens de texto, salas de bate-papo, fóruns e mensageiros como MSN Messenger e ICQ. Até mesmo o Orkut, que se tornaria um fenômeno entre os brasileiros poucos anos depois, ainda não existia. Os comentários em tempo real que hoje dominam as plataformas digitais estavam longe de fazer parte da experiência de acompanhar uma Copa do Mundo.

Antes do streaming, a diversão passava pelas locadoras

Assistir a filmes e séries também exigia hábitos bem diferentes dos atuais. Em 2002, serviços de streaming não faziam parte da rotina dos brasileiros. A Netflix já existia, mas era uma empresa muito diferente da atual: nos Estados Unidos, seu negócio era o aluguel de DVDs enviados pelo correio. A transição para o streaming só começaria anos depois, em 2007.

Para muitas famílias, a principal forma de assistir a um lançamento fora da programação da TV era visitar uma locadora. As prateleiras repletas de fitas VHS e, cada vez mais, de DVDs faziam parte da paisagem de bairros em todo o país. Escolher um filme significava sair de casa, verificar se havia uma cópia disponível e devolvê-la alguns dias depois.

A transição entre duas gerações de mídia também estava em andamento. Enquanto o DVD ganhava espaço por oferecer melhor qualidade de imagem, menus interativos e conteúdos extras, o VHS continuava presente nas locadoras e nas estantes de muitas famílias brasileiras. Em 2002, não era incomum encontrar filmes e programas sendo lançados simultaneamente nos dois formatos.

A música seguia uma lógica parecida. CDs dominavam o mercado, enquanto o rádio continuava sendo uma das principais formas de descobrir novos artistas e acompanhar lançamentos. Arquivos digitais em MP3 já circulavam pela internet, mas os downloads dependiam de conexões muito mais lentas do que as atuais.

Mais uma vez, a diferença não estava apenas na tecnologia disponível, mas na forma de consumi-la. Hoje, milhares de filmes, séries e músicas podem ser acessados instantaneamente por meio de aplicativos. Em 2002, o entretenimento ainda dependia, em grande parte, de mídias físicas.

A internet era feita de portais, blogs e mensageiros

Muito antes dos feeds infinitos e dos algoritmos que dominam a internet atual, a experiência online dos brasileiros passava principalmente pelos grandes portais.

Em dezembro de 2002, UOL, iG, Globo.com e Terra ocupavam quatro das primeiras posições no ranking dos domínios mais acessados pelos internautas brasileiros, segundo o Ibope eRatings. Para muitos usuários, essas páginas funcionavam como uma verdadeira porta de entrada para a web, reunindo notícias, e-mail, bate-papo, previsão do tempo, entretenimento e mecanismos de busca em um único lugar.

navegadores
A experiência online no início dos anos 2000 passava por portais, blogs, fóruns e mensageiros, em uma internet muito diferente da atual – Imagem: JMiks / Shutterstock

Embora os grandes portais já fossem relevantes, televisão, rádio, jornais impressos e revistas ainda desempenhavam um papel central na circulação das notícias. A velocidade de atualização era muito menor do que a observada atualmente nas redes sociais, e boa parte dos brasileiros continuava acompanhando os principais acontecimentos pelos meios tradicionais.

A comunicação digital também seguia uma lógica diferente. Em vez de grupos de WhatsApp ou mensagens enviadas por redes sociais, boa parte das conversas acontecia em programas como MSN Messenger e ICQ, além das salas de bate-papo oferecidas pelos próprios portais.

Os blogs também viviam um período de crescimento e ajudavam a criar comunidades online em torno dos mais diversos temas. Antes de influenciadores digitais, criadores de conteúdo e vídeos curtos dominarem a internet, muitos usuários compartilhavam opiniões, relatos pessoais e descobertas em páginas atualizadas manualmente.

A experiência de navegação era menos guiada por algoritmos e mais baseada na escolha ativa do usuário. Em vez de abrir um aplicativo e receber uma sequência interminável de recomendações, era preciso decidir quais sites visitar, quais fóruns acompanhar e quais páginas adicionar aos favoritos do navegador.

Um mundo muito menos conectado

O Brasil que comemorou o pentacampeonato em 2002 já começava a viver sua transformação digital, mas ainda estava longe da realidade atual. A banda larga engatinhava, os celulares eram usados principalmente para chamadas e mensagens de texto, e a internet alcançava apenas uma parcela limitada da população.

Muitas das tecnologias que hoje parecem indispensáveis já existiam em alguma forma, mas ainda estavam restritas a poucos usuários. Outras, como smartphones, redes sociais modernas, streaming e pagamentos instantâneos, sequer haviam surgido.

Nem toda a transformação digital brasileira, porém, ainda estava por vir. Enquanto a internet chegava a apenas uma pequena parcela dos lares, o país já utilizava urnas eletrônicas em escala nacional. A eleição presidencial de 2002 aconteceu dois anos depois do primeiro pleito totalmente informatizado do Brasil, realizado em 2000.

Talvez a maior diferença esteja na relação das pessoas com a conexão. Em 2002, entrar na internet era uma atividade específica, planejada e muitas vezes limitada pelo tempo disponível ou pela linha telefônica ocupada. Mais de duas décadas depois, estar conectado se tornou o padrão — e acompanhar uma Copa do Mundo também nunca mais foi a mesma experiência.

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