SpaceX e Blue Origin avançam com projetos para levar centros de processamento de dados à órbita terrestre, enquanto seguradoras avaliam como cobrir uma infraestrutura que ainda não possui histórico suficiente para permitir cálculos confiáveis de risco.
As iniciativas, apresentadas em 2026, envolvem constelações de milhares de satélites destinadas a concentrar capacidade computacional fora da Terra. Google também pesquisa uma arquitetura semelhante, e a startup Starcloud já colocou em órbita um processador gráfico da Nvidia.
A possível transferência de parte da infraestrutura de inteligência artificial para o espaço abre uma nova frente para o mercado segurador, mas também impõe desafios relacionados a capacidade financeira, regulamentação, precificação e riscos técnicos que podem exigir lançamentos adicionais para reparos ou substituições.
Uma nova classe de risco para as seguradoras

A proposta mais ambiciosa parte da SpaceX. Em janeiro, a empresa apresentou à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos um pedido relacionado a uma constelação que pode chegar a 1 milhão de satélites. A ideia é utilizar essa estrutura para formar um centro orbital voltado à computação de inteligência artificial.
Elon Musk sustenta que a combinação entre energia solar disponível no espaço, redução dos custos de lançamento e aumento das despesas para ampliar a oferta de energia em instalações terrestres pode tornar esse modelo economicamente competitivo. Na avaliação apresentada por ele, essa mudança poderia ocorrer em um horizonte de dois a três anos.
A Blue Origin, empresa espacial de Jeff Bezos, segue uma trajetória semelhante, embora com prazo considerado mais longo. Em março, a companhia apresentou planos para 51.600 satélites destinados a centros de dados em baixa órbita terrestre. Bezos classificou a ideia como viável, mas considerou o prazo de dois a três anos excessivamente otimista.
O movimento não se limita às duas empresas. O Google pesquisa o chamado Project Suncatcher, uma rede interligada de satélites abastecidos por energia solar e equipados com seus chips de inteligência artificial. Enquanto isso, a Starcloud já realizou uma demonstração prática ao enviar para o espaço uma unidade Nvidia H100.
Se esses projetos alcançarem a escala prevista, o valor dos equipamentos instalados fora da Terra poderá atingir centenas de bilhões de dólares. É justamente nesse cenário que surge uma oportunidade potencial para as seguradoras, que teriam diante de si uma nova categoria de ativos de grande valor.
Patton Kline, responsável pela área de aviação e espaço da Marsh nos Estados Unidos, considera que o setor segurador precisa acompanhar essa transformação. A análise apresentada por ele é que empresas concentradas apenas na cobertura de ativos terrestres podem perder uma oportunidade de expansão caso a computação orbital se consolide.
Atualmente, cerca de 30 seguradoras no mundo têm especialização em coberturas espaciais, de acordo com Kline. O mercado movimenta entre US$ 500 milhões e US$ 750 milhões em prêmios anuais, valor que seria pequeno diante da escala necessária para proteger uma eventual infraestrutura orbital avaliada em centenas de bilhões de dólares.
A expansão também poderia apresentar uma característica atraente para o setor: os riscos associados aos ativos espaciais não estariam diretamente ligados a eventos que tradicionalmente afetam instalações em terra, como furacões e terremotos. Ainda assim, ampliar a capacidade de cobertura para uma infraestrutura dessa natureza não seria uma tarefa simples.
O problema de calcular o risco

Andreas Berger, presidente-executivo do grupo de resseguros Swiss Re, aponta que a computação orbital reúne duas áreas que já apresentam forte expansão, a infraestrutura de inteligência artificial e o setor espacial comercial. A combinação, porém, cria lacunas que dificultam a construção de produtos de seguros sustentáveis.
Entre os obstáculos estão a ausência de referências suficientes para medir a frequência e o impacto de determinados eventos, além de dúvidas sobre regulamentação e disponibilidade de capital para absorver perdas de grande magnitude. Para as seguradoras, a dificuldade central está em estabelecer preços sem dispor de modelos suficientemente confiáveis.
Os problemas técnicos ampliam essa incerteza. Equipamentos em órbita estariam sujeitos a falhas durante o lançamento, radiação, defeitos de hardware, dificuldades para controlar o calor e colisões provocadas pelo aumento de detritos espaciais.
Há ainda uma diferença fundamental em relação aos centros de dados terrestres. Uma falha em um equipamento instalado no espaço não poderia ser resolvida simplesmente com a chegada de uma equipe de manutenção. Dependendo do problema, seria necessário organizar um novo lançamento para reparar ou substituir o componente afetado.
O setor segurador, portanto, enfrenta uma situação ambígua. De um lado, a expansão dos centros de dados orbitais pode criar um mercado multibilionário de cobertura. De outro, a falta de regulamentação consolidada, de capital suficiente e de modelos capazes de dimensionar os riscos torna incerta a velocidade com que esse mercado poderá amadurecer.
Para os projetos de computação orbital avançarem, não basta colocar os equipamentos em órbita. Será necessário também estabelecer condições para que investidores, empresas espaciais e seguradoras consigam estimar perdas, definir preços e determinar quem assumirá os riscos de uma infraestrutura ainda sem precedente em escala comercial.
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