Um artigo publicado nesta quarta-feira (20) na revista Proceedings of the Royal Society B revelou que a região de Chernobyl – antiga cidade e atual Zona de Exclusão no norte da Ucrânia marcada pelo pior acidente nuclear da história – acabou se transformando em um importante refúgio para animais selvagens raros.
Em resumo:
- Chernobyl tornou-se refúgio de animais raros após acidente nuclear;
- Região foi estudada com armadilhas fotográficas de mamíferos;
- Zona de exclusão mostrou maior diversidade e abundância de animais;
- Espécies raras como cavalos-de-Przewalski e ursos-pardos prosperaram;
- Redução da presença humana e regeneração ambiental impulsionaram a vida selvagem.
O desastre aconteceu em 1986, quando a usina nuclear de Chernobyl explodiu, espalhando radiação por áreas da atual Ucrânia e da Bielorrússia. Mais de 120 mil pessoas precisaram abandonar suas casas. Na época, especialistas acreditavam que a região permaneceria inabitável por séculos, tanto para humanos quanto para animais.
Quase quatro décadas após a explosão de um dos reatores da usina nuclear, a presença humana praticamente desapareceu da região. Sem atividades como agricultura, caça e urbanização, o ambiente passou a se regenerar de forma contínua, permitindo o avanço da vegetação e o retorno gradual de diversas espécies de animais.

Mais animais e maior diversidade de espécies em Chernobyl
O novo estudo usou armadilhas fotográficas para monitorar a presença de mamíferos na chamada Zona de Exclusão de Chernobyl e comparou os resultados com os de uma reserva natural vizinha e áreas sem proteção ambiental.
Os dados mostraram que a região apresentou a maior quantidade de animais, além da maior diversidade de espécies. O local também registrou o maior número de animais residentes, superando inclusive áreas oficialmente protegidas.
Entre os destaques estão espécies consideradas raras ou ameaçadas, como cavalos-de-przewalski, linces, alces, cervos-vermelhos, cães-guaxinins e ursos-pardos. Em contrapartida, animais mais comuns e adaptáveis, como a raposa-vermelha, apareceram menos do que os cientistas esperavam.
A ecologista ucraniana Svitlana Kudrenko, ligada à Universidade de Freiburg, na Alemanha, principal autora da pesquisa, afirmou ao site IFLScience que os resultados surpreenderam a equipe. Segundo ela, era esperado que as reservas naturais tradicionais apresentassem maior diversidade de espécies, já que possuem regras rígidas de conservação.
Outro ponto inesperado foi o baixo número de registros de raposas-vermelhas. Os pesquisadores acreditavam que a espécie se adaptaria facilmente ao ambiente da região. Porém, as imagens das armadilhas mostraram que a presença desses animais não parecia depender da qualidade do habitat, da distância de estradas ou mesmo da atividade humana nas proximidades.

Espécie rara de cavalo chama a atenção
Os cavalos-de-przewalski chamaram atenção de forma especial. Essa rara espécie de cavalo selvagem chegou a ser considerada extinta na natureza e foi reintroduzida na Ucrânia no final dos anos 1990. Durante o estudo, os pesquisadores registraram mais de mil aparições desses animais dentro da Zona de Exclusão, enquanto nenhum exemplar foi visto fora da área contaminada.
Segundo os cientistas, incêndios florestais ocorridos recentemente podem ter ajudado na recuperação desses herbívoros. As queimadas abriram espaço para o crescimento de nova vegetação, criando áreas mais atraentes para animais que se alimentam de plantas.

O mesmo padrão foi observado com os ursos-pardos. Eles apareceram apenas dentro da região de Chernobyl. Já os cervos-vermelhos foram fotografados milhares de vezes na zona contaminada, mas surgiram em números muito menores na reserva natural vizinha e não foram vistos nas áreas desprotegidas.
Leia mais:
- Lobos de Chernobyl são mais resistentes à radiação e podem ajudar no estudo do câncer
- Fungo de Chernobyl: habilidade deixou pesquisadores intrigados
- Chernobyl: fazendas podem ser cultivadas com segurança; entenda
Radiação não afasta os mamíferos
Apesar da presença de radiação, o estudo não encontrou evidências diretas de que isso esteja afastando os mamíferos. Os pesquisadores lembraram que trabalhos anteriores já haviam mostrado que a distribuição desses animais não parecia relacionada aos níveis de contaminação radioativa.
Alguns animais podem até estar desenvolvendo mecanismos de adaptação. Um estudo divulgado em 2024 indicou que lobos-cinzentos da região apresentam alterações no sistema imunológico semelhantes às observadas em pacientes humanos submetidos à radioterapia. Os cientistas investigam se esses animais desenvolveram mutações capazes de aumentar a resistência ao câncer.
Para os autores, o caso de Chernobyl mostra como a redução da presença humana pode beneficiar ecossistemas inteiros, mesmo em ambientes considerados hostis. O estudo também reforça a importância de áreas protegidas amplas, conectadas entre si e realmente isoladas da interferência humana.
Os pesquisadores defendem ainda que regiões ambientalmente complexas, mesmo perigosas, continuem sendo monitoradas de forma rigorosa. Segundo a equipe, estudos detalhados são essenciais para entender como proteger espécies raras e garantir a sobrevivência da biodiversidade no longo prazo.
O post Chernobyl se tornou refúgio de animais selvagens raros apareceu primeiro em Olhar Digital.