China avança nos chips, mas disputa com o Ocidente levará tempo

China avança nos chips, mas disputa com o Ocidente levará tempo

A China deu um passo importante na tentativa de reduzir sua dependência de tecnologias estrangeiras para fabricar semicondutores. O país iniciou a produção em escala de máquinas nacionais de litografia DUV por imersão, equipamentos essenciais para a fabricação de chips e amplamente dominados pela holandesa ASML.

Na avaliação de Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação, trata-se de “uma das notícias mais importantes no mundo da tecnologia”. Segundo ele, o avanço ganha ainda mais relevância em um momento em que a corrida por chips, impulsionada pela inteligência artificial, transformou esse tipo de equipamento em um ativo estratégico.

Wafer de silício em máquina de fotolitografia usada na fabricação de semicondutores.
Wafer de silício durante o processo de fotolitografia, etapa que permite criar os circuitos dos chips na fabricação de semicondutores – Imagem: IM Imagery / Shutterstock

Embora os novos equipamentos ainda estejam longe de igualar o desempenho das máquinas mais avançadas da ASML, o movimento representa um novo capítulo na estratégia de Pequim para fortalecer sua indústria de semicondutores diante das restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos e pela Holanda.

Por que esse avanço é importante?

As máquinas de litografia DUV (ultravioleta profundo) são usadas para desenhar circuitos em wafers de silício durante a fabricação de chips. Nos sistemas por imersão, uma fina camada de água entre a lente e o wafer permite produzir padrões menores e mais precisos, tornando possível fabricar desde semicondutores convencionais até modelos mais avançados por meio de múltiplas etapas de exposição.

Esses equipamentos ocupam uma posição estratégica na indústria de semicondutores. Nos últimos anos, os Estados Unidos ampliaram as restrições à exportação de tecnologias avançadas para a China, enquanto a Holanda também passou a limitar o envio de máquinas de litografia mais sofisticadas produzidas pela ASML.

Para Arthur Igreja, esse contexto ajuda a explicar a relevância do anúncio chinês. Segundo ele, trata-se de uma tecnologia estratégica em um segmento historicamente liderado pela ASML e que, por causa das tensões geopolíticas, permaneceu por anos fora do alcance da indústria chinesa.

O fato de a China conseguir entrar nesse segmento já é um marco muito importante e pode mudar, no médio prazo, o equilíbrio de forças na indústria de chips.

Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação

A produção das novas máquinas será conduzida pela Shanghai Aishengna Electronic Technology Group, empresa estatal criada em 2023 que reuniu equipes de startups chinesas especializadas em litografia. Segundo a Reuters, a empresa pretende fabricar cerca de cinco máquinas ainda este ano e ampliar esse número para aproximadamente 20 unidades em 2027.

Os primeiros equipamentos devem ser entregues para fabricantes chinesas como SMIC, Hua Hong Semiconductor e ChangXin Memory Technologies (CXMT), criando uma alternativa nacional caso o Ocidente endureça ainda mais as restrições à exportação ou ao suporte técnico de equipamentos estrangeiros.

China ainda está distante da liderança

Embora represente um avanço importante para a estratégia chinesa de autossuficiência, a produção das novas máquinas não coloca o país no mesmo patamar da ASML. Os equipamentos anunciados pela China são do tipo DUV por imersão, uma tecnologia amplamente utilizada pela indústria, mas que já convive com os sistemas EUV (ultravioleta extremo), empregados na fabricação dos chips mais avançados. A própria ASML afirma que as tecnologias DUV e EUV continuam sendo complementares na produção de semicondutores modernos.

Máquina de litografia High NA EUV da ASML em laboratório na Holanda.
Equipamento High NA EUV da ASML em laboratório da empresa em Veldhoven, na Holanda. A tecnologia representa o estágio mais avançado da litografia para fabricação de semicondutores – Imagem: ASML / Divulgação

Mais do que construir uma máquina de litografia, é preciso garantir que ela opere com precisão e confiabilidade em linhas de produção de alto volume. Esse é um desafio que ainda deve levar tempo para ser superado pela indústria chinesa.

Para Igreja, o anúncio deve ser visto como um movimento de médio e longo prazo. Segundo ele, desenvolver uma tecnologia de ponta exige tempo, mas a China já demonstra capacidade de transformar pesquisa em produção em escala.

“Antes eles não tinham nada. Agora já têm algo funcional e, principalmente, uma perspectiva de escala. É a capacidade industrial chinesa entrando em ação. Capital estatal, muita gente pesquisando o tema, cria-se uma startup e rapidamente ganha escala. É por isso que é um movimento de médio e longo prazo”, afirma.

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