Cientistas criam clones fêmeas de camundongos machos com técnica genética inédita

Cientistas criam clones fêmeas de camundongos machos com técnica genética inédita

Uma equipe de pesquisadores do Japão conseguiu produzir fêmeas de camundongos a partir de células de animais machos, em um experimento que combina clonagem e edição genética. O trabalho foi conduzido por cientistas da Universidade de Yamanashi e do Riken BioResource Research Center.

O resultado foi obtido com uma técnica baseada em CRISPR, chamada Y-CUT, capaz de eliminar o cromossomo Y de células masculinas. Os experimentos, realizados em embriões e células clonadas de camundongos, deram origem a animais com apenas um cromossomo X, configuração conhecida como XO.

Divulgado em agosto de 2026 em um preprint ainda sem revisão por pares, o estudo aponta uma possível aplicação para a conservação de espécies ameaçadas. A estratégia poderia ser especialmente relevante em situações nas quais restassem apenas machos de determinada espécie, embora ainda existam limitações importantes para seu uso em outros mamíferos.

Como a técnica pode mudar a clonagem de animais

Ratinho cheirando o ar
Ratinho cheirando o ar (Reprodução: Nikolett Emmert/Unsplash)

A pesquisa partiu de uma característica fundamental dos mamíferos: normalmente, fêmeas possuem dois cromossomos X, enquanto machos apresentam um X e um Y. A equipe liderada por Takashi Ishiuchi buscou interferir nesse sistema retirando o cromossomo Y de células masculinas.

Para isso, os cientistas desenvolveram o Y-CUT, que atua sobre uma região do cromossomo Y relacionada à sua transmissão durante a divisão celular. Quando a ferramenta foi aplicada a embriões de camundongos com cromossomos XY, os pesquisadores conseguiram eliminar o Y antes de transferi-los para fêmeas que serviram como mães de substituição.

Os animais resultantes apresentaram a configuração XO. Conforme os pesquisadores relataram, as fêmeas cresceram normalmente e foram capazes de se reproduzir, uma característica importante para a possibilidade de utilização futura da estratégia.

Em uma etapa posterior, a equipe combinou o procedimento com uma técnica convencional de clonagem. O núcleo de uma célula adulta, que contém o material genético do animal doador, é colocado em um óvulo previamente esvaziado de seu próprio DNA. A partir dessas células clonadas, o Y-CUT foi aplicado para retirar o cromossomo masculino.

O procedimento permitiu gerar fêmeas geneticamente equivalentes aos machos que forneceram as células, com a diferença correspondente à ausência do cromossomo Y. Os pesquisadores também conseguiram repetir a estratégia usando células masculinas que haviam sido congeladas.

Outro resultado ampliou a perspectiva do método: machos e fêmeas produzidos pela técnica conseguiram cruzar e gerar filhotes saudáveis. Para os autores, isso levanta a possibilidade de utilização de amostras preservadas em bancos de material biológico, conhecidos como “zoológicos congelados”, que armazenam células e tecidos de diferentes espécies.

A conservação de animais ameaçados é uma das principais razões apontadas para o desenvolvimento da técnica. A clonagem tradicional consegue reproduzir o material genético de um indivíduo, mas, quando o doador é macho, seus clones também tendem a ser machos. Em uma população formada apenas por machos, portanto, a clonagem convencional não resolveria a falta de fêmeas necessárias à reprodução.

imagem mostra um rato/camundongo olhando diretamente para você
Ratinho dando close (Reprodução: Nikolett Emmert/Unsplash)

A possibilidade de produzir os dois sexos a partir de material masculino poderia ampliar esse repertório. Ben Novak, cientista da organização Revive & Restore, avaliou que a diversidade de ferramentas desse tipo pode ser particularmente útil para diferentes cenários envolvendo espécies raras ou ameaçadas.

O método, porém, está longe de ser uma solução universal. A técnica ainda depende de óvulos sem o próprio material genético, que precisam ser obtidos de fêmeas da mesma espécie ou de uma espécie próxima. Por isso, o procedimento não resolveria situações em que apenas fêmeas sobrevivessem.

Há também uma limitação biológica relacionada aos cromossomos XO. A fertilidade observada nos camundongos favorece a aplicação experimental nessa espécie, mas outros mamíferos com essa configuração cromossômica podem apresentar infertilidade. O texto do estudo destaca que essa diferença reduz a possibilidade de aplicar diretamente o método a outras espécies.

Os pesquisadores avaliam que outras tecnologias poderão complementar o Y-CUT. Trabalhos anteriores já haviam demonstrado a produção de óvulos a partir de células masculinas de camundongos, o que poderia fornecer os óvulos necessários à clonagem. Outra linha de pesquisa citada no estudo busca acrescentar um segundo cromossomo X às células, com o objetivo de recuperar a fertilidade das fêmeas produzidas.

A estratégia também poderia ser combinada com técnicas voltadas ao problema inverso, quando uma população dispõe de fêmeas, mas necessita de machos. Pesquisadores da Universidade de Yamanashi demonstraram recentemente a possibilidade de inserir cromossomos de ratos em camundongos, resultado que, segundo Novak, poderia futuramente contribuir para a produção de embriões XY.

Para Monika Ward, bióloga reprodutiva da Universidade do Havaí que não participou do trabalho, o método também pode ter valor para pesquisas com animais geneticamente modificados. A produção de clones machos e fêmeas de um mesmo animal alterado poderia reduzir tempo e custos de experimentos, além de oferecer uma ferramenta para investigar o funcionamento dos cromossomos sexuais.

O estudo ainda não passou pela revisão por pares, e os próprios resultados mostram que o Y-CUT precisa de outras tecnologias e de condições biológicas específicas para alcançar aplicações mais amplas. Mesmo assim, o experimento abre uma nova possibilidade na clonagem: partir de material genético masculino e produzir indivíduos femininos capazes de participar da reprodução.

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