Como extinção em massa levou à ascensão dos peixes modernos

Como extinção em massa levou à ascensão dos peixes modernos

A primeira grande extinção em massa da Terra, ocorrida há cerca de 445 milhões de anos, não apenas eliminou a maior parte da vida marinha existente como também abriu caminho para um grupo que moldaria o futuro dos oceanos — e, indiretamente, da própria história evolutiva do planeta. Um novo estudo publicado na revista Science Advances mostra que foi esse evento extremo que permitiu a ascensão dos vertebrados com mandíbulas, hoje dominantes entre os animais.

Conhecida como Extinção em Massa do Ordoviciano Tardio, a crise eliminou aproximadamente 85% das espécies marinhas após mudanças bruscas no clima e na química dos oceanos. Segundo os pesquisadores, esse colapso ambiental criou condições únicas para que certos sobreviventes se diversificassem e ocupassem nichos deixados por espécies extintas.

peixe mandíbula
Extinção que eliminou boa parte da vida dos oceanos abriu caminho para os animais com mandíbula (Imagem: Somporn Pramong / Shutterstock.com)

A primeira grande extinção da história da Terra

Durante o período Ordoviciano, entre 486 e 443 milhões de anos atrás, a configuração do planeta era bastante diferente. O supercontinente Gondwana dominava o hemisfério sul, cercado por mares rasos e quentes, sem calotas polares. Esse ambiente favorecia uma biodiversidade marinha rica, formada por trilobitas, moluscos, escorpiões-do-mar gigantes, conodontes semelhantes a lampreias e outros organismos que hoje parecem saídos da ficção científica.

Mapa da Laurasia e Gondwana com o Mar de Tétis
O supercontinente Gondwana dominava o Hemisfério Sul (Imagem: Lennart Kudling / Wikimedia Commons)

Nesse cenário também surgiam os primeiros ancestrais dos gnatostomados, os vertebrados dotados de mandíbulas. Embora ainda não fossem dominantes, eles coexistiam com uma grande variedade de peixes sem mandíbula e invertebrados marinhos.

Segundo Lauren Sallan, bióloga evolutiva e coautora do estudo, o registro fóssil deixa claro que houve uma ruptura marcante antes e depois da extinção. As causas exatas do evento ainda não são totalmente compreendidas, mas os efeitos sobre a vida marinha são evidentes.

Mudanças climáticas em duas etapas

A extinção ocorreu em duas fases distintas. Primeiro, o planeta passou rapidamente de um clima de efeito estufa para um estado glacial. Grandes geleiras se formaram sobre Gondwana, reduzindo o nível do mar e eliminando vastos habitats oceânicos rasos.

Milhões de anos depois, quando a biodiversidade começava a se recuperar, uma nova virada climática agravou a situação. O derretimento das calotas polares levou ao aquecimento das águas, agora pobres em oxigênio e ricas em enxofre, o que dizimou espécies adaptadas ao frio.

Calotas polares derretendo
Terra passou por um estado glacial, seguido de derretimento das calotas polares e aquecimento das águas (Imagem: Mongkolchon Akesin / Shutterstock.com)

Durante essas crises, os vertebrados sobreviventes ficaram restritos a refúgios ecológicos, áreas isoladas que funcionaram como bolsões de biodiversidade. Foi nesses ambientes que os peixes com mandíbula passaram a ter vantagem evolutiva.

Dados fósseis revelam avanço dos peixes com mandíbula

Para entender esse processo, os autores reuniram anos de dados paleontológicos sobre o Ordoviciano e o início do Siluriano, criando um novo banco de dados do registro fóssil desse período. A análise permitiu reconstruir os ecossistemas dos refúgios e medir a diversidade de gêneros ao longo do tempo.

De acordo com Wahei Hagiwara, doutorando e coautor do estudo, os dados mostram um aumento gradual, porém expressivo, da diversidade dos gnatostomados após a extinção. As ondas de colapso ambiental foram seguidas por picos de especiação milhões de anos depois, indicando uma relação direta entre a crise e a diversificação desses vertebrados.

Refúgios e a origem dos peixes modernos

O estudo também associou o crescimento da diversidade à localização geográfica. Em regiões que hoje correspondem ao sul da China, surgem os primeiros fósseis completos de peixes com mandíbula diretamente ligados a tubarões modernos. Esses animais permaneceram concentrados em refúgios estáveis por milhões de anos, até desenvolverem a capacidade de atravessar oceanos abertos e colonizar outros ambientes.

Enquanto isso, peixes sem mandíbula continuaram a evoluir em outras áreas e dominaram os mares por cerca de 40 milhões de anos. Ainda não está totalmente claro por que, ao se expandirem, os peixes com mandíbula acabaram superando todos os outros grupos sobreviventes.

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Um ciclo recorrente de “reinício” da diversidade

Os pesquisadores descrevem o processo como um “ciclo de reinício da diversidade”. Em vez de apagar completamente a estrutura ecológica dos oceanos, a extinção teria permitido que novos grupos ocupassem os mesmos papéis deixados por espécies extintas, recriando ecossistemas semelhantes, mas com organismos diferentes.

Segundo Sallan, esse padrão se repete ao longo do Paleozoico após outras extinções causadas por condições ambientais parecidas. Entender esses ciclos ajuda a explicar por que os vertebrados com mandíbula prevaleceram e por que a vida marinha moderna pode ser rastreada até esses sobreviventes, e não até grupos mais antigos como conodontes e trilobitas.

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