Imagens e vídeos falsos sobre a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, se espalharam rapidamente pelas redes sociais logo após a operação militar dos Estados Unidos no país latino. Em poucas horas, conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) ou descontextualizados somaram milhões de visualizações.
O problema foi a combinação entre escassez de informações verificadas em tempo real e ferramentas de IA cada vez mais acessíveis e realistas. Enquanto detalhes oficiais ainda eram escassos, imagens falsas passaram a preencher esse vazio, misturando ficção e realidade de um jeito difícil de separar. Mesmo para quem ao menos tenta checar antes de compartilhar.
Captura de Maduro foi real, mas muito do que viralizou nas redes sociais não
A captura de Maduro realmente aconteceu. Em 3 de janeiro de 2026, forças especiais americanas prenderam o presidente venezuelano em Caracas e o levaram para os Estados Unidos, onde ele deve responder a acusações ligadas a narcotráfico e narco-terrorismo. O anúncio público da operação, feito pelo presidente dos EUA, Donald Trump, foi o estopim para a avalanche de conteúdo nas redes.

Minutos depois da declaração, começaram a circular imagens falsas geradas por IA e vídeos antigos reapresentados como se fossem registros do ataque. Apareceram fotos de Maduro escoltado por supostos agentes da DEA (agência antidrogas dos EUA), vídeos de mísseis caindo sobre Caracas e cenas de multidões comemorando nas ruas. Tudo falso ou fora de contexto.
Esses materiais não circularam só em perfis anônimos. Infuencers e políticos locais ajudaram a amplificar o alcance, repostando imagens enganosas com legendas que reforçavam narrativas de vitória e humilhação de Maduro. Em alguns casos, postagens seguiram no ar mesmo após questionamentos públicos.
Segundo a NewsGuard, sete postagens enganosas (cinco imagens e dois vídeos) ultrapassaram 14 milhões de visualizações no X/Twitter em menos de dois dias. Eles também apareceram em plataformas da Meta e no TikTok, com menos engajamento, mas ainda assim suficientes para moldar a percepção inicial do que estaria acontecendo na Venezuela.
Quando a imagem parece real demais para ser mentira
Um dos motivos para esse tipo de desinformação funcionar tão bem é que as imagens não distorcem radicalmente a realidade. Elas se aproximam do que as pessoas esperam ver. Em vez de cenas absurdas, trazem versões “plausíveis” da operação. É o suficiente para enganar no primeiro olhar e passar batido por filtros rápidos de desconfiança.

A NewsGuard detalhou alguns dos casos mais emblemáticos. Um deles mostrava Maduro vestindo “pijama” branco dentro de um avião militar, como se tivesse sido retirado do país às pressas. A imagem, porém, apresentava sinais claros de IA, como janelas duplicadas na fuselagem, algo que não existe em aeronaves reais.
Outro exemplo foi uma foto de um soldado posando ao lado de um prisioneiro com um saco na cabeça, apresentada como um “selfie” da captura. Na verdade, o registro é de 2003 e mostra a prisão de Saddam Hussein. É um exemplo de conteúdo reaproveitado fora de contexto. Já um vídeo de helicóptero descendo sobre um complexo militar vinha de um evento em Fort Bragg, nos EUA, gravado meses antes.
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Sobre a operação real: Maduro foi levado de helicóptero até o navio USS Iwo Jima, usando roupas esportivas cinzas, com óculos escuros e fones de ouvido, conforme uma imagem divulgada pelo próprio Trump.
Ferramentas como busca reversa de imagens, detectores de IA e sistemas de checagem colaborativa ajudam a desmontar esses conteúdos, mas têm limites. Quando a imagem “parece real”, o trabalho fica mais lento e difícil. Questionadas pelo The Guardian, Meta, X e TikTok não responderam sobre como lidaram com a circulação massiva desse material.
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