Conheça Tobias, o robô humanoide chinês com jeitinho brasileiro

Conheça Tobias, o robô humanoide chinês com jeitinho brasileiro

Robôs humanoides já foram coisa de ficção científica um dia. Hoje, é um mercado de hardware que avança rápido. Gigantes globais disputam quem constrói a máquina mais ágil, enquanto players chineses quebram paradigmas ao baratear (mais) esse tipo de tecnologia. Mas um gargalo ficou em aberto na indústria: as fábricas entregam o metal e os motores, mas quem vai ensinar essas máquinas a conviver com os seres humanos?

É esta lacuna de software que a empresa brasileira Bolha decidiu explorar. A companhia desenvolveu o PRS (Personal Robot System), uma das primeiras plataformas focadas no desenvolvimento de robótica social da América Latina. Em entrevista ao Olhar Digital, o CEO da Bolha, Nagib Nassif Filho, explica como a engenharia nacional usa inteligência artificial (IA) física e modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês) para dar “alma”, contexto e empatia a robôs importados. A ideia é preparar o terreno para um futuro no qual interagir com humanoides será tão comum quanto conversar com o ChatGPT.

Do metal bruto à robótica social: como a Bolha criou o robô Tobias

Para fazer o hardware chinês falar a nossa língua, a equipe de Nassif precisa lidar com uma tríade complexa: o sistema operacional do robô (o ROS), a imprevisibilidade das LLMs e rígidas camadas de segurança para que a máquina não execute comandos perigosos. O principal laboratório dessa tese é o Tobias, humanoide modelo G1 da Unitree.

Abaixo, Nagib Nassif explica como funciona esse processo de “tropicalização” dos robôs e da IA (a entrevista foi editada para facilitar a leitura).

Como surgiu a ideia de trazer robôs humanoides chineses para o Brasil?

A Bolha já tem 16 anos de história focando em inovação e misturando o desenvolvimento de hardware e software. Como eu costumava fazer viagens exploratórias periódicas para estudar tecnologias emergentes, decidi ir para a China em 2025 com foco em robótica. Visitei várias fábricas e players do setor, mas o que me encantou foram os robôs humanoides. Eles trazem aquela sensação de ficção científica e tocam no desejo antigo do ser humano de ver uma máquina se comportando e trabalhando como nós.

Nessa viagem, me aproximei da Unitree, que quebrou um grande paradigma ao popularizar os humanoides através do preço. Enquanto a Boston Dynamics fazia robôs por US$ 200 mil (pouco mais de R$ 1 milhão, aproximadamente) ou US$ 300 mil (R$ 1,5 milhão), os chineses colocaram um modelo no mercado por US$ 16 mil (R$ 82 mil). Fiquei tão impressionado que comprei uma unidade do modelo G1 e a trouxe para o Brasil para servir como o nosso laboratório de testes. Trouxe esse exemplar focado na minha tese de que, como vamos trabalhar e conviver cada vez mais com robôs físicos no cotidiano, precisamos aprender a desenvolver a interface relacional entre humanos e máquinas.

O que vem na caixa? O que significa, na prática, receber um robô “cru” da fábrica?

Significa que você recebe o hardware bruto. A máquina. Quando estive na China, questionei os fabricantes sobre o que o robô já vinha sabendo fazer, se ele conversava ou se executava tarefas. E eles me responderam: “Não, nós somos uma fábrica de robôs, fazemos hardware”. Eles não estão preocupados com a parte relacional. O foco deles é construir a estrutura para que outras empresas e desenvolvedores peguem essa aptidão e criem suas próprias soluções de software.

Ilustração do robô humanoide da Unitree
Modelo “cru” do robô humanoide G1 da Unitree – Imagem: Divulgação/Unitree

Foi exatamente aí que tivemos o estalo de desenvolver essa camada. Por virem “crus”, esses robôs não são voltados para o usuário final, que hoje só conseguiria usufruir deles num contexto de entretenimento ou exibição. O ecossistema atual exige empresas que tenham facilidade de trabalhar na intersecção entre hardware e software, como nós, na Bolha. Os fabricantes estão evoluindo e tentando dar alguns passos nessa direção, mas eles nunca serão especialistas em comportamento e conversação porque esse não é o negócio deles.

Como integrar o sistema operacional do robô com LLMs que mudam toda semana?

Na verdade, o desafio não envolve apenas duas frentes, mas sim três camadas complexas que precisam conversar entre si. Nós partimos de uma base de hardware já padronizada pelo ROS [Robot Operating System], que funciona quase como um Windows ou um iOS dos robôs. Em cima dessa tecnologia, nós aplicamos a nossa própria camada de desenvolvimento de software. A grande dificuldade aparece no terceiro elemento, que é a inteligência artificial. Precisamos entender e orquestrar as diferentes LLMs do mercado para que elas nos ajudem a comandar a máquina mantendo a coesão de todo o contexto.

O nosso papel central é domar tanto o hardware quanto a própria IA, que pode se rebelar. Elas podem não falar apenas o que a gente quer. Como toda semana sai um modelo novo, uma skill inédita, precisamos descobrir o ajuste perfeito para o momento e estarmos prontos para embarcar essas atualizações quando saem. O ponto mais crítico desse processo é a segurança: uma LLM nunca pode comandar um hardware diretamente porque existe o risco de perder o controle. Por isso, nosso software tem que ter muitas camadas de segurança, agindo como um mediador que conversa com a IA e comanda o robô sem colocar o usuário em perigo.

Por que focar em robótica social e conversacional em vez de robôs de tarefas domésticas?

Embora todo mundo sonhe com um robô que lave a louça, passe roupa ou limpe a casa, a execução dessas tarefas cotidianas ainda é um caminho complexo que depende de uma visão computacional extremamente sofisticada. Hoje, vemos grandes empresas como a Tesla exibindo propagandas e casos de uso domésticos focados na atuação mecânica, mas quase ninguém responde como o usuário vai interagir ou dar comandos para essas máquinas. Foi aí que decidimos trazer os nossos 16 anos de experiência no desenvolvimento de produtos e usabilidade. Nossa ideia foi focar no conversacional e no contexto, atacando uma lacuna de interface relacional que o mercado de hardware deixou aberta.

Robô humanoide CLOiD, da LG, colocando pratos numa lavadora de louças
Robô CLOiD, da LG, aparece colocando louças numa (outra) máquina em imagem de demonstração – Imagem: Divulgação/LG

Focar na robótica social nos permite explorar atividades comportamentais e relacionais que vão muito além do trabalho braçal. Pode impactar áreas como a educação e a tecnologia assistiva, por exemplo. Existe até uma vertente de pesquisa em universidades que aponta que crianças vítimas de abuso têm muito mais facilidade de se abrir e relatar o caso para uma máquina ou um robô do que para um adulto, por não enxergarem a figura do agressor neles. O nosso grande motivador é justamente dar essa camada mais humana para essas máquinas.

Quem é o Tobias e qual o estágio do software PRS no mercado?

O Tobias é o “garoto de propaganda” do nosso conceito e a face pública desse projeto. Ele é o rótulo que demos à nossa unidade do robô humanoide G1 equipado com o sistema PRS. O Tobias tem sua própria rede social, participa de eventos, incorpora diferentes personagens e funciona como o nosso grande laboratório para surpreender o público, demonstrar as capacidades da tecnologia relacional e provar, na prática, a nossa tese de interação entre homens e máquinas.

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Sobre a plataforma PRS, nós estamos completando um ano de desenvolvimento contínuo do software. Já passamos da fase de prova de conceito, tivemos pilotos bem-sucedidos e hoje já temos uma versão comercial madura e validada pelo mercado, que inclusive está sendo portada para outros tipos de hardware, como robôs quadrúpedes e desktops. O nosso momento atual é de expansão. Estamos estruturando o produto comercialmente e buscando recursos, tanto próprios quanto de mercado, para escalar essa solução e transformá-la num grande negócio para o Brasil e para a América Latina.

Onde a robótica estará daqui a cinco anos?

Confesso que tenho bastante dificuldade em imaginar como o mercado estará daqui a cinco anos. Na verdade, é difícil prever até o próximo ano, já que vivemos ciclos de mudanças bruscas que acontecem semanal e mensalmente. Mas acho que daqui a cinco anos robótica vai ser algo cotidiano. Vai ser algo que vai estar na nossa vida de várias formas diferentes. E acho que, daqui cinco anos, todo mundo vai ter algo robótico para se relacionar. Veja os robôs aspiradores, por exemplo. Um tempo atrás, eram itens de luxo. Hoje estão populares, equipados com sensores LiDAR, mapeando as casas etc.

Embora o Brasil enfrente barreiras complexas de custo, acesso e perfil populacional, o futuro trará tecnologias emergentes focadas em atender também as camadas menos abastadas da população. E eu quero muito que a gente faça parte dessa popularização. Esse avanço será surpreendente. No futuro, vejo essas máquinas interagindo e colaborando conosco o tempo todo.

(Quer continuar lendo sobre robôs “sociáveis”? Confira esta entrevista do Olhar Digital com o pessoal da Caramelo Biônico, criadora do Zoltron – robô com cinco IAs que “prevê o futuro”.)

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