Cuidado! Seu carro já pode ser hackeado

Cuidado! Seu carro já pode ser hackeado

Especialistas da Kaspersky identificaram o primeiro vírus criado para infectar centrais multimídia de carros que usam Android. O malware mirava modelos que usavam software da DoFun, empresa chinesa da Shenzhen Driving Control Technology.

Ou seja: o vírus não afetava uma marca de carro específica, mas sim “centrais multimídia genéricas com Android e sistemas customizados que usam a infraestrutura de software e a loja de temas da DoFun”, explica Leonardo La Rosa, especialista em tecnologia, em entrevista ao Olhar Digital.

Essa, digamos, operação foi atribuída a cibercriminosos associados à rede BADBOX e ao MoYu Group. 

Segundo o especialista, são “operadores especializados em infectar em massa ecossistemas Android vulneráveis – como TV boxes baratas e, agora, centrais multimídia de montadoras que usam soluções da empresa chinesa DoFun”.

A desenvolvedora do software foi notificada pelos pesquisadores da empresa de cibersegurança. E, segundo a Kaspersky, as brechas de segurança identificadas foram corrigidas.

Em tese, o caso foi resolvido. Mas abriu caminho para outros episódios que podem render casos mais graves.

A grande ameaça é o conceito de ‘porta aberta’

O vírus infectava centrais multimídia sem a pessoa perceber. Segundo a Kaspersky, ele aproveitava um recurso que já vinha instalado no sistema do veículo. Era assim:

  • A porta de entrada: O sistema da DoFun tinha o aplicativo (legítimo) TWCore. Sua função era se conectar à nuvem da empresa para baixar atualizações e aplicativos;
  • O truque: Em vez de baixar um update normal, o sistema era enganado para baixar um programa malicioso chamado JarSevice;
  • A instalação do “Cavalo de Troia”: O JarService baixava e instalava o módulo malicioso principal, chamado zhima, sem o usuário perceber;
  • O funcionamento escondido: O vírus rodava em segundo plano enquanto a central multimídia era usada;
  • O hack: O vírus conectava as centrais multimídia a uma rede zumbi (botnet). Os invasores usavam o processador e a internet do carro para praticar fraudes com anúncios e redirecionar tráfego na web.
Infográfico explicando como vírus infectava centrais multimídia de carros
Vírus infectava centrais multimídia de carros por meio de app legítimo – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

“Isso não significa que alguém passou a ter automaticamente acesso à direção, aos freios ou à aceleração do veículo”, esclarece Stefano Levorato, especialista em inteligência artificial, em entrevista ao Olhar Digital.

Na prática, uma central de mídia hackeada ficava mais lenta e consumia mais dados de internet. Isso pode parecer um mero incômodo chato. “Mas a grande ameaça é o conceito de ‘porta aberta’”, diz La Rosa.

“Uma vez que o malware instala um backdoor na central do carro, esse dispositivo passa a atender comandos remotos”, explica o especialista.

E daí? “O criminoso pode decidir vender o acesso a essa conexão para que outros cibercriminosos mascarem crimes digitais usando o IP do seu carro”, alerta o diretor.

“Ou pode injetar módulos mais agressivos no futuro, capazes de capturar dados pessoais, contas vinculadas e históricos de navegação do motorista”, acrescenta.

O perigo real não é o sintoma de hoje, mas a ponte que foi construída para o ataque de amanhã.

Leonardo La Rosa, especialista em tecnologia, em entrevista ao Olhar Digital.

Levorato, que é cofundador da Sociedade Brasileira de Inovação (SBI) e Diretor Nacional da Global Innovation Institute (GInI) no Brasil, aponta outra questão importante:

“Precisamos ter bastante cuidado para não transformar uma possibilidade num fato. Até o que temos de informação não existem evidências de que o malware tenha chegado aos sistemas críticos do automóvel.”

“O que existe é a capacidade de evoluir dentro do ambiente comprometido”, diz o especialista.

Segundo Levorato, “para que pudesse alcançar sistemas como frenagem, direção ou powertrain (motor e câmbio) num veículo moderno, o hacker ainda teria de superar outras barreiras de segurança”.

‘Criminosos perceberam que carros viraram grandes smartphones sobre rodas’, diz especialista

Para La Rosa, este caso é um divisor de águas. Isso porque, segundo o especialista, marca a migração oficial das botnets de computadores e smartphones para a Internet das Coisas veicular.

“Os criminosos perceberam que os carros modernos viraram grandes smartphones sobre rodas, mas que muitas vezes não possuem a mesma maturidade de segurança e ciclo de patches que um celular topo de linha tem”, observa o diretor.

La Rosa continua: “É uma mudança de paradigma. Os hackers notaram que existe um oceano de poder computacional subutilizado e mal protegido nas garagens do mundo inteiro.”

O especialista também aponta que “à medida que as montadoras integram cada vez mais o sistema de infoentretenimento aos sensores e comandos do veículo por uma questão de conveniência, a superfície de ataque só aumenta”.

Ilustração de vírus em carro moderno
Cibersegurança tem se tornado cada vez mais importante para carros modernos – Imagem: Olhar Digital via ChatGPT

“O mercado automotivo vai ter que aprender a tratar firmware e software com o mesmo rigor de segurança que trata a engenharia mecânica”, diz o diretor.

Outro ponto importante levantado por La Rosa: “O caso da botnet em centrais multimídia funciona justamente como uma ‘prova de conceito’ (Proof of Concept) para os cibercriminosos.”

O que isso significa? “Este caso provou que os criminosos conseguiram arrombar essa porta e entrar na sala apenas para usar a nossa luz e internet”, afirma o especialista.

“O perigo real para o futuro é que, uma vez dentro da sala, eles comecem a tentar abrir as portas dos quartos – onde estão os controles de trava, localização, sensores e sistemas essenciais do veículo”, acrescenta.

Para Levorato, o caso “não necessariamente cria o caminho para ataques parecidos ou piores”. “O que ele faz é demonstrar que esse tipo de ataque existe e pode ser explorado em escala.”

O principal significado deste episódio é menos o dano que esse malware específico provocou e mais o alerta que ele representa sobre o novo ambiente tecnológico do automóvel.

Stefano Levorato, especialista em inteligência artificial), em entrevista ao Olhar Digital.

Dicas de segurança

O que fazer frente a essa ameaça, então? “A primeira dica é manter o software do veículo sempre atualizado e dar preferência às atualizações oficiais fornecidas pela montadora ou concessionária”, diz La Rosa.

Outra dica do especialista: “Evite expressamente fazer procedimentos de ‘root’, instalação de firmwares paralelos ou baixar aplicativos por fora das lojas oficiais para tentar desbloquear funções na central multimídia.”

O diretor também recomendou que, “se você utiliza um sistema de infoentretenimento Android genérico ou modificado, evite conectar suas contas pessoais mais sensíveis ou fazer transações financeiras por ele”.

“Por fim, fique atento aos sinais operacionais: se a tela do carro começar a apresentar travamentos atípicos, consumo excessivo e inexplicável da franquia de internet ou comportamentos estranhos ao ligar o veículo, vale a pena procurar o suporte técnico da marca para verificar a integridade do sistema”, diz.

Levorato acrescenta que “a responsabilidade não pode ser transferida totalmente para o consumidor”. “Existe uma parte do sistema veicular que o proprietário simplesmente não consegue controlar.”

Segundo o especialista, correções de vulnerabilidades de firmware, integração entre sistemas do veículo, segurança das atualizações e monitoramento de ameaças dependem das montadoras e de seus fornecedores.

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