Deep techs são startups que nascem de pesquisas científicas complexas desenvolvidas dentro de laboratórios. O Brasil tem 952 empresas desse tipo mapeadas, mas a matriz dessa inovação é desigual. Enquanto biotecnologia, saúde e agronegócio concentram quase dois terços dessas startups no país, a robótica conta com cerca de 50 empresas. Ou seja: o país aprendeu a inovar em biologia e no campo, mas trava quando precisa criar hardware, sensores e máquinas.
Essa dominância da biociência não significa que o mercado privado esteja financiando a área. Na verdade, fundos de investimento brasileiros preferem apostar em softwares de retorno rápido. No ecossistema de deep techs, 47% das empresas nunca receberam investimento algum e apenas 7% captaram dinheiro privado, segundo o Latam Deep Tech Radar Brasil 2025, relatório lançado pela consultoria Emerge junto à plataforma Cubo Itaú em setembro. A biotecnologia só lidera no Brasil porque se apoia em décadas de investimento público de entidades como Embrapa, Fiocruz e Fapesp. Já a robótica e o hardware nacionais não tiveram esse suporte histórico.
A ‘morte na bancada’
Transformar um robô ou um sensor desenvolvido na universidade num produto comercial é um desafio imenso no Brasil. Para a maioria das deep techs de hardware e física pesada, a jornada costuma travar logo na saída do laboratório. Diferente de um software, que exige basicamente código e servidores, criar dispositivos demanda testes caros, componentes complexos e um caminho regulatório bem mais longo.
O primeiro grande obstáculo é a falta de infraestrutura intermediária para a prototipagem. O cientista brasileiro consegue avançar com a pesquisa básica na bancada da faculdade. Mas dificilmente encontra laboratórios abertos e equipados fora da academia para testar seu equipamento em escala industrial. A isso se soma a falta de investidores dispostos a bancar o custo inicial de peças, sensores e circuitos que dependem de cadeias de suprimento dominadas por potências estrangeiras.

Lucas Delgado, porta-voz da Emerge, explica que a lógica do mercado financeiro local ainda resiste à ciência de fronteira. “Hardware é um campo muito amplo. Em robótica, modelos autônomos e de precisão enfrentam uma grande dificuldade, enquanto a automação industrial atrai algum interesse do mercado”, diz Delgado, em entrevista ao Olhar Digital. “Mas o risco é elevado porque, no início da jornada, essas startups não veem receita. E todo o capital é investido em pesquisa e desenvolvimento (P&D), não numa máquina de vendas.”
Além das travas físicas e financeiras, existe uma barreira de linguagem na transição da universidade para o mercado. “Muitos projetos continuam sendo apresentados como projetos científicos para quem quer ouvir sobre negócios, na mesma linguagem usada em submissões para agências de fomento”, explica o porta-voz da Emerge. Para investidores de risco, faltam dados de mercado fundamentais, como a definição do cliente final, o custo de produção e a viabilidade comercial do produto.
Essa desconexão entre o ambiente acadêmico e o universo corporativo afeta o ritmo de inovação do país. “O universo do capital de risco é outro. Não à toa, apenas 10% das deep techs brasileiras combinam capital público e privado, o que é sinal de que a travessia entre laboratório e mercado segue sendo o gargalo estrutural do ecossistema”, destaca Delgado.
Como a indústria tenta colocar robôs no mercado
Sem a presença marcante do capital de risco privado, a principal alternativa para colocar robôs e equipamentos físicos no mercado tem sido o de-risking. Esse conceito consiste no compartilhamento do risco financeiro e tecnológico entre o setor público e as empresas. Em vez de depender do mercado financeiro tradicional, o desenvolvimento de hardware se viabiliza por meio de subsídios e modelos de cofinanciamento que barateiam a inovação industrial.
Dados consolidados da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), enviados ao Olhar Digital, ilustram essa dinâmica. Entre 2021 e 2026, a organização contratou 3.014 projetos de pesquisa e desenvolvimento com a indústria nacional. Desses:
- Softwares: 1.197 projetos (39,7%);
- Produtos e dispositivos: 837 projetos (27,8%);
- Automação, robótica e tecnologias habilitadoras: 133 projetos (4,4%).

Para ajudar a superar os altos custos de prototipagem, acordos com entidades como o Sebrae garantem aportes não reembolsáveis que cobrem até 70% da contrapartida exigida de micro e pequenas empresas. “O modelo de atuação da Embrapii foi estruturado justamente para reduzir esse risco tecnológico e financeiro, permitindo que empresas invistam em inovação com maior segurança”, explica a organização ao Olhar Digital.
Mesmo com uma fatia menor do mercado, a robótica nacional coleciona aplicações práticas de alta complexidade. É o caso do SUBOT, robô autônomo criado pela Unidade Embrapii Cimatec, na Bahia, para inspecionar subestações elétricas de alta tensão.
Outro destaque é o Snake Robot, dispositivo flexível desenvolvido pelo Instituto Senai de Inovação em parceria com a General Motors (GM) para vistoriar soldas na indústria automotiva. Este projeto gerou uma patente internacional licenciada para o mercado.
Os resultados dessas iniciativas indicam que a produção de hardware no Brasil não precisa esperar por uma mudança radical na mentalidade dos fundos de investimento privados. A soberania do país em automação e equipamentos físicos deve continuar ancorada na ponte entre a indústria e os centros de pesquisa aplicada. “Esses exemplos mostram que, quando empresas e instituições de ciência e tecnologia trabalham de forma integrada, é possível desenvolver no Brasil tecnologias de alta complexidade com aplicação prática”, conclui a Embrapii.
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