A presença de artistas criados por meio de inteligência artificial (IA) nas paradas da Billboard deixou de ser ficção para virar dado concreto. Em 2025, personagens sintéticos começaram a aparecer nas listas de rádio e de streaming.
Isso chama atenção para uma mudança que não nasceu do hype. Ela vem de uma transformação mais profunda no modo como se faz, distribui e consome música. Só que esse impacto não é linear. O que isso significa: nem tudo o que parece “invasão da IA” é, de fato, um avanço real sobre a indústria.
Como assim? Bem, o caso mais barulhento do ano – a chegada de um cantor country criado por IA ao topo de um ranking – ganhou manchetes mundo afora. O que passou batido é como essa história expôs a confusão entre fenômeno musical, estratégia de marketing e indicadores que pouca gente sabe como funcionam.
IA chega às paradas, mas impacto real ainda é difícil de medir
Pelo menos seis artistas criados por meio de IA ou que usam muito essa tecnologia entraram em rankings recentes, segundo a Billboard. Eles atravessaram do gospel ao rock, passando pelo country.
O avanço da IA nas paradas passou por personagens como Xania Monet, criada pela compositora Telisha “Nikki” Jones com ajuda do Suno. Ela estreou em listas como Hot Gospel Songs, Hot R&B Songs e Adult R&B Airplay, assinou contrato multimilionário e virou símbolo desse momento no qual avatares digitais competem com artistas humanos.

Outro caso bem conhecido: Breaking Rust. Apontado como cantor country criado via IA, o nome viralizou ao alcançar um dos rankings mais populares da Billboard. Só que esse ranking específico media downloads digitais pagos, algo que hoje tem escala reduzida.
Como explicou o músico e produtor Johnny Bolzan, em entrevista ao Olhar Digital, bastaria gastar cerca de US$ 3 mil (aproximadamente R$ 16 mil) em downloads para alcançar um top 10. É um caminho que aponta mais para uma estratégia de visibilidade do que para um movimento de público em larga escala.
Em outra frente, plataformas como a Deezer passaram a usar detectores que sinalizam conteúdo gerado por IA. Por quê? Está cada vez mais difícil saber o que é sintético, o que tem muita assistência de IA e o que é apenas muito bem produzido.
Enquanto novos artistas digitais surgem anonimamente, músicos humanos demonstram preocupação. Kehlani, por exemplo, criticou publicamente o fato de uma artista de IA ter contrato milionário num momento em que muitos artistas reais enfrentam instabilidade no mercado.
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O que está mudando no ‘fazer música’ graças à IA
Muito antes de chegar ao topo de rankings, a IA já vinha alterando a base do trabalho musical. O que antes exigia equipamentos caros ou conhecimento técnico avançado, hoje pode ser resolvido com ferramentas que se tornaram comuns no estúdio.
Separar canais de uma música, por exemplo, era algo considerado inviável há poucos anos. Agora, virou recurso cotidiano. A mesma lógica vale para melhorar gravações feitas em estúdios caseiros, refinando a captação até ela se aproximar de microfones profissionais.
Esse salto técnico abriu caminho para usos criativos. MC Jhey, por exemplo, lançou um dos hits de 2025: “Predador de Perereca” num estilo anos 1970 e 1980. Com mais de dois milhões de ouvintes mensais no Spotify, o perfil volta e meia solta versões alternativas de funks que viralizam nas redes sociais.
Produtores como DJ PS2Desbloqueado passaram a utilizar IA para isolar vozes e rearranjar elementos de faixas, criando versões mais flexíveis do que o sampling tradicional permite.
Já a compositora Tallia usa ferramentas como o ChatGPT para testar ideias e lapidar trechos de letras. Mas evita compor músicas inteiras com IA. Isso reforça como parte dos artistas vê esses recursos como apoio, não substituição.
O próprio Johnny conta que sua rotina mudou radicalmente. Hoje, o produtor consegue criar trilhas complexas (uma mistura de house com sertanejo raiz, por exemplo) em um dia. Como? A IA o ajuda a prototipar arranjos. Depois, ele os refina manualmente.
No entanto, essa onda criativa trouxe discussões legais que ficaram maiores em 2025. Plataformas como o Suno levantaram críticas ao permitir que obras originais de usuários fossem usadas para treinar algoritmos sem retorno financeiro proporcional.
Enquanto advogados alertam para riscos de transparência, artistas como Caetano Veloso, Marisa Monte e Marina Sena se uniram para pedir um marco regulatório que obrigue empresas a informar quando usam obras protegidas em treinamentos.
Na indústria, a sensação é de que a tecnologia avançou mais rápido do que a proteção aos profissionais humanos.
A porta que a IA abre para iniciantes na música
Se há incerteza no topo da indústria, a base ficou mais larga e acessível. Para muitos, a IA virou a entrada que antes não existia.
Para Johnny, a tecnologia não transforma ninguém em artista, porque isso depende de referências, vivências e estética pessoal. Mas ela abre espaço para quem tem ideias na cabeça e nunca teve equipamento ou formação técnica para tirá-las do papel.

Atualmente, alguém pode cantarolar uma melodia e batucar um ritmo na mesa para, depois, transformar isso em arranjos completos com ajuda da IA. É um ponto de partida impensável anos atrás.
Esse movimento traz um choque de estética. Músicas inteiramente geradas por IA tendem a soar perfeitas demais, com afinação impecável e estrutura previsível – algo que Johnny descreve como “música ultraprocessada”.
Isso funciona para parte do público, especialmente no consumo mais passivo das plataformas. Mas convive com quem prefere obras “orgânicas”, com imperfeições e marcas pessoais.
Para o músico, essa multiplicidade não é nova. O Spotify já recebia milhares de faixas por dia antes da explosão da IA. E o excesso de oferta sempre foi um desafio.
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A diferença agora é a velocidade. A IA se tornou aliada de artistas com limitações técnicas, que conseguem experimentar arranjos, testar caminhos e alcançar resultados antes inviáveis. Ainda assim, nada disso substitui o fator humano que define a música como arte – a tal “carga visceral” que não se produz em algoritmo.
O que a tecnologia faz é ampliar possibilidades, acelerar processos e democratizar a criação. O futuro, no fim das contas, parece menos sobre máquinas tomando o lugar de músicos e mais sobre músicos descobrindo ferramentas para ampliar o próprio alcance.
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Seja você um músico experiente ou alguém que nunca tocou um instrumento na vida, a tecnologia pode te ajudar! Pensando nisso, o Olhar Digital se juntou ao produtor Johnny Bolzan, que você conheceu nesta reportagem, para lançar o curso Do Zero ao Hit.
Você vai aprender, de forma simples e prática, como transformar qualquer ideia musical em uma faixa completa usando inteligência artificial. Mesmo que você nunca tenha produzido uma música antes!
A tecnologia não vai fazer música por você, mas com você. Você traz a ideia, ela traz o som, e você aprende a ter controle e consistência das suas criações.
Eu nunca fui um baita de um instrumentista. Eu toco, eu adoro, eu estudo. Mas nunca fui virtuoso em nenhum instrumento. Em determinado momento, com o computador, que virou meu principal instrumento, e com muito estudo, eu consegui usar minhas limitações ao meu favor. Se eu não consigo gravar algo na guitarra numa velocidade mais rápida, posso gravar devagar e acelerar na produção. Com a inteligência artificial é parecido. Se eu não consigo chamar um trio de sopro para fazer uma música minha, eu consigo cantarolar uma melodia, jogar na IA e trazer de volta para que eu visualize. Tem pessoas que formam as músicas na cabeça, eu sou uma delas. Você pode, simplesmente, com a IA, cantarolar e refinar esse processo para ficar mais próximo de uma ideia que você visualizou.
Johnny Bolzan, produtor musical
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